17 de abril de 2009, às 00h15min
Acreditar ou Não Acreditar?
Existem momentos na vida que, pela dor, nos fazem imaginar sermos vítima de injustiça divina, seja pela falta de problemas, que nos torna insensíveis e propensos a uma alienação onde nos perdemos no próprio ego, seja ainda por se ter acesso ao conhecimento, quando questionamos tudo e, por conta da história da religião ou mesmo por avançar no saber teórico e no questionamento filosófico, nos fazemos descrentes. Não apenas rebeldes em relação à crença, mas efetivamente descrentes, despojados da fé que antes parecia ser tão fácil. Acabamos como que ateus compulsórios, como se os golpes da vida, assim como os seus sucessos, nos tornassem insensíveis àquilo que parecia ser tão simples quando ainda éramos crianças. É o que mostra o saber do filósofo macedônico Aristóteles ao proferir que o melhor caminho é o do meio. Não falo, portanto, de hábito cotidiano, de ação social, de comportamento político correto que faz da religião um mero ato de liturgia que lastreia um comportamento social adequado. Também não critico isso, não cabe a mim fazê-lo. Falo de decisão íntima, de coração apertado, de franqueza consigo próprio, de dúvida existencial, de questionamentos inquietantes, de dores que se tornam insuportáveis. Neste caso não cabe ser "morno", pois os questionamentos atuam como invasores. Não se trata de um combate, mas a sensação é de última batalha. Na realidade serão muitos os combates. É quando acabamos despossuídos de fé, e Freud diria que o sentimento religioso surge de nossa necessidade de consolação: esta seria uma boa explicação para eliminar a crença. Que fazer? O certo é que passando ou tendo passado por tais circunstâncias, não se fica isento de decisão: ou acaba tendo a fé extirpada ou acaba se decidindo por ela, mas é antes uma decisão solitária. Num contexto de liberdade de opinião, eis um dos entroncamentos da trilha da vida. Cheguei à minha decisão particular, optei pela fé no Criador, mas não discordo totalmente do Pai da Psicanálise, pois existe uma necessidade interna de querer crer que exista o Criador; é preciso que Ele exista, muitos significados nos levam a esta percepção. Não o imagino, pois sou efetivamente limitado para formar o que Ele seria com o que tenho à disposição de minhas emoções e razão. Assim, humildemente o pressinto, e recorro a Mário Quintana que disse que o importante não é a gente estar feliz com Deus, mas Ele estar feliz com a gente. Longe de manipulações, longe dos interesses utilitários, fui construindo minha decisão, e desses momentos faz parte o meu texto "Ainda Assim, Deus", do qual não espero prosélitos ou adeptos, mas quando muito, se possível, contribuir em favor, ou até mesmo contra, com aqueles que compartilham comigo na leitura do teor destas letras.
Ainda assim: Deus.
Por maior que seja nossa tristeza,
por mais profunda que seja nossa amargura,
Ainda assim, não nos cabe renegar a Deus.
Mesmo que a labuta do dia a dia nos mortifique a fé,
mesmo que as frustrações
desmobilizem a nossa esperança,
mesmo assim
é melhor acreditar
na possibilidade de justiça do Criador.
Que nossas afeições não sejam correspondidas,
que nossos amados nos reneguem,
que sintamos a dor da incompreensão,
que não tenhamos o consolo do reconhecimento,
mas que nunca percamos a crença
na possibilidade do infinito amor do Criador.
Que não consigamos compreender,
que nos rebelemos ante a vulnerabilidade do bem,
que julguemos ingênuos
os preceitos de uma sociedade superior,
imaginando ser delírio,
ainda assim
é melhor reconhecermos a própria ignorância,
o nosso limite de saber.
O que toma conhecimento de uma migalha de saber
reconhece antes a própria ignorância.
É justamente essa sensação de não saber
que é mola propulsora na busca pela verdade.
É a busca pela verdade que faz nascer a razão
que é a verdadeira mãe dos justos.
Estar na busca pela afeição divina
é o meio de transformação
do servo em filho de Deus.
O justo é o servo. O sábio é o filho.
E o sábio é aquele
que equilibrou a razão com a emoção.
Saibam, entretanto, que a justiça
só existe em função da misericórdia.
Não fosse assim estaríamos condenados
pelos pecados da nossa ignorância.
Somos escravos das vivências efêmeras
enquanto não ressuscitarmos para a eternidade.
São os espíritos esgotados dos instintos
que almejam a liberdade das virtudes.
A questão é que os desejos de libertação,
antes da possibilidade efetiva,
são pensamento e emoção batizados pelo ideal,
mas só transformados pela realização.
Não é suficiente a idealização, não basta querer,
tem-se que realizar através da experiência.
Então concluo:
Deus é o todo,
e eu ínfima parte que me aproximo de nada.
Deus é o único Pai e eu sou filho
desgarrado pelo orgulho e vaidade.
Deus é o próprio amor em sua origem,
eu sou prisioneiro da impulsividade do ódio.
Deus é justiça viva através de sua lei,
eu sou aprendiz lutando contra minha cegueira.
Deus é o saber por ser a alma da verdade,
eu sou vontade em busca constante.
Deus é paz por ser a alma do equilíbrio,
eu sou guerra por viver no caos do conflito.
