09 de março de 2010, às 09h02min

Esta crise financeira nos países "ricos" foi diferente

O economista californiano Gary Dymski explica porque o pânico financeiro e a grande recessão dos dois últimos anos nos países “ricos” são distintos das grandes crises financeiras do século XX. Há a tendência para comparar com os pânicos de 1907 e 1929/1932 e procurar aprender com as políticas e reformas ensaiadas nessas alturas e com os erros diagnosticados sobre esse passado. Mas esta a crise de 2007/2009 tem ingredientes novos. O entrevistado sugere que os governantes e os banqueiros centrais entendam as novas realidades da vaga de financeirização que passou a dominar a dinâmica financeira e económica a partir dos anos 1980.

Por Jorge Nascimento Rodrigues
 
 A crise financeira que vivemos nos países "ricos" (G7 e OCDE) desde meados de 2007 não trouxe só para a ribalta mediática palavrões financeiros como o subprime ou os credit default swaps. Revelou que o sistema financeiro não era mais o que se julgava há anos atrás. Este sofreu uma profunda transformação a partir dos anos 1980 que não se esgota na ideia de que há uma “sistema bancário sombra” desregulado.

 

O ecossistema que se criou é bem mais complexo, diz Gary Dymski, professor de Economia na Universidade da Califórnia, em Riverside, onde foi director do centro universitário. Dymski já leccionou em São Paulo e no Rio de Janeiro e é casado com a economista brasileira Susana de Paula, com quem já publicou livros, um dos quais com o título sugestivo de “Re-imaginar o crescimento”.

Explosivo debaixo do tapete

 

O pior que os economistas, os banqueiros centrais e os políticos podem fazer hoje é ignorar as novas realidades do ecossistema financeiro e, como dizia ironicamente Benoit Mandelbrot, o “pai” dos fractais, “esconder o explosivo debaixo do tapete”.

 

Desvendar esse novo ecossistema foi o ponto de investigação de Dymski que verificou que o modelo de compreensão do sistema financeiro está obsoleto. Num artigo sobre os resultados da sua investigação, publicado recentemente no ‘Cambridge Journal of Economics’, ele refere que os bancos não são mais as entidades com maior alavancagem no sistema e que inclusive não estão mais no ponto fulcral dessa dinâmica de financeirização.

 

Estrutura financeira em “partículas”

 

“O capital financeiro não se tornou só dominante, nem só os ganhos financeiros se tornaram dominantes nos fluxos de rendimento nacionais. Para perceber a dinâmica desta crise e as possibilidades para a dinâmica capitalista pós-crise temos de dar atenção à dinâmica “interna” do sistema financeiro”, sublinha-nos o professor em entrevista (que pode ser lida aqui, na íntegra, em inglês).

 

O que aconteceu é que um ecossistema de intermediários financeiros conseguiu adaptar-se estrategicamente aos choques nos últimos vinte anos identificando uma cadeia de valor globalizada de rendas financeiras baseada no que já foi designada por estrutura financeira em “partículas” (particle finance, uma expressão cunhada por Charles Sanford, presidente do Bankers Trust, em 1993), ou seja, que pode ser “cortada” como uma morcela em pequeníssimas fatias, “partículas”, com dinâmica própria, gerando um sem fim de transacções.
 
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/esta-crise-financeira-nos-paises-ricos-foi-diferente/43077/