Crise: a reação neoliberal dos anos 80
A crise internacional do petróleo de 1973 teve severas repercussões na estrutura política que havia se formado no Pós-Guerra. O longo ciclo de crescimento verificado entre 45 e 73 proporcionou às massas dos países desenvolvidos um elevado padrão de consumo
Proporcionou também uma complexa estrutura de assistência social. Tais políticas ficaram conhecidas como welfare state, ou estado de bem-estar social. a atuação do Estado não se restringiu à assistência. Importantes setores da economia eram controlados diretamente por empresas públicas. Do ponto de vista político, partidos de corte social-democrata ou trabalhista controlavam o poder em importantes países industrializados. A crise econômica- caracterizada por desemprego, inflação e estagnação- levou a uma abrupta mudança na estrutura política na década de 80. Saía de cena o Estado de Bem-Estar e começa a era do Estado Mínimo.
O segundo choque do petróleo, iniciado após os desdobramentos da Revolução Islâmica no Irã, de 1979, levou novamente as economias centrais a adotarem políticas contracionistas, cujos reflexox logo se fizeram sentir nas economias periféricas. Diferentemente do primeiro choque, quando os petrodólares foram reciclados pelo sistema financeiro dos países centrais, os recursos disponíveis na economia mundial naquele momento foram atraídos pelos Estados Unidos, que, a partir de 1979, elevaram suas taxas de juros.
Há que se considerar também que a crise econômica dos anos 70 desmoralizou as políticas de bem-estar social patrocinadas pelos principais países capitalistas. Alegando os efeitos negativos das políticas de assistência social- como a elevação dos déficit público e as elevadas taxas de inflação, sem, contudo, influir positivamente sobre os níveis de emprego- os economistas neoliberais passaram a defender o afastamento do Estado da gestão da política econômica, preconizando a desregulamentação dos mercados, a privatização de empresas públicas e a diminuição dos gastos sociais.
A "onda" neoliberal se inicia coma vitória de Margareth Thatcher nas eleições de 1979, quando foram derrotatos os trabalhistas, até então no governo. Naquele processo eleitoral, os conservadores ingleses não atacaram de frente o sistema de assistência social montado pelo Estado britânico. Entretanto, no poder, iniciaram o ataque à estrutura econômica pública montada no pós-guerra.
As ideias que inspiriram os conservadores britânicos são aquelas conhecidas escolas austríaca de de Chicago, cujos maiores expoentes foram Friederich A. Hayek e Milton Friedman. De forma geral, as ideias por eles preconizadas defendiam o extremo laisses-faire. Friedman em Capitalismo e Liberdade preconizava o completo afastamento do Estado da esfera econômica e também da assistência social. Ele era contrário ao imposto progressivo, ao imposto sobre as sociedades anônimas, à educação e previdências públicas, à regulamentação governamental dos alimentos e medicamentos, ao salário mínimo, aos monopólios governamentais, às empresas públicas, aos parques nacionais, etc. O Estado deveria preocupar-se apenas em garantir o direito de propriedade, o cumprimento dos contratos e com a defesa nacional.
A onda neoliberal chegou aos Estados Unidos no ano seguinte, quanto o republicano Ronald Reagan venceu JimmY Carter nas eleições de 1980. Lá também começaram a ser tomadas medidas de desregulamentação econômica, corte de impostos para os segmentos mais ricos da sociedade e cortes nos orçamento sociais. Assim como na Inglaterra, os supostos objetivos na nova política econômica seriam o combate à inflação, a diminuição do défict público, aumento da produtividade geral do sistema e, por fim, conferir maior liberdade aos agentes econômicos. Especificamente no caso norte-americano, Reagan também se preocupava em combater o avanço do socialismo, acirrando a Guerra Fria com projetos como a Guerra nas Estrelas, a ocupação da ilha de Granada, o financiamento da oposição na Nicarágua ou mesmo nos bombardeios contra a Líbia, de Kaddafi- morto em 2011. A respeito dessa onda neoliberal que assolou o mundo, a postura adotada pelos dirigentes neoliberais, de fato, prestava-se a acirrar a luta de classes, tentando acuar o poder de pressão que os sindicatos de trabalhadores e partidos políticos de esquerda haviam conquistado no período 45-73. Antes de tornar o Estado mais enxuto e o déficit orçamentário sob controle, as políticas adotadas a partir de 80, ao contrário, foram responsáveis pelo aumento substancial do tamanho das dívidas públicas de todos os países capitalistas. Mesmo o gasto público passou a ser intensificado não mais nas rubricas sociais, mas, sim, nas contas militares.
