Esta crise financeira nos países "ricos" foi diferente
O economista californiano Gary Dymski explica porque o pânico financeiro e a grande recessão dos dois últimos anos nos países “ricos” são distintos das grandes crises financeiras do século XX. Há a tendência para comparar com os pânicos de 1907 e 1929/1932 e procurar aprender com as políticas e reformas ensaiadas nessas alturas e com os erros diagnosticados sobre esse passado. Mas esta a crise de 2007/2009 tem ingredientes novos. O entrevistado sugere que os governantes e os banqueiros centrais entendam as novas realidades da vaga de financeirização que passou a dominar a dinâmica financeira e económica a partir dos anos 1980.
O ecossistema que se criou é bem mais complexo, diz Gary Dymski, professor de Economia na Universidade da Califórnia, em Riverside, onde foi director do centro universitário. Dymski já leccionou em São Paulo e no Rio de Janeiro e é casado com a economista brasileira Susana de Paula, com quem já publicou livros, um dos quais com o título sugestivo de “Re-imaginar o crescimento”.
Explosivo debaixo do tapete
O pior que os economistas, os banqueiros centrais e os políticos podem fazer hoje é ignorar as novas realidades do ecossistema financeiro e, como dizia ironicamente Benoit Mandelbrot, o “pai” dos fractais, “esconder o explosivo debaixo do tapete”.
Desvendar esse novo ecossistema foi o ponto de investigação de Dymski que verificou que o modelo de compreensão do sistema financeiro está obsoleto. Num artigo sobre os resultados da sua investigação, publicado recentemente no ‘Cambridge Journal of Economics’, ele refere que os bancos não são mais as entidades com maior alavancagem no sistema e que inclusive não estão mais no ponto fulcral dessa dinâmica de financeirização.
Estrutura financeira em “partículas”
“O capital financeiro não se tornou só dominante, nem só os ganhos financeiros se tornaram dominantes nos fluxos de rendimento nacionais. Para perceber a dinâmica desta crise e as possibilidades para a dinâmica capitalista pós-crise temos de dar atenção à dinâmica “interna” do sistema financeiro”, sublinha-nos o professor em entrevista (que pode ser lida aqui, na íntegra, em inglês).
O que aconteceu é que um ecossistema de intermediários financeiros conseguiu adaptar-se estrategicamente aos choques nos últimos vinte anos identificando uma cadeia de valor globalizada de rendas financeiras baseada no que já foi designada por estrutura financeira em “partículas” (particle finance, uma expressão cunhada por Charles Sanford, presidente do Bankers Trust, em 1993), ou seja, que pode ser “cortada” como uma morcela em pequeníssimas fatias, “partículas”, com dinâmica própria, gerando um sem fim de transacções.
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Jorge Nascimento Rodrigues, português, nascido em 1952, editor na área de management, tecnologia, macroeconomia, geopolítica e história económica. Fundador e editor na Web de www.janelanaweb.com e www.gurusonline.tv. Bloguer em http://geoscopio.tv. Colaborador do semanário português Expresso desde 1983. Coordenador da Revista Portuguesa e Brasileira de Gestão (Indeg, Lisboa, e Fundação Getúlio Vargas,Rio de Janeiro). Coordenador Executivo da Editora Centro Atlântico. Autor. Pode ser contactado pelos emails: jnr@groupadventus.com e jnr@mail.telepac.pt
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Ilustração: Jorge visto pelo traço de Paulo Buchinho, um dos ilustradores portugueses de renome internacional. Pode ser contactado através do seu portal www.paulobuchinho.com.







