17 de outubro de 2010, às 07h02min

Ciência das Emoções (parte UM)

Não é o cérebro que sente emoções, como não é o cérebro que pensa. Nunca dizemos "o meu cérebro sente" nem "o meu cérebro está a pensar". Somos nós, na totalidade do ser, que sentimos e pensamos. Nós somos mais do que o nosso cérebro. Somos mais do que a nossa mente. Somos uma entidade.

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1.Introdução

A emotividade é uma das caraterísticas mais evidentes da espécie humana. O exercício de viver inclui uma ampla gama de estados emocionais que é única em todo o reino animal pela sua variedade, intensidade, extensão, profundidade, variabilidade e amplitude.


As emoções afetam toda a nossa vida: os pensamentos, os sonhos, as relações humanas, as decisões, as escolhas, etc. Invadem-nos a alma, o intelecto, o corpo. Atiçam a imaginação. Servem de tema e energia aos sonhos. Estão presentes em todas as formas de arte (na literatura, no cinema, no teatro, na dança, etc.). Na verdade, a vida humana sem as emoções seria excessivamente racional, mecânica, fria e descolorida.


Recentes estudos (J.LeDoux,1996) levam a acreditar que as emoções podem não estar tão distantes do pensamento e do intelecto como antigamente se pensava. Elas parecem ser produto de uma "sabedoria evolutiva" e revelam algum tipo de inteligência adicionado.

Primariamente, podemos admitir como seguro que as emoções têm um papel decisivo na sobrevivência. Um bom exemplo disso é a emoção do medo que permite que as pessoas sejam mais prudentes e corram menos riscos. Esta emoção protege-nos de nos lançarmos em ações que podiam fazer perigar a nossa vida. Com o medo aprendemos a perceber os limites.


Depois, vem uma outra função para as emoções: a social. Através das emoções somos mais capazes de estabelecer relações afetivas, cordiais e construtivas com os outros e daí resultarem benefícios para todos (cooperação, partilha, ajuda, etc.).

Através destes exemplos podemos concluir que as emoções existem nos seres humanos (e noutros animais) há muito tempo, executam tarefas de defesa, proteção e ajuda visando, afinal, a sobrevivência. A sua origem e a sua finalidade central são, por conseguinte, biológicas mas com um tremendo impacto nas restantes atividades mentais.


Isso explica porque as emoções acontecem, numa primeira fase, em níveis não conscientes. Elas são acionadas por processos de percepção rapidíssimos que apreendem as situações através de um sistema neurológico complexo e ditam as respostas necessárias adequadas a cada situação. Por isso é que primeiro sentimos as emoções e depois pensamos sobre as suas causas e sensações provocadas.


Esse é o papel sobretudo das chamadas emoções primárias, básicas ou primitivas pois estão também presentes em outros animais. Mas existem, no ser humano, emoções mais complexas (na verdade, parecendo ser uma mistura de emoções) que são provocadas por situações de natureza mais social. É o caso da vergonha. É uma das quatro emoções sociais que estão ligadas à nossa auto-consciência (isto é, a consciência de quem somos). As outras três são o acanhamento, o orgulho e a altivez.


A vergonha é reconhecida como a emoção da inferioridade e tem um problema. Segundo diz Annie Emaux "o pior da vergonha é que quem a sente julga ser o único a tê-la" numa dada situação. É uma experiência muito pessoal e íntima, que arremete contra a nossa auto-confiança. Constantes experiências de vergonha na nossa vida podem destruir a auto-estima, tornar-nos tímidos e, por fim, empurrar-nos para comportamentos inibitórios (que nos inibem) e evitantes (fugas das situações).

É evidente que um pouco de vergonha não faz mal a ninguém. Pode até ser benéfico. O problema de se ter vergonha só se coloca como indesejável quando esta toma conta da nossa vida e nos impede de sermos felizes!


2.Teorias primitivas

Apesar de fazerem parte da nossa natureza, desde mesmo antes de nascermos, as emoções só muito recentemente mereceram a atenção da ciência. Os conhecimentos que hoje temos desta matéria são muito vastos.


