Carismático ou líder?
Alguém que facilmente atrai muitas pessoas para desenvolver um projeto não é necessariamente um líder. É um carismático. Liderança não se concretiza apenas na atração de pessoas, mas na manutenção destas pessoas ao seu lado até a conclusão de um projeto, por mais difícil que seja o empreendimento
Certa frase se repete com uma frequência exacerbada nas falas de muitos palestrantes: "a empresa é uma ficção jurídica". Não sei dizer quem falou isso pela primeira vez, e provavelmente a maioria dos palestrantes que fazem uso desta afirmativa também não saberiam dizer, mas concordo com a frase
A empresa é uma ficção jurídica porque o que faz a empresa acontecer são as pessoas. Isso deveria significar que pessoas são mais importantes do que coisas, mais importantes que o lucro. Mas é assim que nos relacionamos nos ambientes profissionais? Levamos a sério o fato de que relacionamentos são construídos com muito sacrifício e destruídos com um piscar de olhos? Como é o seu estilo de liderança? Você é transparente? Você é totalmente honesto com seus liderados? Você aguenta a honestidade deles com você? Consegue ter uma atitude positiva quando é confrontado?
Certa vez, numa turma de MBA onde lecionei, os alunos comentavam sobre a ética vertical. Nas palavras deles: " a ética que a direção da organização cobra de nós é uma, e a ética que a direção tem conosco é outra". Como esperar que um colaborador da empresa tenha fidelidade ética quando a liderança da organização não prima por este aspecto?
Muitos anos atrás, quando recebi meu primeiro treinament de liderança, eu ouvi um frase que nunca mais esqueci: "líder é aquele que sabe para onde vai e sabe como levar as pessoas consigo" (Frank Dietz).
Alguém que facilmente atrai um considerável número de pessoas para desenvolver um projeto não é necessariamente um líder. É um carismático. Seu magnetismo e simpatia facilmente arrebanha pessoas, mas se, com a mesma facilidade com que ele agregou as pessoas, ele as dispersa, então ele não é um líder de verdade. Há carismáticos que tem uma habilidade tão grande de dispersar um grupo que as rupturas que se estabelecem a partir dali são definitivas. Líder é aquele que consegue manter as pessoas ao seu lado, mesmo que o projeto seja algo tão louco quanto escalar o Himalaia.
Um líder comprometido com sua liderança será exemplo para seus liderados em todas as áreas. Não adianta exigir de seus funcionários uma ética que você mesmo transgride quando ninguém está olhando. Não espere que um colaborador tenha comprometimento com aquilo que a organização produz quando você, mesmo não é fiel ao seu discurso e muda o que falou o tempo inteiro.
Um líder que não sabe para onde vai, não apenas não sabe levar as pessoas consigo, como se perde no seu próprio caminho, transferindo para o grupo toda a confusão mental que ele não consegue administrar. Chefias com este perfil infernizam a vida de sua equipe.
Por outro lado, líderes de verdade, sabem onde querem chegar. Estes não precisam se esforçar para ter ao seu lado pessoas valorosas, pois elas tem plena consciência que a simples convivência com aquele líder lhes agrega valor à carreira. Com ele trabalhariam até de graça, atravessariam mares para participar de uma equipe sob sua liderança. Isso é muito mais do que carisma.
Líderes de verdade deixam uma marca positiva na vida dos seus liderados, fazem diferença, escrevem uma história. No momento em que tal líder tiver qualquer debilidade e precisar de ajuda, seus liderados imediatamente o socorrerão pois reconhecerão, de forma visceral, o valor que esse líder tem para o grupo e não desejarão perdê-lo durante a caminhada. Eles o sustentarão e o manterão de pé.
Se você é líder, mas as pessoas não entendem onde você quer chegar, ou, cada componente de sua equipe conhece uma versão diferente de uma mesma orientação dada por você, então você tem sérios problemas em várias áreas: objetividade, comunicação, integridade e coerência. É aquilo que foi classificado por Leon Festinger como Dissonância Cognitiva, isto é, incompatibilidade entre discurso e prática. Dispersão dos liderados será uma mera consequência desses desajustes todos.
