Alguém errei, não sei quem fui - justificando os próprios erros
Todos nós, simples mortais, cometemos erros de vez em quando. Alguns triviais, outros nem tanto. Uns de boa fé, outros nem tanto. E como ficamos em paz com a nossa consciência? Conheça os estudos de Leon Festinger e como ele explica a Dissonância Cognitiva - essa poderosa ferramenta de autoengano.
Todo dia a vida nos oferece oportunidades para sermos pessoas melhores. Podemos abrir a porta do elevador para aquele senhor idoso, deixar o carro ao lado passar a nossa frente, ligar para aquele amigo depressivo, poupar um pouco mais de dinheiro, fazer exercícios, ter uma alimentação saudável e até mesmo parar de fumar. Mas escolhemos deixar esses atos de lado.
Todo dia a vida nos oferece, também, oportunidades de sermos pessoas piores. Furar uma fila, avançar um sinal, fechar um cruzamento, comer um croquete na fila do restaurante a quilo, dar uma marretada no Imposto de Renda, faltar à academia.
Algumas dessas nós escolhemos sem mesmo nos dar conta de que, no fundo, são atitudes erradas.
Mesmo assim, optando pelas as atitudes ruins e deixando as boas de lado, acreditamos que estamos sempre melhorando. E que nossas decisões são sempre acertadas e há razoáveis motivos para tudo o que fazemos.
Você avançou o sinal porque estava atrasada; fechou o cruzamento porque era a sua vez de passar; comeu o croquete porque o preço do restaurante é abusivo; inventou despesas médicas porque não quer seu suado dinheiro sendo roubado por políticos corruptos; e não foi à academia hoje, mas vai amanhã certamente e vai malhar o dobro.
Como é então que, ao deitar para dormir, conseguimos viver em paz depois de um dia inteiro de cretinices? A verdade, nua e crua, é que não pensamos muito nisso. Como você viu no parágrafo anterior, encaixamos autênticas justificativas aos nossos pequenos deslizes diários de forma tão automática, que eles passam praticamente despercebidos. Mas seriam essas justificativas tão autênticas e honestas quanto gostaríamos que elas fossem? Vejamos então como anulamos as discrepâncias entre nossas ações reais versus nossas íntimas convicções morais.
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Em 1954 Marion Keech - uma dona-de-casa de Chicago - teve uma visão: no dia 21 de dezembro daquele ano o mundo acabaria, afogado num dilúvio de proporções bíblicas. Uma mensagem marcando data e hora para o evento lhe teria sido entregue por uma divindade extraterrena chamada Sananda, diretamente do planeta Clarion. Mas todos aqueles que acreditassem no seu magnífico poder seriam salvos por um disco voador em missão de resgate. (É sério, não riam.)
No grupo de estudo de OVNIs de que Keech participava, todos acreditaram na sua história e formaram, então, uma espécie de seita destinada a se preparar para os funestos acontecimentos vindouros. Muitas das pessoas envolvidas tomaram drásticas decisões se preparando para o derradeiro apocalipse: largaram seus empregos e famílias, desfizeram-se de seus bens e tudo o mais que representasse algum elo com este condenado mundo terreno.
Leon Festinger, um professor de psicologia de 32 anos da Universidade de Minessota sabia que, quanto maior e mais custosa a decisão, em termos de tempo, dinheiro, esforço ou inconveniência e quanto mais irrevogáveis suas conseqüências, maior o apego das pessoas com o caminho escolhido. Ele leu uma nota no jornal sobre o culto e se interessou pela estória.
O pesquisador imaginava como seria o comportamento do grupo depois que sua previsão se revelasse falsa, dado o comprometimento de todos com suas crenças e atitudes.
Quais seriam as reações das pessoas se a profecia não se realizasse? Elas perderiam a sua fé? De que forma elas justificariam o amanhecer do provavelmente seco 21 de dezembro?
Na noite do dia 20, Marion Keech, seus seguidores e o infiltrado Festinger reuniram-se em sua casa aguardando o cataclisma. Próximo à meia-noite, todos se livraram de qualquer objeto metálico que pudessem atrapalhar a chegada do seu transporte intergaláctico.
