O Simulacro existencial da pós-modernidade e suas implicações na atividade administrativa e na vida de maneira mais ampla, podem ser percebidos a partir dos conceitos e valores, difundidos pela Rede Globo de Televisão como essênciais para que se “viva a vida”. A ideologia pós-moderna difunde-se a partir da emissora para a classe média brasileira através dos seus três principais aparelhos ideológicos: O Jornal Nacional, a Novela das nove e o Big Brother Brasil comandado pelo intelectual pós-moderno, Pedro Bial.
O primeiro encerra-se num apanhado de informes manipulados, apresentados acriticamente e desprovidos de qualquer estímulo ao debate e à reflexão, elementos indispensáveis ao exercício da cidadania democrática, ética e transformadora, por fornecer-lhe seu fundamento factual. Isto significa ressoar o óbvio: quem fundamenta seu posicionamento político e cidadão a partir de dados fornecidos pelo Jornal Nacional submete-se ao risco de constranger-se caso participe de um diálogo com pessoas efetivamente informadas dos fatos que nos afetam e despertam nosso interesse e estupefação.
O Big Broder é um aparelho que perverte a noção de meritocracia, inerente a uma ética que percebe a justiça como condicionada à competência de cada um, ou seja, à virtude daquele que soube aproveitar as oportunidades disponíveis em sua busca pela felicidade. No Big Broder, a performance de cada membro independe de qualquer preparação, qualificação ou mesmo conduta ética: para vencer o Big Broder é necessário apenas “cair nas graças” do Pedro Bial e da edição manipulada pela Globo, o que significa agir de maneira irracional ou “espontânea”, como prefere chamar o apresentador, de modo que isto afete sua simpatia junto ao “público”, ou seja, aquele subconjunto de telespectadores que além de assistir ao programa se dispõe a votar pela internet e pelo telefone, a fim de garantir que seus preferidos permaneçam na casa e, no limite, vençam o programa.
A novela viver a vida é o golpe final. Em artigo ousado e visionário de Leonardo Vieira, no Portal administradores (http://www.administradores.com.br/artigos/como_viver_a_vida_segundo_a_globo/37865/), fica claro o quanto a novela ataca valores caros à felicidade humana: o propósito, a família e a própria ética. Nem sempre se percebe estas concepções existenciais contraditórias: uma que condiciona a efetividade da vida numa conduta ética que percebe a felicidade individual como intricada à felicidade coletiva e outra que acredita que a felicidade individual depende de um rompimento com qualquer compromisso com o bem estar geral.
Esta oposição revela um importante debate filosófico e administrativo presente na contemporaneidade. De um lado o homem como “ser político”, posicionado por Aristóteles ( Ética a Nicômaco), segundo o qual a vida só é possível quando o homem usa seu intelecto de maneira coerente e racional em busca de um bem coletivo e individual, sendo temperante em relação aos prazeres físicos para que possa buscar suas vontades espirituais. De outro, o homem nietzchiano, a “sós consigo” , em busca de sua libertação da própria condição humana, transvalorizando todos os valores para tornar-se um super-homem revelado por ser pura irracionalidade e desejo físico. Para além dos méritos de cada concepção, fica claro que a interpretação vulgar do pensamento nietzchiano acarretou o atual ataque à racionalidade humana, à família, aos valores humanistas e à própria noção de cidadania.
Viver não significa comportar-se como se fossemos morrer amanhã, num pervertido comportamento hedonista e egocêntrico orientado pelo curto prazo. É importante percebermos que somente vive quem o faz com propósito, com objetivos capazes de nos desafiar a desenvolver nossas potencialidades em direção a uma obra que tanto satisfaça nossas vontades como contribuam ao progresso social. Vive quem age de maneira a se tornar lembrado após a sua morte, de tal maneira que não mais percebamos onde se distingue o homem do mito criado a partir dele. Assim percebemos hoje Juscelino Kubitscheck, Jesus Cristo, Chico Mendes e parentes e amigos que marcam a existência de cada um de nós em nossa vida privada.
Nietzche, no meu entender, pretendeu “ferir “( Humano Demasiado Humano) esta concepção, lembrando-nos de que o propósito precisa ser autêntico e a ética efetiva. Esta visão de que a vida precisa ser vivida à maneira defendida pelos aparelhos ideológicos globais, significa encerrar a vida num simulacro capaz de comprometer não apenas nossos propósitos pessoais, mas principalmente qualquer busca sustentável por um progresso social, humano e econômico que nos permita usar nossas potencialidades específicas para contribuir para sermos felizes, vivendo bem e com qualidade de vida.
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/a-vida-pervertida-pelo-egocentrismo-global/38362/