Os últimos anos se caracterizaram por uma tendência à concentração de capital no setor bancário do Brasil, com instituições incorporando outras, visando a manterem-se em posição de disputa no mercado. O interessante é que, se num primeiro momento isto se dá por conta do acirramento de competição, o que beneficiaria o consumidor, alvo da disputa, a médio e longo prazo, estabelecidas as novas posições, a tendência é que se passe a reduzir a concorrência e prevaleça o ‘instinto de preservação organizacional’ o que leva as instituições dominantes do mercado a atuarem de modo cartelizado. São gigantes incorporando outros gigantes.
O caso brasileiro tem um aspecto específico de importância relevante, a concentração não se deu apenas no setor privado, mas também no setor público, e em que pesem os bancos públicos brasileiros, hoje cada vez em menor número, adotarem gestões com diretrizes privadas, objetivando o lucro dos seus acionistas, ainda se tratam de empresas de economia mista, onde se faz presente o Estado, que em determinados momentos pode utilizá-los, seguindo objetivos de ajustes em favor da coletividade.
Exemplo claro disto foi, na recente crise ao final de 2009, quando houve aumento dos juros e retração do crédito privado, o governo brasileiro se utilizou de suas instituições não apenas como fomentadoras de crédito no sentido quantitativo, mas também no qualitativo, com a oferta de taxas de juros menores, visando a atuar no sentido da expansão do crédito na economia, e assim estimular a demanda em queda, o que juntamente com a política fiscal de isenção momentânea de determinados impostos, foi fundamental no controle da crise.
O novo quadro que se desenha pelo lado do setor privado movimentou aquisições entre os participantes tops do ranking das maiores instituições surgem duas mega-instituições: Santander e Itaú. No caso do grupo espanhol após entrar no mercado brasileiro via aquisição do Banespa, adquiriu o ABN-Real, já provinha de um momento de concentração anterior onde um grupo holandês havia adquirido o brasileiro Real. Já o Itaú acabou por adquirir um dos seus mais tradicionais concorrentes no mercado brasileiro, o Unibanco e uniram suas operações em novembro de 2008.
No caso Itaú-Unibanco a estratégia já é clara, assim, embora a marca ‘Unibanco’ fosse uma das mais valorizadas do mercado brasileiro, estimada pela consultoria BrandAnalytics / Millward Brown em 1,7 bilhões, a força da marca Itaú, estimada em 9,9 bilhões, parece ter o atrativo suficiente para incorporar a outra sem perdas, assim a estratégia é a sobreposição da marca Itaú onde antes havia Unibanco, será um trabalho, que sepultará uma marca de 85 anos, e transformará não apenas a fachada das 1000 agências do banco absorvido, mas também o seu atendimento segundo os padrões dominantes do grupo Itaú.
Já no caso Santander-Real, ocorre algo diferente, da mesma forma que anteriormente o ABN, embora comprador, optou por manter a marca Real por conta de seu forte apelo, a estratégia do Santander é de mostrar a união dos dois bancos, e não a absorção de um pelo outro, ou seja, se entendeu que em que pese o porte maior do banco espanhol comprador, este poderia ganhar pontos ao adicionar a imagem do Real a sua, ou seja, embora na prática o Real deixe de existir, a idéia a fazer algo similar ao que se fez na época do Banespa, vendendo a imagem de uniam visando absorver a boa imagem da instituição adquirida. Isto promete uma estratégia que vise antes acrescer a imagem dos Santander os bons valores associado a sustentabilidade ligados ao Real.
Já no setor público o Banco do Brasil, instituição federal, adquiriu a Nossa Caixa do governo do Estado de São Paulo, por R$ 5,4 bilhões o que em parte reflete as linhas de gestão do governo federal e do paulista, respectivamente PT e PSDB, enquanto o primeiro expande a empresa pública e busca maior intervenção do estado na economia, o segundo seguindo preceitos na linha antes liberal, do que social democrata, se desfaz do patrimônio público, na busca da redução da máquina estatal, neste sentido Banespa e Nossa Caixa, foram vendidos em gestões tucanas.
Neste caso a tendência da absorção é ser mais rápida, dado que embora o apelo da Nossa Caixa, fosse forte, este se fazia mais no plano regional, enquanto que a marca BB tem maior amplitude, assim, o BB – Nossa Caixa, deverá logo ser apenas Banco do Brasil, a marca paulista, haverá de ser apenas lembrança, como é hoje o caso do Banespa. O mesmo fim deverá ter o BESC, Banco do Estado de Santa Catarina também comprado pelo BB em setembro de 2008, por similares motivos ao já exposto, o prazo limite parece ser 2013, porém quanto a operacionalização e divisão do mercado bancário, o que temos é fato consumado.
Entretanto mais do que nunca a concentração bancário no mercado brasileiro é atingiu um alto grau, não por acaso os 25 maiores bancos tem 98,8% do total de depósitos, mas isto não é o que chama mais atenção, os 10 maiores têm em torno de 93%, e os seis maiores 86,4%, neste quadro os públicos ou dominantemente públicos, o BB 25,77%, praticamente ¼ dos depósitos, e ocupada a liderança, a CEF vem em terceiro com 14,57%, e o BNDS em sétimo com 2,25%, o que dá ao governo federal uma atuação direta sobre 42,59% do mercado, já os gigantes privados: Itaú, está em segundo com 16,44%, o Bradesco em quarto com 14,08% e o Santander em quinto com 10,13%, o HSBC é sexto com 5,36%, a soma aqui dá 46,01%.
Ou seja, sete bancos têm 88,6% dos depósitos do mercado, conclusão: alta concentração, porém se pudemos dividir em partes este percentual existe um relativo equilíbrio entre a atuação do setor público e do privado, o que em algum sentido contribui para a garantia do sistema, assim como da intervenção do Estado no setor, o que torno importantíssimo os rumos adotados pela gestão pública, pois pode muito contribuir, ou muito atrapalhar, ao consumidor brasileiro num mercado tão concentrado cabe cobrar do governo para que se conter os abusos.