26 de julho de 2005, às 21h02min
Administração de Empresas: do know-how para o know-why
A Administração de Empresas é uma disciplina claramente pragmática, voltada para resultados, uma eterna busca ao nirvana da eficiência e eficácia. Aos administradores competentes, espera-se proficiência na gestão dos processos comerciais, financeiros, de recursos humanos e assim por diante.
Esta mudança no enfoque do profissional da Administração vem acontecendo em ritmo acelerado nos últimos anos. Até a década de 1980, um bom diretor financeiro preocupava-se, prioritariamente, com a gestão do caixa, o controle dos processos, e a preparação das informações para a contabilidade. Hoje, na era pós-ERP, esses problemas lhe são secundários, e um bom diretor financeiro será tão melhor quanto mais apto for para exercer as atividades que o computador não faz, como planejar uma estratégia financeira de longo prazo e aprimorar seus relacionamentos com instituições financeiras que lhe viabilizarão a implementação destas estratégias. Esta mudança de enfoque coloca um novo desafio diante do administrador, que é entender como tomar decisões em novos cenários e se relacionar melhor com terceiros. Ou seja: mais do que know-how, o administrador do século XXI também tem que ser um expert em know-why, pois somente entendendo o porquê das coisas é que ele vai conseguir se destacar neste novo paradigma.
Para vencer este novo desafio na Administração, é necessário obter conhecimentos que permitam entender como os agentes econômicos se comportam e, com isto, tornar possível a construção de novas estratégias. E, neste ponto, o arcabouço teórico tradicional da Administração de Empresas tem se mostrado insuficiente – ou, no mínimo, não compreensivo. Tampouco se mostram eficientes os conhecimentos da Psicologia e da Sociologia tradicionais, elas mesmas, disciplinas que atualmente atravessam profundas mudanças em função dos novos conhecimentos adquiridos pelo Biologia Evolutiva Comportamental. A partir de um enfoque neo-darwinista, surgiram novas abordagens para estas disciplinas: a Psicologia Evolucionista e a Sociobiologia, e a Administração deverá seguir o mesmo caminho.
A Economia – disciplina prima-irmã da Administração – já está assumindo esta nova abordagem e, em 2002, Daniel Kahneman e Vernon Smith foram contemplados com o Nobel de Economia pelos seus trabalhos em Economia Comportamental, fortemente correlacionada com a Psicologia Evolucionista e a Sociobiologia. Na verdade, existe um longo namoro entre a Economia e a Biologia Evolucionista, com geração de conhecimentos em ambos os lados. Se a Economia tem feito progressos graças à incorporação de elementos da Biologia, o inverso também é verdadeiro. A Teoria dos Jogos – uma metodologia para modelagem de decisões interativas –, desenvolvida por pesquisadores da Economia, vem sendo amplamente utilizada por teóricos da evolução do comportamento há 40 anos, na Biologia. E todo este conhecimento proveniente da Evolução e da Teoria dos Jogos pode – e deve! – ser incorporado ao “cinto de utilidades” da Administração.
Essa proposta de mudança de paradigma na Administração – do know-how para o know-why – não é, entretanto, revolucionária. Não seria o caso de combater o conhecimento anteriormente conquistado, mas simplesmente acrescentar novas abordagens. A Administração deverá continuar com sua busca pragmática pela eficiência dos processos, mas também se atentar para o entendimento da mecânica do comportamento dos agentes econômicos. Se admitirmos que a Economia, a Psicologia e a Sociologia já vêm fazendo este caminho há décadas, e que a base teórica da Administração de assenta nestas disciplinas, este seria o caminho natural a ser percorrido.
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Autor
Raul Marinho é administrador de empresas, ex-executivo e ex-empresário do mercado financeiro, consultor de corporate finance e estratégia, colunista da revista Você S/A, escritor e palestrante. Sua área de interesse são as aplicações da teoria dos jogos e da evolução aos negócios.
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