È preciso superar a dicotomia entre “pensar” e “agir”?
Afinal, o mundo interdependente é um mundo cheio de novas idéias.“ Os analfabetos do século XXI, não são os que não sabem ler, mas sim, os que não sabem desaprender e reaprender de novo”.
Autoras: Nayara Nogueira Silva / E-mail: nayara.n.silva@ufv.br
Poliana Aparecida Gonçalves / E-mail: poliana.goncalves@ufv.br
O processo de emancipação pode ser entendido como a ação do próprio sujeito, onde o mesmo tem liberdade para escolher suas práticas, relacionamentos e comportamentos e por meio destas desenvolver - se. A autonomia dos alunos está intimamente ligada ao processo de emancipação, uma vez que é a partir da liberdade, que os mesmos enxergam as possibilidades de crescimento e desenvolvimento que surgem ao longo das atividades exercidas dentro da universidade, seja na busca do conhecimento, seja no mais simples contato com alunos de outros cursos ou períodos.
Paulo Freire em suas obras destaca a reflexão sobre os limites da educação, ressalta o fundamental papel que os indivíduos possuem e a responsabilidade de assumi-lo de forma correta, na construção de uma sociedade mais democrática e humana. A universidade tem como função produzir o aprendizado, ou seja, oferecer aos alunos um ambiente que seja propicio ao crescimento, ao processo de emancipação e a formação de seres autônomos e preparados para lidar com diversas situações, seja do contexto em que estão inseridos, seja do contexto profissional que irão se inserir. Desse modo Freire identifica que o projeto de emancipação humana só será consolidado na sociedade socialista. Neste contexto Freire possibilita-nos vislumbrar novas experiências socialistas, de modo que transcenda o modelo negativo do socialismo soviético, que reconhecia a miséria, injustiça e opressão, como condições materiais para a emancipação.
O discurso contra a utopia socialista – o discurso liberal ou neoliberal – necessariamente e obviamente enaltece o avanço do capitalismo. Eu me recuso a pensar que se acabou o sonho socialista porque constato que as condições materiais e sociais que exigiram esse sonho estão aí. Estão aí a miséria, a injustiça e a opressão. E isso o capitalismo não resolve a não ser para uma minoria. Eu acho que nunca, nunca na nossa História, o sonho socialista foi tão visível, tão palpável e tão necessário quanto hoje, embora, talvez, de muito mais difícil concretização. (FREIRE, 2001, p. 209).
Desse modo, o processo de emancipação humana não se constituirá por quaisquer eventualidades ou permissões, mas se constituirá através de uma conquista realizada pela práxis humana, se tornando fruto de uma luta interrupta. Luta esta que se dará entre os opressores e oprimidos, de forma que o processo de emancipação humana contempla a humanização de ambos. A liberdade é requisito imprescindível na busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos... "A libertação, por isto, é um parto [...] O homem que nasce deste parto é um homem novo que só é viável na e pela superação da contradição opressores-oprimidos, que é a libertação de todos" (FREIRE, 1991, p.35).
A desumanização, que não se verifica apenas nos que têm sua humanidade roubada, mas também, ainda que de forma diferente, nos que a roubam, é distorção da vocação do ser mais... Na verdade, se admitíssemos que a desumanização é vocação histórica dos homens, nada mais teríamos que fazer, a não ser adotar uma atitude cínica ou de total desespero. A luta pela humanização, pelo trabalho livre, pela desalienação, pela afirmação dos homens como pessoas, como "seres para si", não teria significação. Esta somente é possível porque a desumanização, mesmo que um fato concreto na história, não é, porém, destino dado, mas resultado de uma "ordem" injusta que gera a violência dos opressores e esta, o ser menos. (FREIRE, 1987, p.30).
Nesta perspectiva, a emancipação para Freire é apropriar-se e experimentar o poder de pronunciar o mundo, a vivência da condição humana de ser protagonista de sua história. Freire nos apresenta um projeto de educação popular que almeja a libertação, humanização e emancipação humana. De modo que a emancipação constitui em um processo cotidiano e histórico, rodeado de desafios, sonhos, utopias, resistências e possibilidades, em que o homem regido pela liberdade busca constantemente espaços de autonomia. "Vocacionado à Liberdade, o ser humano busca responder através de sua disposição de cavar, sem cessar, espaços de autonomia, em vista de um renovado compromisso com a causa emancipatória, seja no plano pessoal, seja no âmbito coletivo" (CALADO, 2001, p. 55).