A política econômica adotada pelos Estados Unidos, a partir de 81, teve como tônica a luta contra o processo inflacionário iniciado após as crises do petróleo. A elevação das taxas internas de juros serviu para contrair a oferta monetária e conter a demanda interna. Paralelamente, também serviu para atrair capitais externos, que foram utilizados para a rolagem da dívida interna, para cobrir os déficits na conta de transações correntes e também para reverter a contínua desvalorização do dólar diante do marco alemão e do iene japonês.
A repercussão sobre a economia mundial das políticas domíesticas, adotadas pelos Estados Unidos no períddo 81-85, foi diversa. Por um lado, a recessão interna dos dos primeiros anos forçou a queda das exportações tradicionais para aquele mercado. Países exportadores de matérias-promas e alimentos verificaram substancial redução em suas receiras externas, tal como ocorreu com o Brasil. As principais exceções foram a Alemanha e o Japão, sendo que, durante o mesmo período, além de conseguirem elevados supreávits comerciais com os norte-americanos, os japoneses também apresentaram evolução positiva do PIB.
Por outro lado, enquanto o dólar sobrevalorizado era responsável pelo déficit nas transações correntes do Estados Unidos, ele servia para, no mesmo instante, absorver o capital que excedia nos países superavitários. Países como Japão e Alemana, que apresentaram expressivos superávits comerciais, viram-se, na prática, obrigados a financiar os déficits norte-americanos. É preciso esclarecer que não apenas o capital de risco acorreu aos Estados Unidos, como rerificou-se também, nesse período, grande compra de ativos por parte dos japoneses.
Na visão de Paul Krugman, no entanto, os déficits comerciais revelaram um problema estrutural (a queda da poupança nacional) agravada pelas políticas monetária e cambiais inadequadas (elevação da taxa de juros e sobrevalorização cambial). De fato, após a recessão de 81-82, a economia norte-americana voltou a crescer, exercendo influência expansiva sobre o subconjunto a ela conectado. Vendo o desempenho do PIB, das balanças comercial e de pagamentos dos principais páises capitalistas, é interessante notar como o desempenho da economia dos Estados Unidos exerce grande influência no desempenho dos outros dois parceiros. Por outro lado, quando se observa as contas externas dos Estados Unidos, e da Alemanha e do Japão do outro, nota-se que são simetricamente opostas. O déficit de um é o superávit do outro. Pode-se verificar como a administração da política econômica norte-americana manuseia seu poder de nação hegemônica de acordo com suas conveniências . Os episódios que se seguem comfirmam isso.
Quando os grupos internos, afetados pela concorrência estrangeira, passaram a pressionar o governo contra a política de abertura econômica, e também contra os expressivos déficits da conta de transações correntes, o Federal Reserv (Banco Central Norte-americano) passou a controlar politicamente a paridade do dólar diante do marco e do iene, mas também diante da libra britânica e do franco francês. Os acordos do Plaza (setembro/85) e do Louvre (fevereiro/87) marcaram a desvalorização do dólar, exigida como um ultimatum pelos norte-americanos. Caso contrário, supostamente as pressões protecionistas internas os forçariam a adotar barreiras comerciais. Na visão dos admnistradores dos Estados Unidos, as políticas coordenadas após o segundo acordo de desvalorização cambial, o do Louvre, de 1987, conseguiu reverter a tendência de crescimento dos déficits. Outra questão importante diz respeito ao papel assumido pelos Estados Unidos após as políticas de coordenação. Sua condição de superpotência fez criar uma ordem econômica mundial adequada às necessidades de sua economia. Isso vale tanto para as definições do ambiente internacional do comércio- com a rodada Uruguay do Acordo Geral de Tarifas e Comércio0 Gatt; para a desregulamentação financeira, colocando os títulos do Tesouro norte-americano como o principal ativo de proteção; a renegociação e reestruturação das dívidas dos países subdesenvolvidos (Plaos Baker e Brady)- quanto para sua influência explícita sobre o FMI, o Banco Mundial, etc.
Efetivamente, as políticas adotadas pelos Estados Unidos no começo dos anos 80 reafirmaram seu papel de carro-chefe da economia mundial e determinaram as condições ambientais com que deparariam os demais países de então, notadamente quanto à nova fisionomia do sistema financeiro interncional. Não é o caso aqui de fazer uma análise aprofundada do desempenho da economia norte-americana durante os anos 80, mas somente de levantar alguns aspectos que possam ser úteis para a compreensão dos problemas enfrentados pela economia brasileira naquele período.
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Especializando em Sistemas de Planejamento e Gestão pela Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC. CRA-SC nº 600285.







