12 de novembro de 2009, às 20h06min
Do berço ao berço – cradle to cradle design
Acredito que este tema é extremamente oportuno, não só pela discussão que haverá em Copenhague, Dinamarca, em dezembro, para discutir as emissões globais de gases-estufa após 2012, quando o Protocolo de Kyoto expira, mas também porque está crescendo uma conscientização mundial de que se ficarmos dependendo da decisão de “meia dúzia” ver se reduzem 5% ou 5,5% da emissão, não iremos a lugar nenhum, nem nossos filhos e netos irão!
Voltando à frase “do berço ao berço”.
Frase não muito elucidativa mas que contém um conceito genial, primordial, aplicável e fundamental nos tempos correntes.
Com todos os adjetivos anteriores, não quer dizer, no entanto, que seja de fácil implementação. Não o será quando a busca for exclusivamente pelo lucro de curto prazo e se a visão dos administradores for míope.
É um conceito desenvolvido por William McDonough e Michael Braungart, o primeiro arquiteto e o segundo químico, se não me falha a memória.
O conceito trata do desenho (projeto) de produtos e dos respectivos processos produtivos de modo que todas as partes (componentes e matérias primas) envolvidas na produção desses produtos possam ser totalmente reutilizadas em novos processos produtivos depois que estes produtos forem descartados.
Cabe esclarecer que não se deve confundir este conceito com reciclagem. É bastante diferente.
Um exemplo típico de reciclagem é o do papel. Após sua utilização (por exemplo de folhas brancas), a reciclagem do papel, no caso ótimo de economia de recursos e energia, irá produzir um papel de qualidade inferior e, talvez, meio pardo ou amarelado, por exemplo.
Isto é, o produto gerado na reciclagem demandou reprocessamento, consumo de energia e recursos, e o resultado foi um produto inferior ao original.
No conceito do berço ao berço (cradle to cradel design), o reprocessamento do produto descartado irá criar um novo produto de qualidade igual ou superior ao original. Isto não quer dizer que seja para a mesma aplicação ou para o mesmo mercado.
Além disso existe toda uma preocupação para que todo o processo de produção e as matérias-primas utilizadas sejam ecologicamente corretas e efetivas.
Quando o sistema estiver funcionando o círculo produtivo (produção – descarte -produção) maximiza o valor agregado sem prejudicar o ecossistema.
Alguns exemplos da aplicação deste conceito:
Lixo igual a comida.
Estranho? Mas imagine um produto que depois de utilizado pode ser descartado e com um mínimo de processamento pode se tornar, por exemplo, em fertilizante. Logo ele estará realimentando a cadeia em um função nobre, utilizado para agricultura e geração de alimentos.
Outro exemplo, embora não muito agradável à primeira vista, em vez de utilizar só fibras naturais de algodão, na industria têxtil, cuja produção, do algodão, demanda uso intensivo de pesticidas, porque não utilizar fibras inteligentes biodegradáveis ou fibras que possam permitir o reprocessamento total, gerando novos têxteis, com novas cores ou aplicações.
Outros exemplos:
O governo chinês está construindo diversas cidades utilizando o conceito do berço ao berço (C2C Model). Se a China fosse construir todas as novas cidades de acordo com a tecnologia convencional, provavelmente não existiria cimento nem tijolo, no mundo, suficiente para atender sua demanda.
A Nike já tem um sapato/tênis desenvolvido segundo o conceito C2C.
Algumas críticas que lí sobre o modelo:
Segunda minha última pesquisa na Internet, a MBDC, link abaixo, empresa do McDonough e Braungart, mantem exclusividade na certificação do modelo C2C.
O que por um lado restringe a expansão da acreditação e validação do sistema, por outro lado, na minha humilde opinião, mantém a credibilidade e confiabilidade em quem possuir o certificado.
Como sabemos, e é, hoje, um lugar-comum, dizer que qualidade não é mais um diferencial é uma condição básica para concorrer no mercado.
No entanto, isto retrata a realidade de que todos estão produzindo com qualidade?
Será um posicionamento de marketing?
Ou é porque a proliferação de certificados ISO 9000 por todo o mundo, nivelou por baixo o que realmente é qualidade? Me desculpem, quem “suou” para obter o certificado, mas tem muita gente que não “suou” tanto assim...
Anos atrás, escrevi sobre a proliferação de certificados 9000 (qualidade), 140000 (ambiental), aquela “confusão” toda com a Sarbanes-Oxley (a famosa SOX) para pôr ordem no mercado financeiro, o acordo de Basiléia II (bancos), e vejam no que deu em 2008, com a crise mundial financeira!
O que está faltando é ética, valores, transparência, responsabilidade e vontade de corrigir décadas de desvio dos valores morais e sociais, e educação e princípios básicos de convivência comunitária e respeitosa.
E, não existe certificado nenhum que vai concertar isso!
Referências:
Sobre o “Cradle to Cradle Design”:
http://en.wikipedia.org/wiki/Cradle_to_Cradle
http://www.mbdc.com/index.htm
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Autor
Mario Luis Tavares Ferreira
Lisboa - Portugal - Sao Paulo - Brasil
Profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado de tecnologia e em gestão de empresas e desenvolvimento de negócios. Desenvolveu atividades profissionais, negócios e parcerias em oito países. Cursou engenharia eletrônica e gestão de sistemas de informação. Especializou-se com um MBA executivo em gestão estratégica e extensões de pós-graduação em negociações, estratégia de empresas e gestão de pessoas.
Blog Português: http://empreendedorglobal.wordpress.com
Blog Inglês:
http://globalentrepreneurship.wordpress.com
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