Por vezes os conflitos de ordem pessoal se avolumam de tal maneira que o executivo mistura as crises de casa com o trabalho e estoura no trabalho a crise que não solucionou em casa. Pior de tiudo é quando ele projeta no colaborador da organização sua própria crise e tem a capacidade de dizer "fulano, você está trazendo seus problemas pessoais para o trabalho". Esse comportamento é observado em muitos executivos que se permitiram acumular de tensões num tal nível que já não mais distinguem quando eles próprios estão sendo a fonte do problema.
Procurar um terapeuta pode ajudar bastante. Infelizmente muitos líderes se julgam fortes demais, ou ainda tem aquela visão ultrapassada de que só procura por psicólogo que tem desequilíbrio mental. Acreditam que devem manter uma postura impenetrável e que procurar ajuda de um terapeuta seria demonstrar fraqueza. Esse é um erro trágico que um líder pode cometer na sua dinâmica de liderança. Quando uma pessoa está desequilibrada mentalmente, ela precisa de um neurologista e de um psiquiatra. Um analista é o profissional que ajuda quem ainda tem saúde mental suficiente para fazer sobre si uma leitura auto-crítica e com isso perceber suas próprias debilidades, potencialidades e áreas a serem trabalhadas.
Justamente por trabalhar com gente, lidar com pessoas e inevitavelmente com seus conflitos, um líder tem que ter mais equilíbrio que todo o resto do grupo. Ele não pode se posicionar diante de uma equipe totalmente despreparado para lidar com os problemas que estes colaboradores trazem para o ambiente do trabalho.
Não há forma de você detectar estes problemas e exercer uma boa liderança sem ter um profissional ao lado, completamente descolado de todas as realidades que lhe afetam diretamente, que te conduza a uma leitura auto-crítica de seus pensamentos e atitudes. Um analista vai criticar seus exageros, vai sinalizar os perigos das ações que você estiver adotando. Um coach ajudará em questões pontuais, um mentor ajudará nas questões de expertise. Um analista ajudará nos aspectos da vida, de forma mais holística. Mas encarar um analista é atitude de gente muito corajosa, pois é dolorido estar diante de um técnico que poderá que você está misturando seus próprios problemas emocionais com tudo aquilo que está fazendo. Tem que ter "estômago" e aguentar o confronto com atitude positiva e resiliência.
Um colaborador reflete no seu trabalho os problemas de filhos envolvidos com drogas, maridos ou esposas que adulteram, enfermidade de um parente próximo que demanda tempo no hospital, problemas de saúde pessoal do próprio colaborador, crise financeira e você, como líder, precisa perceber isso tudo sem que o empregado tenha que mencionar, pois falar disso é doloroso demais para ele. Você tem que aprender a separar o desempenho ruim ocasional que seu liderado está demonstrando daquele desempenho eficiente quando está tudo correndo bem. Um líder precisa ter sensibilidade e saber fazer diferença positiva na vida de seus liderados nestas oportunidades.
Percorra sua estrada, plenamente comprometido com aquilo que você mesmo estabeleceu para seus liderados.Coerência entre o discurso e a prática é o primeiro item que colaboradores esperam ver em seus líderes.
A verdadeira liderança envolve uma grande dose de sedução. É pelo prazer de trabalhar com você que as pessoas serão atraídas e mantidas nos seus projetos. Seja um líder de verdade!
Um abraço e até a próxima!
Curta o Administradores no Facebook e siga os nossos posts no @admnews.
As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.
Administradora, escritora, consultora e pedagoga empresarial. É Diretora Executiva na Eagle Gestão de Ensino e atua como docente em cursos superiores de Administração, Recursos Humanos e Logística. Possui especialização em tutoria de EAD pela Fundação Getúlio Vargas e é Mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Integra a Comissão da Mulher Administradora do Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro e trabalha com desenvolvimento, capacitação e gestão de pessoas no Terceiro Setor há mais de 20 anos.
Eagle Gestão de Ensino: http://www.eaglegestao.com







