05 de fevereiro de 2009, às 17h57min
Ética em compras
Ética em Compras
Escrito por Cezar Sucupira
sucupira@cezarsucupira.com.br
Janeiro de 2009
sucupira@cezarsucupira.com.br
Janeiro de 2009
1 – Introdução:
O tema ética possui inúmeras teorias desenvolvidas desde a época dos grandes filósofos da antiguidade grega, mas no presente artigo vamos nos ater aos aspectos da ética que estão relacionados com a função do negociador nas empresas e seus relacionamentos internos e externos, estes com o mercado fornecedor.No atual ambiente de globalização cada vez mais aprofundada, temos de observar que muitos aspectos que envolvem os relacionamentos intra e entre empresas podem ter diferentes conotações e gravidades. Países são mais ou menos sensíveis a aspectos de presentes e recepções; toleram ou não subornos em negócios; discriminam disfarçadamente ou explicitamente minorias como mulheres, deficientes, pobres, outras raças, etc.; permitem ou não ambientes de trabalho insalubres e inseguros; punem rigorosamente ou fecham os olhos para problemas ambientais causados pelas operações empresariais.
Cabe aos administradores a decisão de como sua empresa deve se comportar em cada lugar; podemos “dançar conforme a música” e aproveitar os costumes dos lugares onde estamos instalados e que nos favoreçam ou podemos fazer de nossa presença um “posto de fronteira” que marque o território de nossas relações com a comunidade de uma forma ética, sempre aceitando e praticando as atitudes “boas”, não aceitando as atitudes “más”, a verdadeira e única dicotomia da ética..
Como lembra o código de ética do Conselho Brasileiro dos Executivos de Compras, “não basta ser ético e honesto, é essencial parecer como tal. Devem ser evitadas situações, ações e comunicações que possam ser percebidas como comportamento impróprio ou aético visto que as conseqüências disso poderão causar dano à imagem do profissional de compras como se, realmente, tivessem ocorrido.”
2 – Uma definição de ética:
Gosto muito da idéia de comparação da ética com a consciência do ser humano. Nesta visão, podemos dizer que todos têm perfeita consciência do que é bom ou mau, do que é certo ou errado, do que tem valor ou não tem valor.
Em nossas relações cotidianas, sejam pessoais ou profissionais, sempre sabemos quando estamos tentando obter vantagens indevidas ou tomando atitudes injustas. Nossa consciência “grita” em face de nossas atitudes negativas e se soubermos atender a tais “gritos”, trilharemos sempre o caminho da ética.
Não acredito que aspectos sociais, religiosos, geográficos ou econômicos gerem diferentes éticas, quando muito podem gerar diferentes condutas morais. Para o leitor que estiver interessado em conhecer em maior profundidade as diversas escolas filosóficas que tratam da discussão das interações entre ética e moral, recomendo lerem o livro do Herbert Lowe Stukart – Ética e Corrupção – publicado pela Editora Nobel.
3 – Código de ética em compras:
No intuito de estabelecer um conjunto de procedimentos éticos para serem observados pelos negociadores profissionais, é importante que as empresas desenvolvam um código de ética interno que leve em consideração, entre outros, os seguintes temas:
• Integridade pessoal dentro e fora da empresa
• Competência pessoal
• Cumprimento das legislações que afetam os negócios
• Conflito de interesses
• Manifestações de hospitalidade e presentes
• Confidencialidade de informações empresariais
• Comportamento ético nas negociações
• Ecoeficiência
• Responsabilidade social
• Competência pessoal
• Cumprimento das legislações que afetam os negócios
• Conflito de interesses
• Manifestações de hospitalidade e presentes
• Confidencialidade de informações empresariais
• Comportamento ético nas negociações
• Ecoeficiência
• Responsabilidade social
3.1 Integridade pessoal dentro e fora da empresa
Todo negociador deve possuir um comportamento moral ilibado, tanto no ambiente de trabalho quanto no seu ambiente social fora da empresa. Sua boa reputação pessoal é o primeiro requisito para o reconhecimento pelos fornecedores de sua seriedade nos negócios, dificultando assim, quaisquer possibilidades de proposições indevidas por parte destes.
Compradores profissionais são proibidos de utilizar em benefício próprio oportunidades comerciais que tenham tomado conhecimento em razão do seu cargo, tais como a compra de objetos e serviços para si com condições comerciais vantajosas junto aos fornecedores com os quais tenha negociado em função de seu cargo.
3.2 Competência pessoal
Todo negociador possui influência direta na lucratividade da empresa onde trabalha. Desta forma, ele precisa estar excelentemente preparado nos diversos aspectos que envolvem os produtos que negocia e nos comportamentos necessários para levar a bom termo as negociações sob sua responsabilidade.
Esta busca de competência deve ser incentivada pela empresa através de mecanismos formais de treinamento e educação, mas, o interesse pessoal do negociador em buscar meios de alavancar seus conhecimentos é primordial para seu progresso e desempenho funcional.
3.3 Cumprimento das legislações que afetam os negócios
Cumprir as diversas legislações e regras de negócio são inerentes ao exercício da cidadania. O comprador profissional deve pugnar para que tais regras sejam respeitadas mesmo em situações em que seu empregador as descumpra. Em tais casos ele deverá levar o assunto ao conhecimento de seus superiores tentando colocar a empresa no restrito caminho da lei. Caso não seja atendido, deve, silenciosamente, começar a procurar outra empresa para trabalhar.
