No caso anterior o tema eram as mudanças climáticas. Um assunto polêmico, de fato, ainda mais porque os ecologistas xiitas adoram lembrar-nos de que nossos filhos herdarão o planeta nas condições em que o deixarmos - como se houvesse um planeta alternativo. Apesar do mau gosto deste apelativo argumento (quem não tem filho pode detonar o meio ambiente?), ele tem uma nobre preocupação: o futuro dos nossos filhos.
Mas e as preocupações com o presente dos nossos filhos? Será que tratamos com a mesma leviandade? Será que tomamos decisões importantes sobre a saúde de nossos queridos com semelhante superficialidade? A resposta, infelizmente, é SIM.
* * * * * * * * * *
Na semana passada o The Lancet, um dos mais importantes e respeitados jornais médicos do mundo, fez um mea culpa que serve de alerta ao modo como lidamos com certos modismos - seja em que área for.
Em 1998, a conceituada publicação apresentou o trabalho de Andrew Wakefield e colegas, onde lançavam-se dúvidas sobre a segurança da conhecida vacina tríplice (MMR: measles, mumps and rubella - ou sarampo, caxumba e rubéola). Em Ileal-lymphoid-nodular hyperplasia, non-specific colitis, and pervasive developmental disorder in children os autores apontavam, ainda, para uma séria correlação entre a administração da vacina e casos de autismo e doenças intestinais.
Ainda que o estudo fosse baseado na análise de apenas doze casos, sua repercussão provocou pânico em diversos países e uma enxurrada de processos médicos de pais de crianças autistas (houve, inclusive, uma temporada de The Shield onde briga semelhante serviu como um dos subtemas).
"Não vai doer nadinha..." (fonte)
Mesmo depois de 500 milhões de doses em mais de 60 países, erradicando o sarampo em vários deles desde a década de 1970, as dúvidas levantadas foram suficientes para que milhões de pessoas deixassem de vacinar seus filhos - dentre elas o próprio então Primeiro Ministro Britânico Tony Blair.
O posterior consenso da comunidade médica foi de que havia poucas evidências desta correlação e que, ainda assim, os benefícios comprovados superavam largamente os riscos. No mês passado, a GMC (General Medic Concil) - algo como o Conselho Federal de Medicina inglês - considerou que o Dr. Wakefield falhou em seus deveres de conselheiro e abusou do seu prestígio ao emitir aquele polêmico parecer e considera, inclusive, a cassação de seu registro profissional.
Doze anos depois do estudo original, o mesmo The Lancet viu-se forçado a publicar o citado editorial, reconhecendo o erro cometido na avaliação do paper. O que nenhum dos reports comentou, contudo, foi que o Dr. Wakefield omitiu o fato de ter trabalhado como consultor num caso em que algumas famílias processavam laboratórios farmacêuticos fabricantes das vacinas, recebendo mais de US$ 800 mil em honorários (ver Mistakes Were Made (But Not by Me): Why We Justify Foolish Beliefs, Bad Decisions, and Hurtful Acts, de Carol Travis e Elliot Arons, pp. 50-51).
* * * * * * * * * *
Resulta, pois, que algumas informações têm o inegável poder de provocar surtos de histeria coletiva. Seja por desconhecimento, desinteresse ou apenas por se deixar levar pelos modismos as pessoas sujeitam-se, frequentemente, a desnecessários ataques de pânico.
Independente do que nos leve a tais frenesis há, quase sempre, grupos de interesses beneficiados nesses movimentos. Seja na recente "crise financeira", na prometida pandemia de gripe zoológica (nunca sei se a atual é do frango, do porco ou da zebra) ou no aquecimento global, sempre há quem alugue facilidades em tempos de dificuldades. Especialmente para uma população ávida por engolir tragédias e digerir milagres - estes últimos vendidos sabe-se lá por quem.
__________
VISITEM O MEU BLOG: www.naopossoevitar.com.br
SIGAM-ME NO TWITTER: www.twitter.com/raraujo28
__________