03 de fevereiro de 2012, às 00h35min

Carnaval, a força econômica da cultura

Ainda há muito a se investigar e aprender sobre o carnaval e a sua gestão, mas certamente todos reconhecem que ele é um dos principais exemplos de integração entre o conhecimento tradicional, a cultura, a arte e a economia de um país

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A relevância do carnaval na vida social brasileira é ilustrada pelo ditado popular, segundo o qual, no Brasil, o ano só começa quando o carnaval acaba. Se, por um lado, ele realça o fato de que em algumas cidades do país é praticamente impossível ficar alheio aos festejos durante os dias de folia, por outro, também revela o desconhecimento do carnaval como uma importante atividade econômica mobilizada a partir de um elemento da cultura nacional.

O economista Carlos Lessa enriqueceu a discussão ao estudar a economia do carnaval carioca e afirmar que a evolução dos desfiles representa um grande exemplo de como uma criação da cultura popular pode evoluir da esfera não-mercantil para a centralidade da indústria de serviços de lazer em massa do Rio de Janeiro. Atualmente não há dúvidas acerca da transformação do carnaval em um grande negócio, existindo três aspectos dessa realidade merecedores de destaque.

Primeiramente, a explosão turística vivida por algumas cidades salta aos olhos de qualquer um dos seus moradores. No Rio de Janeiro, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Hotéis, a taxa de ocupação dos hotéis durante os dias de festa atingiu 95% em 2011, alcançando 100% nos bairros próximos aos eventos. Já o Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes destacou que um milhão de visitantes ajudaram a aumentar em 15% o faturamento dos bares e dos restaurantes da cidade.

Carnavalbrasileiro
Imagem: Thinkstock


O segundo aspecto é a escolha do carnaval como plataforma de comunicação das marcas. Blocos e trios elétricos espalhados pelo país são patrocinados por empresas que encontram no entretenimento uma forma diferenciada de relacionamento com os consumidores. Além disso, as escolas de samba oferecem o seu principal produto (o desfile) às marcas, que por sua vez, podem contar suas histórias através do samba-enredo, dos carros alegóricos, das coreografias, das fantasias e de todos os outros elementos presentes em um desfile. Além das empresas, muitas cidades e estados do Brasil escolhem patrocinar escolas de samba para incentivarem o turismo em suas terras.

Por fim, há de se reconhecer a dinâmica produtiva da realização do carnaval, que envolve milhares de trabalhadores em todo o país. Segundo Luiz Carlos Prestes Filho, que lançou luz sobre esse tema no Rio de Janeiro, a indústria do carnaval na cidade, em 2006, gerou uma receita correspondente aos gastos das pessoas, empresas, associações e prefeitura da ordem de R$ 685 milhões e criou uma oferta de postos de trabalho de 264,5 mil/mês, sendo que 64,7 mil/mês foram nas escolas de samba.

Diante do tamanho do negócio e do número de organizações envolvidas no processo produtivo, a profissionalização do carnaval continua o seu curso e muitos são os desafios presentes, dentre os quais destacam-se a formalização dos profissionais e a aplicação dos conhecimento de gestão, que impactam diretamente na definição dos planos de negócio. Como evidência do tamanho desse desafio, os dados de 2011 do Ministério da Cultura sobre a captação de recursos através do mecenato mostram a dificuldade dos gestores do carnaval em alcançar esses recursos. Segundo os dados, apenas 8 projetos no Rio de Janeiro, 6 na Bahia e 1 em Pernambuco eram relacionados ao segmento carnaval sobre um total de 642, 59 e 65 projetos, respectivamente.

Ainda há muito a se investigar e aprender sobre o carnaval e a sua gestão, mas certamente todos reconhecem que ele é um dos principais exemplos de integração entre o conhecimento tradicional, a cultura, a arte e a economia de um país.

Artigo publicado originalmente no jornal Brasil Econômico de 23/01/2012

 

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Autor
João Luiz de Figueiredo possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2001), graduação em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003), mestrado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004) e doutorado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2009). Atualmente, é professor da ESPM onde também é chefe da área "Gestão do Entretenimento" e coordenador do Núcleo de Economia Criativa, sendo responsável pelo desenvolvimento de pesquisas sobre Economia Criativa; é professor do Departamento de Geografia da PUC-Rio, onde também é pesquisador do Grupo de Pesquisa Gestão Territorial no Estado do Rio de Janeiro.
 
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