Às 4:00h da manhã nenhum disco voador havia pousado em Chicago, nem em qualquer outro lugar da Terra nem havia, tampouco, sinais de chuva. Marion Keech irrompe em prantos, para momentos depois receber uma nova e providencial mensagem de sua parceira Sananda: o grupo reunido havia irradiado tanta energia positiva, tanta luz, que os deuses resolveram poupar este insignificante planeta azul.
Para quem estava de fora, a emenda de Keech soou pior que o soneto. Para quem conviveu com essa presepada, foi uma piada de mau gosto. Para Festinger, no entanto, foi uma pública demonstração de um estranho comportamento.
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Apesar de esse não ser um clássico Experimento em Psicologia em seu conceito mais elementar - pois ele realizou-se por si só, sem intervenção nem iniciativa do pesquisador, relegado a um mero espectador - foi o evento que deflagrou um série de estudos realizados por Festinger na elaboração da sua Teoria da Dissonância Cognitiva.
Num desses estudos, por exemplo, Festinger pagou alunos para contarem uma mentira. Uns receberam US$ 1,00 e outros US$ 20,00. Posteriormente os que receberam menos sentiram-se muito mais apegados a suas lorotas e buscavam mais argumentos para justificá-las.
Para o pesquisador, os alunos não se sentiam bem em receber US$ 1,00 para mentir e, por isso, precisavam de outras razões para tal. Já os que ganharam mais logo abandonavam a farsa pois, afinal, receberam um dinheiro razoável por sua integridade.
Festinger batizou esse comportamento de Paradigma da Recompensa Insuficiente*. Será que o primeiro grupo realmente acreditava nas mentiras que contava ou apenas tentava se justificar e reduzir o sofrimento por venderem suas consciências a um preço tão vil?†
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Basicamente, a Dissonância Cognitiva é um estado de tensão que ocorre quando uma pessoa tem duas cognições (idéias, atitudes, crenças, opiniões) que são psicologicamente inconsistentes. É a velha moral dupla que nos permite tomar uma atitude enquanto pregamos outra.
Suas raízes estão intrinsecamente ligadas à imagem que construímos de nós mesmos. A maioria de nós tem uma auto-avaliação razoavelmente positiva, segundo a qual nos consideramos competentes, morais e espertos.
Mas como somos seres humanos - e por isso passíveis de erros - temos o impulso de nos justificar e evitar a responsabilidade por qualquer ação que se revele prejudicial, imoral ou estúpida preservando, assim, nossa imagem diante do espelho.
Quando usamos uma cópia pirata do Windows em casa, nós nos justificamos dizendo que o original é muito caro, mas que se fosse mais barato nós até compraríamos. E, além disso, a Microsoft já ganha dinheiro suficiente. Quando batemos com o carro, a culpa é sempre do outro, que não te viu, não brecou ou não devia estar ali porque seu IPVA está vencido. Ela nunca é nossa.
A verdade é que o cérebro tem pontos cegos - óticos e psicológicos - e um dos seus truques mais brilhantes é forjar a ilusória noção de que, pessoalmente, eles não existem. De certa forma, a teoria da Dissonância Cognitiva é uma teoria de pontos cegos; de como as pessoas intencionalmente deixam de enxergar aquilo que lhes desagrade, para que não notem eventos e informações vitais capazes de questionar seus comportamentos e convicções. E somos tão alheios aos nossos pontos cegos quanto o peixe é alheio à água onde nada.
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Essa auto-justificativa tem custos e benefícios, como contam Carol Travis e Elliot Aronson (do estudo dos rituais de iniciação) em Mistakes Were Made (But Not by Me), um verdadeiro tratado sobre a Dissonância Cognitiva. Para os autores, é ela que nos deixa dormir à noite. Sem ela, prolongaríamos terríveis embaraços. Nós nos torturaríamos com a culpa dos caminhos não tomados ou como navegamos mal por aqueles escolhidos. Agonizaríamos com as conseqüências de quase todas as nossas decisões. Com a Dissonância Cognitiva ficamos livres, portanto, de sentimentos como ansiedade, culpa, vergonha, raiva, estresse e outros estados de espírito negativos.
Por outro lado, o hábito de freqüentemente justificar nossos atos mascara nossas dificuldades. Sempre nos dizem que temos que aprender a partir de nossos erros, mas como podemos aprender se nos recusamos a admití-los?
