31 de dezembro de 2007, às 12h28min

A simplicidade aplicada aos negócios

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Carrego cada vez mais aparelhos eletrônicos e cartões de plástico. Vão sempre comigo: laptop, celular, controles de alarmes, tocador de mp4 e mais um cipoal de cabos, tomadas, carregadores e conversores de eletricidade. Minha carteira também viaja cada vez mais repleta de cartões de crédito, de identidade, de acessos a prédios e salas, de clubes, de seguros e de planos de saúde. Em vez de diminuir, o arsenal de bugigangas eletrônicas a ser carregado nas nossas atividades diárias está só aumentando.

As novas tecnologias desenvolvidas para facilitar nossas vidas se tornam cada vez mais complexas. Elas roubam cada vez mais tempo de nossas atividades e do nosso lazer. Na sala de minha casa contei sete diferentes controles remotos. Cada um tem mais de trinta funções. Um deles informa até a temperatura ambiente. Ficou complicada a escolha de qual usar e que tecla apertar para ligar determinado aparelho. Sei que gastaria muitos dias lendo manuais chatos e complicados para poder tirar melhor proveito das incontáveis funções, muitas inúteis, de cada aparelho. Nos tocadores de DVDs , por exemplo, sempre me deparo com aqueles complicados e intermináveis menus. Como contraponto, os novos aparelhos iPod são simples e fáceis de manusear. Alguns produtos são verdadeiras obras de arte no tocante ao design, mas são um desastre na funcionalidade. Os designers e fabricantes ainda não conseguiram resolver o conflito entre o que o consumidor “pensa que quer” de um produto eletrônico e aquilo que ele “realmente quer”.

A falta de simplicidade também tomou conta das operações de auto-serviço. Falo de todos aqueles trabalhos que as empresas foram habilmente transferindo para os clientes fazerem como, por exemplo, aquelas digitações nos caixas eletrônicos. Tudo se tornou muito mais complicado quando as telefônicas, bancos e empresas de cartões de crédito mecanizaram um serviço de atendimento às reclamações que era pessoal, direto e simples. Tudo piorou porque ainda não foi inventada uma máquina que consiga acalmar um cliente insatisfeito. Nesse setor caí bem o antigo ditado: “é fácil fazer coisas complicadas, o difícil é fazer coisas simples”. Qualquer um escreve dez páginas sobre determinado assunto. Poucos conseguem resumir com competência o conteúdo dessas dez páginas em apenas uma. Para a escritora Clarice Lispector: “só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”.

A habilidade de “fazer mais com menos” está despontando como um diferencial poderoso para novos produtos e serviços. Algumas empresas já montaram suas estratégias de marketing focando na busca da simplicidade para suas operações, produtos e serviços. Focando no “menos que pode ser mais” a gigante Philips, por exemplo, adotou o lema: “Sense and Simplicity”. O Google, um dos melhores negócios da internet, vence pela simplicidade e eficiência aplicadas em todos os seus serviços. A tecnologia RSS (really simple syndication) também trouxe simplicidade para a internet. Ela foi desenvolvida para personalizar e resumir o excesso de informação digital. Ela promete revolucionar a maneira como recebemos informações pela rede.

A simplicidade abre múltiplas oportunidades para novos negócios. Sugiro a leitura do livro “As Leis da Simplicidade” do professor John Maeda, do MIT. Em apenas cem páginas, ele discorre com humor e sofisticada inteligência sobre as dez leis da simplicidade. A lei que trata do tempo é particularmente interessante. Nela vemos porque tendemos a valorizar cada vez mais produtos de uso fácil e serviços rápidos. O livro dá a entender que sempre procuramos pelo que não temos. No momento, o que temos é um aumento da complexidade burra. Buscamos o oposto. Buscamos simplicidade para nossas vidas. Para que complicar o que podemos simplificar? Afinal, Santo Tomas de Aquino já afirmava que: “Deus é infinitamente simples”.
Eder Bolson, empresário, professor e autor de “Tchau, Patrão!” – Editora SENAC.
 

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Autor
Empresário, fundador de cinco empresas e professor universitário. Engenheiro formado pela Universidade Federal de Santa Maria, RS com mestrado pela North Dakota State University dos Estados Unidos. Sua experiência prática empreendedora é interessante e diversificada. É um estudioso do empreendedorismo que sempre estimula as pessoas a planejarem e implantarem seus próprios negócios. É membro brasileiro da World Future Society. É autor do livro “Tchau, Patrão!” - Editora SENAC.



 
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