19 de outubro de 2009, ās 16h43min

A perversão do sucesso

Por Felipe
 

Platão, um dos mais importantes pensadores da história da humanidade, influênciou decisivamente o comportamento ocidental. A ciência, a Filosofia e a religiosidade, ponto essencial da organização da cultura, perseguem ainda hoje o que foi proposto como ideal pelo Filósofo Grego. Por isso mesmo, é fundamental conhecermos os objetivos da obra para analisarmos como a mesma pode nos ajudar a compreender o que é ser bem sucedido.

A obra busca discutir o conceito de justiça, polemizada pelas posições de Trasímaco e Sócrates. A fim de investigar se a justiça reside no comportamento ético que busca o bem ou naquele enviesado pelo interesse, Platão reflete acerca de como deveriam ser o cárater e o comportamento dos líderes de uma sociedade justa, propondo uma pedagogia para formá-los e um conceito de felicidade para guiá-los. Faz o mesmo em relação ao que seria uma cidade injusta e compara qual das duas cidades seria mais feliz, culminando na distinção entre o sábio e o perverso.

Justiça estaria diretamente relacionada com o mérito. Dar a cada um o que lhe compete conforme suas aptidões e necessidades. Na cidade justa, o homem seria guiado por aquela que seria sua competência distintiva enquanto espécie, o intelecto; na cidade injusta, o homem seria guiado por suas paixões e impulsos irracionais. O Filósofo percebeu que por trás de toda busca por honraria, riqueza, hedonismo, consumismo, estaria uma vontade sexual, elemento que mais tarde culminaria na psicologia freudiana onde a vontade primitiva estaria ligada à sexualidade humana, definindo sua personalidade e comportamento privado e social.

Platão alocou o comportamento do justo na postura do Filósofo que se guiaria pela busca pelo conhecimento, orientado por sua origem primitiva, capaz de ligá-lo ao sumo bem, ou seja, a Deus. Para Platão, o homem temperante, governado pela razão, é também corajoso, impetuoso, justo e bom. É também o único que efetivamente possui vida, posto que prossegue seu desenvolvimento em direção à sua divindade intrínseca.

Charles Darwin, 2400 anos depois, desenvolveria uma teoria da evolução das espécies que demonstraria que o homem é o animal que melhor se adaptou ao ambiente natural terrestre, alocando-se no topo da cadeia evolutiva justamente por sua capacidade intelectiva, desenvolvida a partir de milhares de anos de seleção natural. Na pscicologia, o neofreudiano Ernest Backer, discordaria de Freud colocando a vontade humana na necessidade humana de se livrar da morte a partir da transcendência, de um ato heróico que permita que a existência humana seja reconhecida para além da sua finitude. Na teoria da motivação humana de Maslow e Herzberg, a auto-realização e a satisfação humana estariam sempre relacionadas com esta busca pela transcendência.

E tudo isso remete novamente a uma discussão acerca do significado do sucesso:

O sucesso ligado à perversão, a impulsos encerrados nos prazeres físicos, são efêmeros e insaciáveis, gerando frustração e um comportamento potencialmente prejudicial ao indivíduo e à sociedade. O sucesso associado à busca pela realização, pela construção de uma sociedade melhor, com as vontades mais profundas do indivíduo satisfeitas, estaria diretamente alocada no trabalho humano e em seus resultados socialmente reconhecidos como bons e úteis.

Pode parecer romântico, mas este é o sucesso que devemos buscar, pois ele desenvolverá nossos atributos mais distintivos e capazes de garantir nosso desenvolvimento, realização e felicidade. Assim, poderemos trocar um sentimento constante de frustração pela agradável sensação de prazer que percebemos naqueles que realizam o bom combate.
 
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