A partir de 2002, a forte expansão do crédito habitacional direcionado ao segmento subprime americano, propiciado por taxas de juros mais acessíveis (medida adotada pelo FED na tentativa de impulsionar a economia após a crise de setembro de 2001) e prazos estendidos, proporcionou um crescimento bombástico do mercado imobiliário daquele país. Adicionalmente, títulos atrelados aos contratos de dívida imobiliária passaram a ser negociados em larga escala em diversos mercados financeiros ao redor do globo, pois apresentavam melhores rendimentos frente aos Treasuries – títulos do governo americano, e menor risco, ao menos era o que se esperava, uma vez que muitos títulos de dívida foram classificados como de baixo risco pelas agências de rating, seja pela questionável atuação das mesmas ou pela tamanha complexidade dos instrumentos derivativos. A crescente pressão inflacionária, devida, em parte pela expansão do mercado imobiliário, incentivou a autoridade monetária dos Estados Unidos a deliberar sobre inúmeras majorações da taxa básica de juros em curto espaço de tempo (em cerca de 2 anos, a FED Funds passou de 1% a.a. para 5% a.a. ), tendo efeito direto sobre a taxa dos contratos imobiliários realizados junto ao subprime. Na incapacidade de honrar seus compromissos, as prestações dos financiamentos imobiliários foram vencendo e muitas vezes a hipoteca não representava solução para renegociar a dívida, pois ela não condizia com o alto preço das residências, que havia aumentado severamente dada à expansão do segmento. A medida em que as pessoas não honravam mais suas obrigações, casas iam sendo postas à venda até o momento em que, os preços reduziram drasticamente, dada a quantidade ofertada. No âmbito dos mercados financeiros, títulos se tornaram ilíquidos – dada a queda dos preços – e muitos investidores e grandes bancos, que mantinham estes ativos 'podres' em suas carteiras, contabilizaram perdas bilionárias, seja nos Estados Unidos, Europa e demais países do globo. Por precaução, muitos bancos adotaram maior seletividade na concessão de crédito, de modo a preservar seus ativos, porém, como motor do sistema capitalista, o crédito escasso limitou as atividades da indústria (principal afetada) e os efeitos da crise começaram a ser sentidos na economia real dos países no mundo todo. Até o agravamento da crise, em setembro de 2008, a economia brasileira apresentava claros sinais de crescimento e estabilidade, influenciados por um sistema de metas de inflação cada vez mais confiável, pela demanda aquecida – resultado ocasionado, essencialmente, pela expansão do crédito – pela valorização da moeda, entre outros fatores. Contudo, muitas fontes de captação internacionais secaram, prejudicando diversas instituições financeiras, em especial, as de médio e pequeno portes, mais dependentes destas linhas de captação. Com a escassez de crédito, a indústria geral também arrefeceu, em especial, o segmento de exportação, que além da dificuldade de acesso ao crédito, viu sua demanda sofrer severa redução em virtude dos efeitos da crise em outros países. Como forma de mensurar o impacto da crise sobre a economia brasileira, examinamos as projeções de meados de setembro de 2008 e abril de 2009 para alguns dos principais indicadores macro-econômicos: PROJEÇÕES PARA 2009 EM SET08 E ABR09, RESPECTIVAMENTE: PIB 3,60% e -0,30% IPCA 4,99% e 4,30% TAXA CÂMBIO R$ 1,75 e R$ 2,20 SELIC 13,75% e 9,25% As recentes projeções de mercado indicam severa redução para o PIB em 2009, principalmente em virtude do desaquecimento da indústria no Brasil. Por sua vez, a expectativa para a inflação – medida pelo IPCA – reflete a queda dos preços, em especial, da indústria e propicia redução gradativa da SELIC, a medida em que o Banco Central ajusta a convergência entre a taxa básica de juros e a meta de inflação, de 4,5% para este ano. Todavia, os indicadores mais recentes indicam que a crise não deve incorrer em piores consequências a nossa economia, dado que já se percebe sinais de recuperação, com retomada do crescimento da indústria após dezembro de 2008, e consumo ainda aquecido, resultado de diversas medidas das autoridades monetárias e Governo, tais como desoneração tributária e injeção de liquidez em bancos menores, de modo a impulsionar o crédito. A taxa cambial, contudo deve permanecer acima do desejado – nível pré-crise – uma vez que a procura por títulos do Governo Americano ainda é grande, dada a crise de confiança que se instalou nos mercados financeiros. Luciano Bertol de Moura Bancário Graduado em Comércio Exterior Pós-graduando em Finanças