Além disso, há os que cometem enormes exageros nesse maravilhoso exercício de criatividade que é inventar desculpas para nossos tropeços. Algumas pessoas inventam tantas histórias para justificar seus atos que passam a viver realidades paralelas, fazendo inveja até mesmo a Forrest Gump. Alguns desses mitômanos chegam a ser patológicos em sua necessidade de auto-afirmação que os leva, via de regra, a uma sucessão de mentiras onde uma vai encobrindo a outra, tecendo um ilusório manto de superioridade.
Por esse motivo nós precisamos de algumas pessoas de confiança que nos digam NÃO de tempos em tempos. Críticos dispostos a estourar nossas bolhas protetoras de auto-justificativas e nos trazer de volta à dura realidade quando nos afastamos demais - e isso é especialmente importante para as pessoas que ocupam posições de poder e liderança.
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As idéias de Festinger provocaram uma verdadeira revolução na psicologia, na medida em que ofereciam uma elegante explicação para nossos comportamentos mais bizarros.
Sua Teoria da Dissonância Cognitiva representava, ao mesmo tempo, um desafio ao behaviorismo radical proposto por Skinner pois, segundo este, o comportamento é muito mais motivado pelas recompensas do que pelas punições. Ocorre que, diferente dos ratos e pombos, o ser humano tem o péssimo hábito de pensar e, porque pensamos, nossas escolhas e atitudes transcendem os efeitos de recompensas e punições.
FESTINGER E A ADMINISTRAÇÃO
Nossa primeira reação ao ter contato com as teorias de Leon Festinger é analisar nosso próprio comportamento e, assim, tentar ver em que momentos somos iludidos pela nossa própria Dissonância Cognitiva.
Sem dúvida que tal questionamento é muito válido e trará benefícios àqueles que conseguirem seguí-lo. Mas para a leitora mais perspicaz, que vem acompanhando essa série de textos desde o início, gostaria de propôr outro exercício: no seu ambiente de trabalho, onde as outras pessoas caem vítima da Dissonância Cognitiva?
Quantas vezes você vê seu chefe - ou seu parceiro - tomando decisões absurdas acreditando estar seguindo o verdadeiro caminho da verdade? Você deve ser capaz de apontar inúmeras situações assim, certo?
Tente imaginar, então, que tipos de justificativas - falsas ou verdadeiras - essa pessoa pode estar impondo a si mesma e até que ponto ela realmente acredita nelas. Como essa pessoa pode estar sendo vítima de sua própria necessidade de fundamentar suas ações?
Se você encontrar tais respostas, poderá mais facilmente apontar onde seu raciocínio está falhando e por que a pessoa está tão convencida de seus atos. Caso você não consiga convencê-la, ao menos entenderá suas razões - mesmo que errôneas - e provavelmente sertir-se-á mais conformada. Ou poderá, ainda, perceber que ela está certa...
O QUE VEM POR AÍ
Se a Dissonância Cognitiva pode alterar nossa percepção em relação aos nossos atos do dia-a-dia, quais seriam os limites entre nossa percepção e a realidade? Como nós podemos determinar onde um termina e onde o outro começa?
E se nós temos esse tipo de dificuldade, como alguém pode ser capaz de fazer isso por nós? Veremos, no próximo texto, como o psicólogo americano David Rosenhan questionou a validade dos diagnósticos psiquiátricos de forma ousada, levantando dúvidas sobre como o ambiente influencia no julgamento das pessoas.
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* Dan Ariely dá outros exemplos muito interessantes sobre isso no seu Predictably Irrational: The Hidden Forces That Shape Our Decisions (Previsivelmente Irracional): imagine que um amigo seu te peça para ajudá-lo a carregar umas caixas na sua mudança. Em nome da amizade você vai. Mas se ele lhe oferece, digamos, R$ 20,00 para a tarefa, provavelmente você se sentirá ofendido e não irá. Existe, ainda, a história do rapaz que vai jantar na casa da namorada e, após o lauto banquete, saca o talão de cheques e pergunta com quanto deve contribuir. Há coisas que fazemos de graça, mas não aceitamos quando alguém quer nos pagar.
† Veja no texto original, Festinger e a dissonância cognitiva, outros experimentos interessantes demonstrando o conceito.
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Leia a Introdução sobre esta série a respeito de famosos Experimentos em Psicologia, além de uma relação dos outros textos já disponíveis.
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