Críticas, falácias lógicas e um pouco mais sobre Paul Potts
Obs.: o texto a que faço referência nesse post está agora exclusivamente disponível no meu blog, em alvaroaugusto.blogspot.com/2007/08/senhoras-e-senhores-o-grande-paul-potts.html .
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Meu texto sobre o vídeo de Paul Potts [1] gerou alguns comentários aqui no Administradores, muitos deles acalorados e outros verdadeiramente deselegantes. Também recebi vários e-mails. Um leitor, escondido pelo anonimato, escreveu para me perguntar se sei cantar como Potts. Bem, de fato não sei cantar como ele. Também não sei fazer suflê, mas sei dizer quando um suflê está ruim.
A técnica argumentativa de se retornar a crítica ao formulador dela é bem conhecida e largamente utilizada, especialmente pelos políticos. Trata-se de um argumento falacioso conhecido como "ad hominem", expressão latina que significa "ao homem". O "ad hominem" surge quando atacamos o formulador de um argumento em vez de atacarmos o argumento em si. Por exemplo, é muito comum encontrarmos afirmações do tipo: "O professor XYZ é um ateu conhecido. Logo, não podemos levar a sério suas objeções ao criacionismo".
Na verdade, nem mesmo sei se sei cantar como Paul Potts, pois nunca tentei. De todo modo, essa consideração é completamente irrelevante na análise de qualquer crítica que eu ou outra pessoa possa fazer a Potts ou a qualquer outro cantor ou músico.
Alguns leitores usaram o "ad homimem" de maneira um pouco diferente, alegando que o problema é que tenho inveja de Paul Potts. Ora, se tal for verdade, por que não tenho inveja de Pavarotti, que chegou muito mais longe do que Potts jamais irá chegar? De qualquer forma, ao usarmos o "ad homimem", passamos a criticar o autor do argumento original, e deixamos de nos concentrar no argumento em si, coisa sempre muito mais difícil de se fazer. Afinal, é sempre mais fácil, rápido e barato matar o mensageiro.
Outra leitora, que teve ao menos a elegância de se identificar, escreveu que, embora também não goste de auto-ajuda, acredita que, "...se a sociedade tivesse mais 'manipuladores emocionais' iguais a Paul Potts, talvez o mundo fosse melhor e as pessoas tivessem mais sentimentos". Aqui, provavelmente o erro foi meu, pois talvez eu não tenha deixado claro que a "manipulação emocional" à qual me referi é aquela feita pelo autor do vídeo, não por Potts.
Paul Potts fez o que se esperava de um cantor lírico, seja ele profissional ou amador: emocionou as pessoas. O autor do vídeo, por outro lado, foi hábil e oportunista em editar as imagens de Potts, intercalando-as com outras na qual introduz a vida sofrida dele, ressaltando a humildade e docilidade tão comentadas em vários sites, e finalizando com a imagem dos jurados surpresos ao se depararem com "um pedaço de carvão prestes a se transformar em um diamante". Sem tal edição, o efeito emocional de se ver Potts cantando Puccini teria sido muito menos pronunciado. O verdadeiro manipulador emocional, portanto, não é Potts, mas o autor desse vídeo que certamente será usado em infindáveis palestras motivacionais e de auto-ajuda pelo mundo afora [2].
Também cabe observar que o fato de Paul Potts ter tido uma vida sofrida (embora somente pelos padrões britânicos) não o torna imune a críticas. Esse é o bem conhecido "efeito Lula": se você provar que passou fome, sofreu bastante e demorou para chegar aonde queria, será mais difícil que as pessoas o critiquem. Bobagem. Ninguém está livre de críticas.
Outra falácia bastante usada pelo mundo afora é o "non sequitur", do latim "não se segue". O "non sequitur" aparece quando o argumento do interlocutor não se segue logicamente do argumento anterior. Um leitor usou esse argumento quando disse que "a pior das manipulações emocionais é a INVEJA..." Em outras palavras, ele usou o título do meu próprio artigo para tentar mudar de assunto, misturando ainda esse "non sequitur" a um "ad hominem" verdadeiramente pavoroso.
Apesar da unanimidade que consegui com o artigo sobre o vídeo de Potts, o mais curioso mesmo é a auto-referência que aparece em vários comentários. Nos doze comentários publicados no Administrando até o momento, e em vários outros que recebi por e-mail, um ponto comum é a crítica à minha posição. Os leitores, indignados com minha crítica a Paul Potts, escrevem para dizer que os críticos não passam de imbecis invejosos. Contudo, ao escrever tal coisa, os leitores atuam como críticos e somos então levados a concluir que eles mesmos, de acordo com suas próprias palavras, não passam de imbecis invejosos. Auto-referência, como já nos alertava Bertrand Russel, é coisa perigosa, embora comum.
Finalmente, cabe lembrar que a imagem de pessoas que nunca ouviram música erudita, e se emocionam ao ouví-la pela primeira vez, é muito mais comum do que se pensa. Foi isso que aconteceu com a platéia do programa "Britain's Got Talent", leiga em canto lírico, ao ouvir pela primeira vez Puccini na voz de Potts. Todavia, qualquer músico de qualquer orquestra sinfônica conhece muito bem o efeito que Beethoven, Verdi, Puccini, Brahms, Vivaldi, Tchaikovsky e tantos outros provocam nas pessoas. É por isso que a música desses artistas continuará ecoando pelo planeta, muito tempo depois que eu, Paul Potts e vários outros já estivermos confortavelmente mortos e esquecidos.
[1] ALMEIDA, A.A. Paul Potts, Pavarotti e manipulações emocionais. Disponível em: alvaroaugusto.blogspot.com/2007/08/senhoras-e-senhores-o-grande-paul-potts.html
[2] Paul Potts canta "Nessun Dorma" no concurso "Britain's Got Talent". Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=AnpiMK8mahU .
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