A angústia e o amadurecimento
Às vezes, olhando pela porta de minha sala, me pego a olhar e analisar um estagiário ou um funcionário mais novo. São muitos hoje em dia e o que estranho é o fato da maioria não ter aquele brilho de quem vai mudar o mundo e vencer a tudo e a todos.
É fato que nós também perdemos um pouco do brilho que tínhamos no olhar. Desistimos muitas vezes sem ao menos forçarmos um embate de ideias e pontos de vista. Bastou apenas a desistência de argumentar. “Não adiantaria nada mesmo” ou “As coisas são assim” podem ser pensamentos neste momento. Pensamentos que servem para tentar sufocar o brilho de antes.
Toco neste assunto, recorrente em desabafos de amigos, porque eu já passei por isso. Virei, em um determinado momento, uma sombra ou um corpo sem ideais.
Ao depararmos com isso a primeira impressão médica é diagnosticar como deprimidos. Eu não sou médico. Respeito imensamente as pessoas que sofrem com depressão. É uma doença cruel que traduz em vida o que seria uma morte, mas ficou tão difundida e utilizada que muitas vezes se torna banal quando ouvimos que alguém é vítima dela.
Minha tese é de que há um estágio anterior a depressão chamado angústia. Nós administradores somos muito propensos a nos angustiarmos e quando deixamos que ela aumente avassaladoramente podemos cair em uma depressão.
No meu caso eu fui vítima de angústia. Eu era novo e, infelizmente, em casa nunca tivemos um administrador ou alguém que ocupasse cargo parecido. Minha família sempre foi trabalhadora e passou dificuldades mil para que a geração mais nova pudesse ter o melhor estudo e condições. A resposta que tive ao desabafar foi que eu devia aguentar todos os dissabores, dificuldades, ofensas, puxadas de tapete, falta de reconhecimento, salário baixo, armações e etc, etc, etc. Eu tinha um emprego e não podia abrir mão pois a vida era assim.
Sei que você pode pensar que consegui provar que eles estavam errados, mas a verdade é que eles estavam certos. É claro que não podemos nos humilhar ou suportar situações vexatórias. O respeito e o amor próprio são fundamentais para um administrador (não confundir isso com soberba). O fato claro é que há dificuldades enormes e aparentemente intransponíveis, mas nós estudamos justamente para poder saber o que fazer diante dessa realidade. Do contrário não precisaria existir a faculdade de administração, qualquer um resolveria os problemas da empresa.
O fato é que existe o “mal”. As dificuldades normalmente são causadas pelas pessoas e não pela empresa. Não existe empresa ruim, existe pessoas ruins gerindo uma empresa.
Falei que sofri de angústia, lembra? O que relatei acima foi só um momento de choque e decepção. A angústia veio quando passei a ver tudo àquilo como normal e preferi esquivar dos combates a ter que enfrentar. O tempo passou e a empresa não mudou, mas minhas atitudes sim. Eu tinha virado um parafuso e não uma peça da engrenagem. Cumpria meu serviço e só. Acabaram as ideias, as mudanças e o brilho no olhar.
Era para ter sido mandado embora, mas o chefe que antes roubava meus projetos não o fazia por fé de que ainda voltaria das cinzas e realizaria o bom trabalho de sempre. Isso não aconteceu.
Meses se passaram e durante uma situação em casa, ao reparar em minha reação, percebi que eu não era mais eu mesmo. Virei sombra.
Rezei com afinco aquela noite e pedi coragem para enfrentar a mim mesmo.
Ao entrar na empresa parecia que o tempo havia voltado. Eu via as pessoas e voltei a sorrir e cumprimenta-las, não de uma maneira automática, mas de coração. Meus olhos brilhavam novamente e a única alternativa que tinha era pedir demissão.
Não fiquei nem 1 mês sem emprego.No novo emprego obtive um cargo melhor e em poucos meses realizei muitas coisas. Era bom trabalhar feliz novamente.
Lembra-se dos problemas que relatei no emprego antigo? Eles também existiam neste emprego. Alguns maiores e outros menores. Pessoas ruins? Talvez mais do que no antigo.
A angústia acabou. Você pode imaginar que a felicidade era plena após sair do antigo emprego, mas o que mudou não foram os ares ou as pessoas. Caso você tenha sido atendo fica claro o que aconteceu comigo: Eu amadureci.
Poderia ter continuado no antigo emprego e mudar apenas minha atitude, mas achei melhor mudar tudo, começar novamente.
Esta história não é da minha vida. Fiz um texto em primeira pessoa, pois é mais fácil encontrar ligação, mas ele poderia ser a história de vários de vocês.
É estranho ver que evoluímos todos os dias como profissionais e técnicos, mas esquecemos de como é importante conhecer a nós mesmos e amadurecer. Não há facilidades e o caminho de um administrador é duro, espinhoso e até cruel, mas se você mantiver o brilho nos olhos o resultado será maravilhoso.
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