Existem diferentes abordagens no estudo das emoções. Conforme a perspectiva, o entendimento varia. Para uns, as emoções são reações biológicas, próprias da nossa natureza animal. São mecanismos de sobrevivência, mesmo que tenham também funções sociais. Elas existem nos seres humanos pelas mesmas razões que existem em muito outros animais. Para outros são simplesmente estados mentais provocados pelo sistema nervoso em resultado de determinados de estímulos.

Outros autores preferem afirmar que as emoções são formas de pensamento. Outras correntes sugerem que elas são formas de consciência do mundo, isto é, janelas através das quais apreendemos a realidade e a transformamos.

Durante muito tempo as emoções foram consideradas como elementos perturbadores do raciocínio e do comportamento. O filósofo Platão, que viveu cerca de 400 anos antes de Cristo, terá sido o primeiro teórico das emoções. Ele achava as emoções como algo desconcertante, opostas à razão, pelo que deveriam ser refreadas. Não foi o único a pensar assim. Cícero, filósofo romano que viveu mais tarde, entre os anos 106 e 43 antes de Cristo (a.C.), declarou que as emoções tinham o seu quê de estupidez e ignorância pois elas insurgiam-se contra a inteligência e a razão; por conseguinte, as emoções eram indesejáveis.


O estoicismo (uma doutrina filosófica que apareceu no século III a.C.) condenava as emoções, fazendo a apologia da razão e da inteligência. Os estóicos (os seguidores daquela doutrina) consideravam, todavia, quatro emoções fundamentais: o "desejo" (de bens futuros); a "alegria" (pelos bens presentes), o "temor" (pelos males futuros) e a "aflição" (pelos males presentes).

Já o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C.), que também dedicou alguma da sua atenção ao estudo das emoções, escreveu que "as emoções são todos aqueles sentimentos que mudam as pessoas de forma a afetar os seus julgamentos" e têm a ver ou com a dor ou com o prazer. E exemplificou: "Quando as pessoas se sentem amistosas e afáveis pensam um tipo de coisa; quando se sentem iradas e hostis, pensam em outra coisa completamente diferente, ou a mesma coisa com uma intensidade diferente".


É curioso que apesar da distância no tempo (mais de 2 mil anos), alguns elementos que Aristóteles referiu sobre as emoções mantêm-se actuais. Disse ele:

"As emoções estão ligadas ao pensamento.Elas podem ser agradáveis ou desagradáveis. Incitam à acção. Baseiam-se nas avaliações que fazemos das situações".


O estudo mais acentuado do papel social das emoções teve a sua origem nas análises dos naturalistas dos séculos XVI e XVII. Reconhecia-se então que todo o homem procura os seus semelhantes não apenas para satisfazer interesses e necessidades mas também pelo prazer que lhes proporciona a convivência e familiaridade.


Santo Agostinho (1548-1600 d.C.) associou as emoções à sensibilidade do espírito humano, frisando o seu carácter activo e responsável: "todos os movimentos da alma não são mais do que vontade". E interrogava-se: "O que é o medo e a tristeza senão vontade que repudia coisas não desejadas? Segundo a diversidade das coisas desejadas e evitadas, a vontade humana, ao permanecer atraído por elas ou ao rejeitá-las, transforma-se nesta ou naquela emoção".


O filósofo René Descartes (1596-1650) fez uma análise detalhada das emoções humanas estabelecendo as primeiras bases para a compreensão neurofisiológica das mesmas e atribuiu ao pensamento alguma capacidade para regular as emoções. Outro filósofo, Espinosa (1632-1677), na linha de pensamento de Aristóteles, acreditava que nossas emoções se baseiam em avaliações.


A partir do século XX foram muitos os estudiosos das emoções, cada qual apresentando perspectivas que praticamente se completam. Nasceram assim teorias cognitivas, teorias clínicas, teorias fenomenologias, etc.As primeiras teorias são chamadas de "primitivas". No século XX destacaram-se, sobretudo, as teorias de McDougall, de James-Lange, de Papez e de Duffy. Estes investigadores preocuparam-se sobretudo em descobrir e compreender o que elas significavam.


