18 de outubro de 2008, às 09h29min

Administração , ciência ? (II)

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O empresariado brasileiro (que não é ou não deveria sê-lo , a mesma figura do Administrador) via de regra desconhece os princípios de administração científica de Taylor , quanto mais a necessidade de trabalhar em conjunto com as universidades para a produção de técnicas mais apuradas no processo produtivo.

No Brasil , o progresso científico e as técnicas de produção , quando não implementadas diretamente nas filiais por ordem das matrizes no exterior , são o produto das mentes mirabolantes de nossos empresários (e administradores) , que em muitos casos são ricos proprietários de empresas pobres , pois confundem acumulação de riqueza pessoal com acumulação de Capital , aquele necessário para se desenvolver um país.

A Ciência não se propõe a provar ou desmentir a existência de Deus (preocupação e confusão de alguns estudantes) , Ciência é saber , é produzir uma sapiência que tem prazo de validade até que outra Verdade seja estabelecida. Até o Vaticano conta com cientistas-sacerdotes.
 
As diferenças entre físicos (por exemplo) , com suas proposições e administradores com suas políticas administrativas , repousam nos erros , as variáveis aleatórias (as variáveis de erro) , ou seja , os estoques de erros. Físicos conseguem melhor aproximação do quanto estão errando ou ignorando , por exemplo, quando desprezam o vento (ou a resistência do ar) numa deslocação de determinado corpo sem que isso possa impactar em hipóteses ou equações matemáticas que pouco explicam determinada realidade natural.
 
"Justamente, sob o ponto de vista das Ciências , nenhum domínio possui hegemonia sobre o outro , nem a natureza sobre a história , nem esta sobre aquela. Conhecimentos matemáticos não são mais rigorosos que os filológico-históricos. A matemática possui apenas o caráter de exatidão e este não coincide com o rigor."

(Martin Heidegger)
 
Entendamos exatidão como restrição (diante das complexidades) e perfeição (sob variáveis determinantes) , e , rigor como apuro e culminância (da variável determinada ou explicada).
 
A Ciência é um todo , sua divisão (as ciências) é apenas uma estratégia
de estudo face ao acúmulo de conhecimentos ao longo do tempo. Em outras palavras , os métodos científicos para todas as ciências são iguais. Logo , pode-se concluir que de iguais métodos não podem surgir ciências com graduações diferentes , ou seja : ciências puras ou impuras , menores ou maiores , perfeitas ou imperfeitas ; como é costume encontrarmos em certas observações sobre Ciência. É o preço que o Brasil paga pelo atraso social e econômico.
 
"A ciência não é nada mais que o senso comum bem treinado e organizado , diferindo deste apenas do mesmo modo como um veterano difere de um recruta inexperiente ; e seus métodos diferem daqueles do senso comum na mesma medida em que os golpes e facadas de um membro da guarda são diferentes da maneira como um selvagem maneja sua arma".

(T.H. Huxley)


A Ciência é incapaz de explicar a verdade absoluta , mas é potencialmente eficiente para representar a realidade. Significa que a realidade por ser a verdade empírica , extraída da nossa capacidade de sentir e refletir , acrescentando alguns predicativos ao objeto em estudo por meio do intelecto. O importante é que as teorias trazem as soluções científicas para os problemas. A escolha das soluções a serem adotadas é que estão sujeitas aos graus de conhecimentos e de possibilidades dos profissionais de Administração , aqui reside o problema em função da péssima educação formal no país.
 
Em Administração (também Economia e Contabilidade), a possibilidade de reproduzir em laboratório os fenômenos administrativos e econômicos tal qual ocorre na sociedade , não é possível com a exatidão que leigos em Ciência esperam, existe complexidade ou dificuldade para o desenvolvimento das teorias administrativas , é verdade , o problema está em construir uma equação com todas as variáveis que influenciam e agem sobre um fenômeno administrativo e econômico , dado que a repetição dos experimentos ou eventos é difícil , pois dependem da ação humana muito diretamente , ou seja , o ser humano pode (em tese) aprender com seus erros , pode estudar a história dos eventos e não repetir comportamentos equivocados. Por isso não há certeza de , se aplicando a mesma metodologia de uma empresa para outras , esperar resultados idênticos ou muito semelhantes como aos da Física e Química.

Mas, o estudo empírico e os modelos de pesquisas científicas conseguem superar essa dificuldade. É claro que por ser extremamente complexa , a solução não está determinada em apenas uma teoria. É possível desenvolver teorias distintas para o mesmo fenômeno administrativo e econômico e , mesmo assim , isso não impede a solução dos problemas. Em suma , não é a falta de domínio das variáveis ou da restrição da quantidade necessária para a realização e conclusão de um fato ou fenômeno que pode negar o conhecimento científico em Administração.

É muito difícil para o aluno (e mesmo o profissional) de hoje compreender isso , porque infelizmente a Universidade no Brasil está tendo (não ao seu bel-prazer) que alfabetizar seus alunos , ao invés de aprimorá-los na Ciência.

O aluno confunde a atividade de empresariar com a de administrar , não compreende que empresários costumam definir políticas ou desenhar novas mentalidades nos negócios , esse processo difere de simplesmente administrar , há excelentes administradores que nunca serão empresários ou empreendedores e vice-versa ; mas sem a direção profissional das empresas em níveis próximos ao da alta administração , a prosperidade não é possível. Nós conhecemos apenas os casos de sucesso de empresas não administradas por profissionais com formação em Administração , mas e os de insucesso ?


Outra dúvida utilizada como argumento da defesa de classe , mas que expõe cruamente a situação de penúria da Educação no Brasil , em conjunto com a indolência ou preguiça no ato de pensar , diz respeito a confundir Medicina com Administração , ou seja , o ato de clinicar com o ato de administrar , os alunos e mesmo os profissionais ( há exceções , naturalmente) não aceitam a possibilidade do médico administrar seu empreendimento privado ou que participe da administração pública dos hospitais , freqüentemente dizem : "se o médico pode administrar , por que eu não posso realizar uma cirurgia ?"

A pergunta em questão estaria de acordo com crianças de dez anos de idade , que estão travando pela primeira vez contacto com o significado sobre Ciência , refinando a capacidade de comparar e relativizar elementos distintos do Conhecimento , nunca deveria ser dúvida de um jovem adulto já no ensino superior.

"O desenvolvimento dos conceitos , dos significados das palavras , pressupõe o desenvolvimento de muitas funções intelectuais : atenção deliberada , memória lógica , abstração , capacidade para comparar e diferenciar."

(Vygotsky)


A diferença fundamental entre médicos e administradores e suas respectivas profissões e atribuições , reside no objeto de trabalho e no conjunto de conseqüências de uma , comparada com a outra , ou seja , o médico responde pela vida (saúde) do paciente , o administrador responde pelo patrimônio do cliente. Bastaria que consultassem o Código Civil e o Código de Processo Penal para atestarem as diferenças.



 
 
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Autor

Carlos Cezar Russo - Economista e Administrador.

.
carloscezarcezar@yahoo.com.br
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Áreas de interesse  : Análise econômica conjuntural e estrutural de cenários.

 
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