23 de outubro de 2010, às 01h02min

Ainda bem que não foi o meu chefe...

A substituição em cargos de gerência pode ser um desastre total. Cuidado para não virar um gestor do tipo "ih... lá vem o gerente novo...".

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"Tudo é tão bom e azul e calmo como sempre..." A letra do Jota Quest descreve bem aquelas manhãs de sexta feira nas quais a gente chega ao trabalho de altíssimo astral, o MP4 nas orelhas, cientes do fim de semana batendo à porta, nada pode mais dar errado, certo? Sei... é exatamente na sexta que as piores coisas acontecem, como que para garantir o combustível da preocupação que vai ficar fazendo você queimar os miolos durante o fim de semana inteirinho.


Naquela sexta feira, o gerente de um dos departamentos da minha empresa pediu demissão e, apesar de eu estar ligada à Diretoria e daquela situação pouco me afetar, o fato foi a conta do desespero de muitos dos meus colegas mais ligados. Bem confortável no posição "ainda bem que não foi o meu chefe", procurei acalmar o pessoal que já tinha sido apresentado ao novo gerente naquele mesmo dia, talvez não fosse tão terrível, podia até mesmo ser melhor...


Eu estava errada, a troca foi uma das piores que já ocorreram na nossa divisão, a mudança foi no estilo água para o vinho, ou melhor para o óleo, que não dá para misturar. O clima organizacional não chegava a ser ao estilo Google, mas ultimamente estava muito bom e a troca da gerência repercutiu tão negativamente sobre todos os membros da equipe que parecia improvável que uma tragédia daquela tivesse solução. Um líder objetivo, cooperativo e capaz, deu lugar a um burocrata, teimoso e desconfiado. Custei a acreditar como as coisas que já não estavam bem pioraram deveras e as que rodavam perfeitamente travaram de vez. O semblante seguro dos subordinados dele deu lugar à pesada carranca "tô de saco cheio desse cara" e o gerente, em menos de dois meses já caiu em descrédito e antipatia.


As empresas passam por isso às vezes, mas tenho certeza de que pode ser evitado. A substituição de gerentes que têm uma equipe muito acostumada e coesa ao seu estilo, deve ser muitíssimo bem planejada, senão ao invés de perder um gerente bom, a empresa perde a equipe inteira e não estou falando somente das possíveis demissões, mas daquele que fica, só para virar uma pedra no sapato do novo e odiado gestor. Se o gerente goza de boa reputação e score alto na empresa, o perfil deve ser mantido na seleção, nessa hora entra a capacidade e a sensibilidade do recrutador para encontrar o "sósia" do camarada. O treinamento também deve ser muito direcionado aos códigos já estabelecidos formal e principalmente informalmente na empresa, não basta deixar claro como a banda toca, mas é preciso dizer qual música essa banda toca melhor. Do ponto de vista do colaborador, se ele estava satisfeito com o chefe antigo, a troca, mesmo que por um clone do dito cujo, é ruim, ameaçadora e vem sempre em péssima hora, a equipe órfã se une contra o novo líder em resistência, como em um motim disfarçado e tudo, então, começa a dar errado para todo mundo.


A integração deve ser incansavelmente trabalhada no dia a dia e até em momentos informais. Oferecer à equipe um bom almoço de chegada é de muito bom tom e dissolve parte dos resistentes e, um dia a dia com um pouco mais de simplicidade, uma atitude que demonstre interesse, respeito e consideração ao que já existe antes da chegada, gera colaboração. Engana-se o gestor que chega com vontade de revolucionar as bases, é preciso dar tempo ao tempo, é preciso respeito ao histórico, mesmo que tudo o que se praticava antes seja exatamente o contrário do que se quer agora praticar.


Empresário, observe quem está saindo de sua empresa, seu legado, e não promova mudanças radicais, observe como os bancos e grande marcas hoje atuam ao adquirir um concorrente, eles vão suprimindo aos poucos o nome, a marca, mas sempre mantendo o que de bom existia e funcionava, vejam o Santander e o Real, vejam a Ricardo Eletro e a Insinuante e outras grandes organizações. No popular, elas vão comendo o boi aos bifes.


Gestor substituto (não queria estar no seu lugar) o momento é delicado, chegue devagar, não ameace, não force, pelo menos nos primeiros 30 ou 60 dias. OBSERVE. Veja o que funciona, proponha as mudanças com cuidado, não critique a gestão anterior (difícil!!!!), procure o olhar do seu superior, mas também o olhar do seu subordinado, não insista em tocar rock'n roll em pleno carnaval, não vai rolar. Contenha o seu entusiasmo, confie na equipe, analise antes de julgar e tenha muita, muita paciência.


Equipe, não resista. O gerente veio e quer ficar. Colabore, vai ser mais fácil para todo mundo. Trabalhe duro e durma em paz.


Voltando a minha historinha do início, hoje passo os dias observando a situação deles se complicar. Ninguém quer ceder e agora parece que foram todos para o lado negro da força.


Egoisticamente volto a pensar: ainda bem que não foi o meu chefe...

 

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Liliam, é  uma trabalhadora como tantas no Brasil, Tecnóloga em Administração, estudante de Contábeis, gosta de ler e é viciada em conhecimento. Acorda todo dia às 6:00h, no seu trabalho não acumula títulos nem medalhas, mas idéias, por isso escreve. Casada. Já teve um filho, plantou uma árvore e escreveu um livro.
 
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