A partir desta perspectiva de Freire, podemos considerar que o processo de emancipação dos alunos se dá independente do contexto histórico ou cultural em que estão inseridos; basta cada um identificar que são seres livres e autônomos, capazes de se autodesenvolverem de ampliar suas relações com outros, originando assim um processo de interdependência, onde há trocas e crescimento para ambos os lados. A própria relação deles com seus pais, amigos, a convivência com variados tipos de pessoas dentro do ambiente universitário, proporciona a eles tal crescimento.
A relação de interdependência se estabelece com a convivência com outra pessoa, é o fato de precisarmos do outro constantemente em nossas ações. Um profissional depende de outro, por exemplo, um profissional de marketing, precisa no mínimo de um designer e de um redator para sua campanha. A relação de interdependência estabelecida entre estudantes por um lado dependem dos professores para chegarem a se tornarem profissional, por outro lado, o professor depende do aluno para que possa exercer sua profissão.
De acordo com Dalai Lama( 2000):
"As coisas ocorrem de três maneiras diferentes. Num primeiro nível, recorre-se ao princípio de causa e efeito, pelo qual todas as coisas e acontecimentos surgem dependendo de uma complexa rede de causas e condições relacionadas entre si. Sendo assim, nada nem nenhum acontecimento podem vir a existir ou permanecer existindo por si só. Ele tem uma origem dependente, sua criação está subordinada a essas causas e condições. Num segundo nível, a interdependência pode ser compreendida em termos da mútua dependência que existe entre as partes e o todo. Sem as partes, não pode haver o todo e, sem o todo, o conceito de parte não tem sentido. A idéia de todo implica partes, mas cada uma dessas partes precisa ser considerada como um todo composto de suas próprias partes.No terceiro nível, pode-se dizer que todos os fenômenos têm uma origem dependente porque, quando os analisamos, verificamos que, em essência, eles não possuem uma identidade".
Este questionamento propõe reconhecer que os seres humanos precisam um do outro em nossa rotina por questão de sobrevivência.
"As sociedades contemporâneas, a despeito de suas diversidades e tensões internas e externas, estão articuladas numa sociedade global. Uma sociedade global no sentido de que compreende relações, processos e estruturas sociais, econômicas, políticas e culturais, ainda que operando de modo desigual e contraditório. Nesse contexto, as formas regionais e nacionais evidentemente continuam a subsistir e atuar [...] Mas o que começa a predominar, a apresentar-se como uma determinação constitutiva, é a sociedade global, a totalidade na qual , pouco a pouco, tudo o mais começa a parecer parte, segmento, elo, momento (IANNI, 1992)".
Reconhecer que somos dependentes não é fácil, pois é neste momento que mudamos nossos pensamentos passando a tratar as diferenças pessoais como aprendizado da vida. O fato de relacionarmos com outras pessoas resultam em conhecer novos jeitos de ver a vida, culturas e historias de vida diferenças, tudo isso implica em aprendizado através da convivência com o outro em um período de tempo. Os estudantes de administração precisam ter a consciência que há varias formas de ver o mundo, que nosso modo de ver o mundo precisa estar aberto para conhecimentos, como diz a música da Pitty, "são outros rostos e outras vozes interagindo e modificando você".
Diante dessas contribuições sobre a emancipação, resta a Universidade, em especial, o campo da Extensão, a construção de uma prática que possibilite aos estudantes e os sujeitos sociais a vivência da autonomia, a participação na tomada de decisões e a produção de um trabalho coletivo, numa atitude ousada de enfrentamento da hegemonia das forças de regulação (Santos, 2003).
O desafio é compreender e desvendar as relações sociais do contexto universitário, de modo a proporcionar crescimento aos alunos para que estejam aptos a uma atuação autônoma e consistente de forma a manter-se em contínuo processo de emancipação e interdependência.
Referencia Bibliografica
LAMA, Dalai. Uma Ética para o Novo Milênio. Traduzido por Maria Luiza Newlands.Rio de Janeiro: Sextante, 2000. Pág. 47-51.
KEOHNE, Robert O. ; NYE, Joseph S. Poder e interdependência. La política mundial en transición. Buenos Aires: GEL, 1988.
IANNI, Octavio. A sociedade global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
FREIRE, Paulo. Educação com prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2007. 30ª edição. (Org.) Pedagogia dos sonhos possíveis/ Paulo Freire. São Paulo: Editora UNESP, 2001.
_______. Direitos humanos e educação libertadora. In: FREIRE, Ana Maria Araújo
_______. Pedagogia do oprimido. 17 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
_______. Pedagogia do oprimido. 19 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.
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