18 de dezembro de 2009, ās 11h01min

A maldição de Humpty-Dumpty (1)

Por Nelson Lima
 
Texto de Nelson S Lima

Quem é Humpty-Dumpty? Não, não é um empresário, um executivo ou um novo guru. É apenas uma personagem do conto infantil Alice no País das Maravilhas, um gordinho e feliz (e vaidoso) ser em forma de ovo que um dia cai do seu poleiro em cima de um muro e se desfaz em mil bocados. Todas as tentativas do rei e seus médicos para o restituir à sua forma original falham. 

Porque é que Humpty-Dumpty é para aqui chamado? Bem, para alguns autores de vanguarda, ele representa o que se está a passar no nosso mundo. Chamam-lhe o Efeito Humpty-Dumpty: o mundo está em equilíbrio instável como se fosse um ovo pronto a cair e a estilhaçar-se em pedacinhos.  

Olhando o mundo - AGORA MESMO, NESTE INSTANTE - parece não haver forma de encontrar uma solução que reponha as coisas (as ideias, as crenças, os mercados, as questões ambientais, as diferenças entre países ricos e países pobres, entre Norte e Sul...) no lugar. Vivemos ora dentro ora fora de um furacão. Umas vezes no papel de espetadores (vendo o furacão), outras no de atores (atuando dentro do furacão).

Escrevem-se milhões de páginas de artigos e livros de economia e gestão, fazem-se mil e uma convenções por todo o mundo, convocam-se reuniões, workshops, políticos, governantes, pensadores, consultores, coaches e, de repente, fica-se com a sensação de que algo nos escapa pois não há uma efetiva mudança de rumo que satisfaça os nossos desejos e necessidades. Múltiplos fatores, muitos deles clandestinos e subterrâneos (!), tornaram nossa época num tempo de paradoxos, ambiguidades e estranhos acontecimentos. Vivemos de surpresa em surpresa. E, muitas vezes, de angústia em angústia. Parece que estamos sendo sugados para um buraco negro...

Nosso presente é, mais do que nunca, uma mistura explosiva de acontecimentos, saberes e ideias do passado com visões do futuro, imagens (2012), ficções, crenças, projetos e previsões (assim PRESENTE = PASSADO + FUTURO).

O passado não é apenas memória ou registro mas uma convulsão de interpretações e re-interpretações do que já aconteceu (incluindo nossas aprendizagens) que batem forte contra as ondas do futuro que estão chegando sob a forma de tendências, ideias e decisões (boas ou más) que nós, humanos, vamos tomando em todo o lado (Cimeira de Copenhague, ONU,NATO, NASA, Parlamento da Europa, China, África, Venezuela, Brasil, Austrália, Islão, Afeganistão, Palestina....).

MANUAL PARA COMPREENDER O MUNDO

O que sabemos hoje do mundo está intimamente ligado à forma como cada um de nós interpreta os dados, as informações e os conhecimentos que nos chegam. Para um alto executivo de uma multinacional poderosa o mundo já não é uma aldeia global mas uma cidade global (não plana mas curva) onde múltiplos setores, diferentes níveis de desenvolvimento, harmonias e conflitos ocorrem a cada instante. Cada dia, cada instante é uma surpresa. Para um pacato aldeão dos Andes ou um pastor da Serra da Estrela (Portugal) o mundo é o que eles vêem em seu redor e no imediato. Suas preocupações são de sobrevivência e algum conforto. As grandes questões do planeta como a guerra no Afeganistão ou a turbulência dos mercados financeiros são problemas que talvez nunca tenham ouvido falar. A vida é simples e rotineira.

Entre o alto executivo e estes dois hipotéticos aldeões há qualquer coisa como 5 mil anos de diferença. Não em termos de diferenças culturais (que também as há) mas em padrões de consciência. O que é isto?

Consciência é quase sinónimo de conhecer, apreender e interpretar.
Destacam-se sete níveis de consciência: do nível zero, onde as coisas acontecem, até uma atividade ômega, dois pontos acima do nível que experimentamos hoje (a chamada consciência padrão).

Mas quando falo de padrões de consciência estou a referir-me não a níveis de consciência (ou estados) mas a padrões que reftetem as diferenças que ocorrem nas mentes das pessoas conforme elas recebem, filtram e tratam a informação que lhes chega.

No nosso tempo podemos destacar 9 tipos de mentes que reflectem padrões de consciência distintos:

1º Mente instintiva (que temos desde antes do nascimento)
2º Mente mágica (que vamos adquirindo)
3º Mente egoísta
4º Mente puritana
5º Mente realizadora
6º Mente ecológica
7º Mente integradora
8º Mente holística
9º Mente cósmica/integral (reservada apenas a alguns)

Numa só pessoa alguns destes diferentes tipos de mente coexistem mas poucas são aquelas que conseguem ter as 9 mentes. Geralmente, cidadãos informados e desenvolvidos do 1º mundo podem chegar à 6ª ou à 7ª mente. Não mais. E isto é razão para muitos dos problemas de hoje. E dos que nos perseguirão nas próximas décadas.

Num país, como numa organização, incluindo a familiar, coexistem diferentes tipos de mentes (com percepções muito próprias do mundo e dos problemas). O impacto dessas diferenças podem ser desastrosas e gerar conflitos, travando o progresso.

É aqui que entra não o Efeito de Humpty-Dumpty mas aquilo que eu chamo de Maldição de Humpty-Dumpty. E o que é a Maldição de Humpty-Dumpty? Nem mais nem menos que a dificuldade, cada vez mais frequente, de integrarmos interesses, harmonizar políticas, estabelecer caminhos para um futuro melhor e menos ameaçador.

Acredito que no dia em que o Ensino, desde muito cedo, saiba "o que" e "como" ensinar os nossos filhos teremos cidadãos capazes de desenvolverem todos os tipos de mentes e padrões de pensamento superiores que possibilitem formas mais perfeitas de gerenciar o mundo.

A nós, adultos, muitas vezes ancorados em crenças e leituras do mundo moldadas por modelos de educação antigos, o esforço de transformação mental é muito maior. Mas pode ser conseguido. É disso que falarei nos próximos artigos.

Nelson S Lima
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