Deus é o congregar gerando perfeita harmonia,
eu sou individualidade dissonante.
Deus é ilimitado
e eu sou limite lutando contra a impotência.
Deus é infinita beleza
e eu tento lapidar a minha restrita feiura.
Deus é a certeza de bem
e eu sou dúvida tentando adquirir suficiência.
Necessário é tentar entender Deus,
necessidade que luta com a impossibilidade.
Menos difícil ,talvez, seja senti-lo,
imaginá-lo como visitante
em nosso pródigo coração.
Descobri-lo na solidão de nossas dores,
sentir seu amparo e sua silenciosa consolação.
Tê-lo como divino remédio
que anestesia as mais profundas feridas da alma.
Tê-lo como oásis de águas benditas
que saneiam as dúvidas e a sede por justiça.
Reconhecendo toda minha falta de saber,
mas perseverando na esperança de entendimento.
Mergulhando o olhar
no romper das sagradas auroras,
enchendo-se de respeitoso silêncio,
Conversando pela oração que nasce no peito,
pela prece que ilumina os olhos umedecidos.
Sonhando com o dia
em que o velho servo reconhece a sua origem
e o seu destino de ser filho.
por mais profunda que seja nossa amargura,
Ainda assim, não nos cabe renegar a Deus.
Mesmo que a labuta do dia a dia nos mortifique a fé,
mesmo que as frustrações
desmobilizem a nossa esperança,
mesmo assim
é melhor acreditar
na possibilidade de justiça do Criador.
Que nossas afeições não sejam correspondidas,
que nossos amados nos reneguem,
que sintamos a dor da incompreensão,
que não tenhamos o consolo do reconhecimento,
mas que nunca percamos a crença
na possibilidade do infinito amor do Criador.
Que não consigamos compreender,
que nos rebelemos ante a vulnerabilidade do bem,
que julguemos ingênuos
os preceitos de uma sociedade superior,
imaginando ser delírio,
ainda assim
é melhor reconhecermos a própria ignorância,
o nosso limite de saber.
O que toma conhecimento de uma migalha de saber
reconhece antes a própria ignorância.
É justamente essa sensação de não saber
que é mola propulsora na busca pela verdade.
É a busca pela verdade que faz nascer a razão
que é a verdadeira mãe dos justos.
Estar na busca pela afeição divina
é o meio de transformação
do servo em filho de Deus.
O justo é o servo. O sábio é o filho.
E o sábio é aquele
que equilibrou a razão com a emoção.
Saibam, entretanto, que a justiça
só existe em função da misericórdia.
Não fosse assim estaríamos condenados
pelos pecados da nossa ignorância.
Somos escravos das vivências efêmeras
enquanto não ressuscitarmos para a eternidade.
São os espíritos esgotados dos instintos
que almejam a liberdade das virtudes.
A questão é que os desejos de libertação,
antes da possibilidade efetiva,
são pensamento e emoção batizados pelo ideal,
mas só transformados pela realização.
Não é suficiente a idealização, não basta querer,
tem-se que realizar através da experiência.
Então concluo:
Deus é o todo,
e eu ínfima parte que me aproximo de nada.
Deus é o único Pai e eu sou filho
desgarrado pelo orgulho e vaidade.
Deus é o próprio amor em sua origem,
eu sou prisioneiro da impulsividade do ódio.
Deus é justiça viva através de sua lei,
eu sou aprendiz lutando contra minha cegueira.
Deus é o saber por ser a alma da verdade,
eu sou vontade em busca constante.
Deus é paz por ser a alma do equilíbrio,
eu sou guerra por viver no caos do conflito.
Deus é o congregar gerando perfeita harmonia,
eu sou individualidade dissonante.
Deus é ilimitado
e eu sou limite lutando contra a impotência.
Deus é infinita beleza
e eu tento lapidar a minha restrita feiura.
Deus é a certeza de bem
e eu sou dúvida tentando adquirir suficiência.
Necessário é tentar entender Deus,
necessidade que luta com a impossibilidade.
Menos difícil ,talvez, seja senti-lo,
imaginá-lo como visitante
em nosso pródigo coração.
Descobri-lo na solidão de nossas dores,
sentir seu amparo e sua silenciosa consolação.
Tê-lo como divino remédio
que anestesia as mais profundas feridas da alma.
Tê-lo como oásis de águas benditas
que saneiam as dúvidas e a sede por justiça.
Reconhecendo toda minha falta de saber,
mas perseverando na esperança de entendimento.
Mergulhando o olhar
no romper das sagradas auroras,
enchendo-se de respeitoso silêncio,
Conversando pela oração que nasce no peito,
pela prece que ilumina os olhos umedecidos.
Sonhando com o dia
em que o velho servo reconhece a sua origem
e o seu destino de ser filho.
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Autor
Professor da UNIFAE, centro universitário em São João da Boa Vista-SP. Ex-Presidente do IPEFAE (2007/2009), instituto que promove estágios, pesquisas e concursos. Formado Economista pela UNICAMP, pós-graduado em Economia de Empresas UNIFAE, com Mestrado Interdisciplinar em Educação, Administração e Comunicação pela UNIMARCO, e doutorando em Educação pela UNIMEP de Piracicaba, além de ter desenvolvido atividades complementares, por quatro anos, em Comentário Econômico da TV local.
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