Amazônia e Soberania
Volta e meia é visto na mídia algo sobre a questão da soberania da Amazônia, normalmente ligada a uma interação de fatores de geopolítica ambiental, associada aos aspectos de natureza ecológica, com outros de política econômica internacional. Seja lá o que for, cabe uma ação efetiva da diplomacia nacional visando a garantir os interesses econômicos e políticos da nação brasileira.
No mundo contemporâneo globalizado, cujo conceito às vezes parece ser apenas um subterfúgio mais civilizado em relação ao antigo imperialismo, onde o poder das armas se sutilizou no poder econômico, regiões de interesse ambiental para o ecossistema global passaram a ser tratadas a bem de interesses maiores da humanidade como um todo, como se fossem uma espécie de patrimônio público universal, onde as fronteiras nacionais que as delimitam passam a ser vistas como espécie de egoísmo nacionalista contra os interessas maiores da universalidade.
Caso específico aqui a ser a tratado, a Floresta Amazônica ganhou a metáfora de “pulmão do mundo”, ou seja, uma parte primordial do corpo do planeta Terra, numa visão do globo como ecossistema, que se sobrepõe à divisão política territorial estabelecida entre as nações. Como “pulmão do mundo”, ela é do planeta e não do Brasil, e esta sofisticação conceitual que parece atender a “nobres” interesses propõe, portanto, a sua internacionalização: um patrimônio da humanidade. É de se pensar se não é o caso de se abrir uma nova área do conhecimento, o lirismo econômico.
Em que pese o folclore verde-amarelo insistir na privatização do divino com o seu “Deus é brasileiro”, o Criador parece não ter compartilhado da mesma ideia, e embora tenha sido generoso com o Brasil, ao que parece não se esqueceu de outras regiões da Terra, por onde espalhou florestas, boa parte delas já dizimadas pelas nações desenvolvidas, que historicamente lideram a evolução do capitalismo global. Não encontro razões contrárias a se entender tais florestas como parte do pulmão do mundo. Porém, quando serviram de modo utilitário desde a construção das caravelas, até serem torradas a bem de produzir carvão vegetal para alimentar a era do vapor, e de modo geral o desenvolvimento destes países, este detalhe parece ter passado despercebido.
E então o que fazer? Detonar a Floresta Amazônica a bem de provarmos a virilidade da nossa soberania? É evidente que não. O fato é que se o ecossistema terrestre hoje depende de um pulmão reduzido às custas de amputações anteriores, é fato, também, que o tal pulmão se encontra em território brasileiro.
Assim, o pulmão do mundo é de propriedade do Brasil, e antes que pense ser este um pensamento excessivamente utilitarista, apenas para citar um exemplo, o sangue do mundo, deve ser esta a metáfora adequada para combustível, está em boa parte nas mãos dos honrados senhores da OPEP: também o petróleo seria um patrimônio da humanidade?
Onde quero chegar é que ser pulmão do mundo e manter-se como tal tem valor envolvido. O Brasil deve efetivamente ser remunerado por ser pulmão do mundo, o que não significa deixar de fazer o devido estudo e avaliação dos recursos da Floresta Amazônica, desde que dentro de parâmetros de sustentabilidade. Neste sentido, creio que a efetiva soberania brasileira já anda bem esgarçada. Outras nações já sabem bem mais da Amazônia do que o próprio Brasil.
No mais, o tal pulmão não vem sendo preservado, e nem sendo objeto de políticas públicas que garantam um desenvolvimento sustentável à região. De forma que a conclusão da discussão proposta pode ter como resposta que estamos frente a mais uma daquelas lamentáveis construções verborrágicas, que hão de habitar os anais do gigante adormecido, um sono profundo, quase de morto. Um defunto futuro cuja herança depauperada será disputada no momento do velório.
Ser soberano é ser dono de si, é caminhar por diretrizes e planos, de forma que cabe questionar: o Brasil real tem tido a soberania que a ilusão nos propõe?
Gilberto Brandão Marcon, Professor e Pesquisador da UNIFAE, Ex-Presidente do IPEFAE (2007/2009), Economista graduado pela UNICAMP (1982/1985), pós-graduado ‘lato sensu’ em Economia de Empresas pela FAE (1986/1988), com Mestrado Interdisciplinar em Educação, Administração e Comunicação pela UNIMARCO (2006/2008), Comentarista Econômico TV União, Escritor, e com aperfeiçoamento como aluno especial no Mestrado de Filosofia da UNICAMP na área de Filosofia da Psicanálise (2002/2003).
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