13 de janeiro de 2012, às 11h59min

Comemorando pelas razões erradas

O Brasil não tem razões para se ufanar. Nossa distribuição é uma das piores do mundo e nossa renda per capita é medíocre, a 55ª do globo

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Muita fanfarra na virada do ano porque o Brasil tornou-se a 6ª economia mundial, ultrapassando o Reino Unido. Não entendo por quê.


Somos a 6ª economia do planeta há tempos. As estatísticas oficiais não incluem a economia informal, como se os camelôs, pipoqueiros, professoras de violão e catadores de latinhas não existissem.

Acontece que há muito mais informais no Brasil do que na França ou na Alemanha, que segundo as estatísticas são a 5ª e 4ª economias do mundo. Estes trabalhadores são ignorados pelas estatísticas, mas não deixam de produzir, comer, morar, comprar, ir ao futebol. Já somos pelo menos a 5ª ou talvez a 4ª economia global, apesar do FMI ainda não indicar isto.

Mesmo assim, não vejo razão para euforia. Ser uma das maiores economias ajuda a atrair investimentos e gerar empregos, mas não garante prosperidade para todos. Tudo depende do nível de renda per capita e de como a renda está distribuída. A China, por exemplo, é a 2ª economia do planeta e tem um PIB 110 vezes superior ao de Luxemburgo. No entanto, cada chinês é, em média, 20 vezes mais pobre do que cada luxemburguês.

O Brasil não tem razões para se ufanar. Nossa distribuição é uma das piores do mundo e nossa renda per capita é medíocre, a 55ª do globo.

Ruim, mas já foi bem pior. O excepcional processo de transformação pelo qual o país está passando trouxe melhoras significativas. De 2002 para cá, a economia brasileira pulou de 13ª a 6ª maior do planeta segundo o FMI. Nossa renda per capita avançou 19 posições, saindo do 74º posto. Nossa distribuição de renda também melhorou muito.

Ao contrário do que reivindicam alguns, nossa ascensão econômica não aconteceu por méritos deste ou daquele político. Melhoras semelhantes ocorreram em dezenas de outras economias no mesmo período. A explicação é uma transformação muito mais ampla e menos sujeita aos caprichos dos políticos.

Ao entrar na Organização Mundial do Comércio em dezembro de 2001, a China condenou o Brasil e vários outros países em desenvolvimento a emergirem.

Este evento provocou uma forte e sustentada elevação dos preços de matérias primas que exportamos, enquanto reduziu o preço de inúmeros produtos industrializados e do capital que importamos, favorecendo consumo e investimento por aqui e em muitos países emergentes. A mudança foi tão grande que hoje, entre os 10 países com renda per capita mais elevada, metade é exportador de matérias primas.

As forças que impulsionaram a economia mundial na última década, possivelmente, continuarão ao longo desta, o que sustentará nosso processo de desenvolvimento, apesar de solavancos esporádicos, como o que deve ocorrer este ano devido à crise europeia. Não deixe a decepção de 2012 nublar as perspectivas do que esta década pode trazer.

Se as tendências de crescimento econômico e cambiais dos últimos 9 anos em todo mundo continuarem iguais, antes da Copa do Mundo nossa distribuição de renda será melhor do que a dos EUA. No final da década, seremos a 3ª economia mundial, nossa renda per capita avançará mais 21 posições. Um ano depois, em 2021, nossa renda per capita será maior do que a dos americanos.

Nada disso está garantido. Oportunidade não é destino. Em lugar de comemorar uma estatística errada e que significa pouco para a vida dos brasileiros, deveríamos nos preocupar em criar as condições para que este desenvolvimento potencial se torne realidade. Como já cantou o poeta: "quem sabe faz a hora, não espera acontecer."

Postado originalmente na coluna do autor na revista IstoÉ de 13/01/12.

 

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Autor
Um dos apresentadores do programa Manhattan Connection da Globo News desde 2003, Ricardo Amorim tem presença destacada na indústria financeira mundial há 17 anos. Atualmente, é presidente da Ricam Consultoria, aconselhando grandes clientes no Brasil, América Latina, Estados Unidos, Europa e Ásia em projetos financeiros e de investimentos

Um dos primeiros a prever, ainda em 2007, a atual crise financeira global, Ricardo profetiza desde o final de 2.008 o descolamento de China, Índia e Brasil da crise econômica de EUA, Europa e Japão. Ricardo vai mais longe e projeta que o Brasil será um dos líderes do crescimento global nos próximos 5 anos, gerando oportunidades excepcionais de negócios.

Por acreditar firmemente nestas oportunidades, Ricardo retornou ao Brasil em 2008 para assumir a posição de C.E.O. da Concórdia Asset Management, após 8 anos em Nova York. Lá, foi Diretor Executivo para Mercados Emergentes (América Latina, Ásia, Leste Europeu, Oriente Médio e África) do banco alemão WestLB. Foi também Diretor de Estratégia de Investimentos para a América Latina da IDEAglobal, uma das maiores consultorias de investimento do mundo e Estrategista Sênior para Mercados Emergentes do banco francês BNP Paribas. Em São Paulo, atuou no BankBoston, Itaú Bankers Trust Asset Management, Banco Fenícia, e na consultoria econômica MCM e lecionou no curso de pós-graduação em Gestão de Riscos da Universidade São Marcos. Em Paris, trabalhou na Divisão de Mercados Emergentes do Banco Société Générale.

É economista formado pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em Administração e Finanças Internacionais pela ESSEC (École Supérieure des Sciences Economiques et Commerciales) de Paris e membro do Business Affairs Committee, o mais prestigiado comitê da Câmara Americana de Comércio de São Paulo.




 
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