3.Um mundo multifacetado

O mundo da emotividade não se reduz às emoções propriamente ditas mas também a outros estados como o "sentimento de fundo" ou "humor" (que pode ter outras designações como "estado de espírito", "estado de ânimo", etc.).Esse "sentimento de fundo", que se apresenta como um continuum emocional (isto é, flui constantemente) marca a qualidade dos nossos dias. Há dias em que nos sentimos mais animados e vigorosos; em outros, sentimo-nos mais deprimidos sem que estejamos, não obstante, a sofrer de alguma depressão. Falaremos sobre isso em outras aulas.


Também a saúde do nosso organismo é profundamente afetado pela natureza, qualidade, frequência e intensidade das emoções. A ira, por exemplo, fornece uma pressão muito negativa sobre o corpo e os seus órgãos, especialmente o coração, podendo ser muito perigosa. Já os estados emocionais como a alegria fornecem vitalidade e bem-estar, contribuindo para a saúde integral.


O nosso estado emocional é flutuante. Ou seja, não é sempre igual. Oscila ao longo das horas e dos dias em função de muitos factores. Misturam-se, por vezes, diferentes tipos de emoções, sobretudo em situações de crise.


Emoções, sentimentos, paixões e afetos fazem parte da emotividade humana. São, em rigor, diferentes realidades, como veremos mais adiante.


Uma diferença importa desde já salientar: enquanto as emoções exprimem-se sobretudo através do nosso organismo (veja o que acontece com o medo, a ira, a vergonha, etc.), os sentimentos são mais de natureza psíquica, são mais mentais e menos corporais (o melhor exemplo é o amor). Claro que os sentimentos estão associados a emoções e a sensações. Esta complexidade torna o estudo da emotividade humana numa tarefa apaixonante com uma vantagem adicional: amplia a nossa capacidade de nos conhecermos melhor e aos outros, podendo assim contribuir para uma vida mais harmoniosa, produtiva e feliz.


(continua)


Nelson S Lima
Investigador em Psicologia na EURADEC Alemanha
Diretor Nacional da EURADEC Reino Unido
Associação Europeia para o Desenvolvimento da Educação e da Cidadania
nelsonlima@europe.com
Ceo do Instituto da Inteligência
geral@institutodainteligencia.net

 

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- Diretor Nacional da EURADEC UK na Inglaterra (Associação Europeia para o Desenvolvimento da Educação e Cidadania).
- Diretor da Divisão de Investigação Psicológica da EURADEC na Alemanha.
- CEO do grupo Instituto da Inteligência
(Portugal, África e América do Su).
- Consultor e membro da Universidade do Futuro, em construção, em Portugal.
- Palestrante Profissional.

Memórias autobiográficas:

- Momento profissional 1: iniciei a escrita do meu primeiro livro aos 12 anos mas apenas foi publicado em 1980 com o título "5 Mil Anos de Transportes" (498 pág., 17 capítulos) onde conto a aventura do invento humano desde antes da roda até às viagens espaciais. Tive a colaboração do Jornal de Notícias, NASA, Boeing, numerosos museus de transportes, etc. O livro está exposto no Museu de Transportes do Porto (Portugal;

- momento profissional 2: atravessia do Atlântico entre Lisboa e Nova Iorque em barco de transportes (10 dias, em Agosto de 1969); nos meses seguintes, nos Estados Unidos, trabalhei em marketing para uma empresa do grupo Nestlé;

- momento profissional 3: formador convidado do curso de "Liderança & Economia Capitalista" para professores universitários de vários países a Europa de Leste, em Bratislava, República Eslovaca, 1992;

- momento profissional 4: fundação do Instituto da Inteligência, em 1998;

- momento profissional 5: meu estudo do perfil psicológico de José Mourinho, ex-coaching do Inter de Milão e do Manchester; atualmente no Real Madrid. Esse estudo foi pedido pelo jornalista J.Marinho, do canal SPORT TV e saiu no livro "José Mourinho - vencedor nato";

- momento profissional 6: nomeação para Diretor Nacional da EURADEC na Inglaterra e Diretor de Investigação em Psicologia na sede da mesma instituição, em Berlim (Alemanha), 2010.

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