06 de novembro de 2008, às 23h46min

A importação de uma crise - I

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Apesar dos exageros da imprensa mundial e nacional com suas manchetes (pânico, furor, medo, terremoto, temor, mercado com aversão ao risco, colapso, estupor etc) e de acadêmicos (inclui jornalistas) que retiram a poeira de seus artigos escritos 30 ou 40 anos atrás, não estamos vivendo crise do Capitalismo ou do Liberalismo, tampouco nos encaminhamos para uma economia socialista ou ainda estatizante, nem vivemos as conseqüências de uma super-produção capitalista iniciada nos anos 1970, estamos no ano 2008. Os céus não vão se rasgar e o mundo não vai acabar-se.

Notem que até janeiro de 2008 o crédito como proporção do PIB totalizava 34,7% , sendo que 11, 9% correspondiam ao setor público , sobrando 22,8% para empresas nacionais e estrangeiras (fonte: BACEN). É pouco se compararmos o Brasil com economias similares que estão nas casas dos 60%, 70% a 90% e, os próprios EUA que monta à casa dos 150%.

Segundo o IBGE, 80% dos empregos formais e informais criados e mantidos no Brasil, o são pelas micro, pequena e média empresas, essas empresas não dependem diretamente do crédito bancário, ou mais especificamente do crédito dos bancos comerciais, elas se auto-financiam (ou financiam-se com o BNDES), com os recursos advindos de suas receitas e das economias familiares que detêm essas empresas, desconhecer esse fenômeno econômico é desconhecer o Brasil.

As empresas brasileiras exportadoras que especularam com derivativos de câmbio (não apenas para se protegerem, mas para especular em grande medida) terão que arcar com seus prejuízos e eles se farão presentes nos próximos balanços contábeis e reuniões de acionistas.

Não raro, devemos esperar que surjam ações judiciais por parte de acionistas (incluindo fundos de pensão que participam das constituições acionárias) cobrando explicações e indenizações sobre os motivos de tamanhas exposições de riscos, a que foram submetidas algumas empresas, não precisamos citar seus nomes aqui porque a maioria são do conhecimento público, estão nos jornais. Não existe Capitalismo sem risco, sem ousadia ; todavia, risco não é sinônimo de aventureirismo ou idiotice é substituta para ousadia, principalmente quando administramos recursos de terceiros. Não há como fugir disso.

Cumpre ao governo federal manter e ampliar na medida do possível, os canais de créditos e assegurar com medidas concretas que os fornecedores tradicionais de créditos também o façam.

Nos EUA , as empresas podem (há anos) ter concluído por meio de estudos que a melhor opção para seus investimentos ou especulação fosse a utlização de recursos financeiros de terceiros, ou seja, de outros agentes econômicos. Esse princípio foi ignorado porque em linhas gerais, considerando-se o mercado de capitais e as transações com ações e títulos, quando uma empresa lança ações ou debêntures nos mercados com o objetivo de capitalizar-se (ou especular), está captando recursos financeiros de agentes econômicos superavitários (e não o contrário, de deficitários ou falidos), com recursos disponíveis em grande monta para emprestar, investir ou especular. O que presenciamos (agora) é que esses princípios de boa administração foram ignorados, seja por esperteza, seja por ignorância do que seja administrar corretamente.

É certo que os EUA enfrentam sérios problemas macroeconômicos, microeconômicos, de regulação e fiscalização das atividades empresariais e dos mercados de capitais, contudo, não serão resolvidos apenas com as soluções das técnicas de Economia (ou das Ciências Econômicas) porque as soluções passam por mudanças no modo de vida da população, população acostumada ou levada a crer num determinado modo de vida durante décadas, a viver além de suas possibilidades econômicas.

Novas gerações de norte-americanos serão necessárias para produzirem um modo de vida realista, baseado nas possibilidades concretas de crescimento e desenvolvimento, não nos desejos advindos mais dos sonhos do que do trabalho.

No Brasil, o importante é que os governos federal, estaduais e municipais continuem com seus programas de investimentos produtivos e de manutenção (custeio) da máquina pública, e dos gastos em programas sociais, pois foram esses procedimentos que possibilitaram o aumento da renda nacional e o conseqüente aumento da demanda agregada em anos recentes, que beneficiou a indústria brasileira.

Cumpre ao Presidente da República ignorar os conselhos de economistas (alguns deles) não comprometidos com o desenvolvimento do Brasil, mas que se interessam em provar teses pessoais como se o povo brasileiro estivesse numa proveta de ensaio e pudesse ser manipulado ao bel-prazer do que pensam sobre Economia.

Por exemplo, as principais economias do mundo, entre elas os EUA, União Européia, Japão e China, estudam melhores formas de aumentarem os gastos públicos (em investimentos produtivos), ampliarem o crédito ao consumidor e às empresas (onde é possível fazê-lo) e promover reduções nas taxas de juros básicas.

No Brasil , há economistas ligados a determinadas universidades e consultorias que já estão alardeando em importantes programas televisivos que o BACEN não só não deve reduzir juros como deve aumentá-los, é o escárnio ! Alguns até se emocionam ao dizer isso, uma espécie de mantra entoado.

Pior, defendem a redução nos gastos públicos o que inclui a redução no custeio da máquina pública, querem antecipar a recessão no Brasil, são gênios, querem internar uma crise por completo que em sua essência, não é nossa. Vale lembrar que eles também foram contra a formação das reservas cambiais que agora nos serão muito úteis.

 
 
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Autor

Carlos Cezar Russo - Economista e Administrador.

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carloscezarcezar@yahoo.com.br
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Áreas de interesse  : Análise econômica conjuntural e estrutural de cenários.

 
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