3.4 Conflito de interesses
Toda vez que o negociador perceber que seus interesses pessoais poderão conflitar ou possam ser vistos como possíveis de afetar sua imparcialidade no decorrer da atividade negocial, ele deve informar sua supervisão para que esta julgue sobre o eventual conflito de interesses.
Esta situação pode ocorrer em casos em que o negociador é acionista de empresa que está concorrendo a uma aquisição por ele negociada, ou quando uma concorrente seja de propriedade ou administrada por amigo ou parente pessoal.
3.5 Manifestações de hospitalidade e presentes
Conforme citado pelo antropólogo Roberto da Matta, a palavra gift na língua germânica tem dois significados. Pode ser um presente, como no alemão arcaico, ou também pode significar veneno, peçonha, na versão moderna da língua.
O sufixo gift ainda está presente na palavra mitgift que significa “dote”, aquilo que a família da noiva paga para que o noivo case com sua filha. Estonteante verdade este duplo significado! Lembrem-se do Cavalo de Tróia que da aparência de um presente, se transmutou em fatal arma de guerra.
Não tenho dúvidas de que a aceitação de presentes ou brindes, de qualquer natureza e qualquer valor, por parte de compradores profissionais, é um ato peçonhento; é a aceitação do dote que a “família do fornecedor” paga para que o comprador se “case” com seus produtos.
Acho ainda uma atitude de grande hipocrisia a idéia de muitas empresas em definir limites monetários para o recebimento de tais favores. Ora, veneno é veneno, em doses pequenas pode até não matar, mas algum mal poderá causar. Aqui podemos citar a frase atribuída ao grande filósofo alemão Nietzsche que muito escreveu sobre os princípios da moral e ética: - “Todo homem tem seu preço, diz a frase. Não é verdade. Mas para cada homem existe uma isca que ele não consegue deixar de morder."
Empresas que estabelecem tais valores “aceitáveis” esquecem que a consciência humana é extremamente elástica; o valor que uma pessoa atribui a um presente pode ser totalmente diferente daquele percebido por uma outra pessoa.
Caso ainda pior são as empresas que proíbem seus compradores de receberem presentes, mas em suas áreas de venda possuem elásticas verbas para presentear clientes ou futuros clientes... .
Nas manifestações de hospitalidade como convites para “almoços de negócio”, a boa prática é que o comprador pague suas despesas normalmente, não aceitando que os fornecedores as paguem sozinhos.
Em caso de eventos como feiras, simpósios, congressos e atividades similares proporcionadas por fornecedores e que normalmente são realizadas para lançamento de produtos, a freqüência, dimensão e facilidades colocadas para o convidado devem ser observadas com cuidado para que não sejam excessivas e venham a exercer impacto na cooptação do comprador pelo excessos de “bondades”.
3.6 Confidencialidade de informações empresariais
O tema da confidencialidade de informações possui duas vertentes; a relativa às informações da empresa do comprador e a relativa às dos fornecedores com os quais ele mantiver negociações.
3.6.1 Informações da empresa:
Por força de sua atuação profissional, o comprador toma conhecimento de muitos dados de sua empresa e, alguns, particularmente de grande necessidade de sigilo por implicações com o ambiente da competição.
São por exemplo, informações sobre novos produtos, campanhas promocionais, matrizes de custo, patentes em registro, capacidades de produção, volumes de venda, etc..
Em seus relacionamentos e contratações com fornecedores, o comprador deve ater-se a comentários exclusivamente sobre as informações relativas aos objetos em negociação e, caso seja necessário o fornecimento de informações consideradas sigilosas aos fornecedores, deve obter dos mesmos, por escrito, declaração de manutenção do sigilo sobre as mesmas.
Os compradores devem deixar claro em seus contratos com fornecedores que estes não poderão, salvo após autorização escrita e expressa, utilizar em suas peças promocionais o nome ou marcas da empresa contratante.
3.6.2 Informações dos fornecedores
Por sua função, o comprador toma conhecimento de informações dos fornecedores sobre preços, capacidades, condições comerciais, aspectos societários e cadastrais, etc..
Tais informações devem ser utilizadas exclusivamente para o processo negocial com seu fornecedor, não devendo nunca ser divulgadas para terceiras partes, não importando se para obter vantagens em negociações com terceiros ou não.
3.7 Comportamento ético nas negociações
Existem vários aspectos que devem ser respeitados durante uma negociação. Não se podem usar todos os tipos de instrumentos e informações para tentar alcançar os melhores resultados em uma negociação. Não podemos ser como o gângster ítalo americano Al Capone que disse: -"Podes obter muito mais com boas palavras e um revólver do que com boas palavras somente".
Mentir sobre volumes de necessidades para com isso obter preços menores é uma atitude desonesta com seu fornecedor. Ele estará se baseando em uma promessa de compra que no futuro não se realizará e então, deixará de confiar em suas colocações.
Deixar de mencionar aspectos de projeto, conhecidos pelo comprador, que no futuro impactarão os custos ou o nível de serviço do fornecedor é adiar futuros conflitos pela não informação de fato relevante. Omissão deliberada também é atentar contra a ética.
Outro aspecto importante é observar a boa prática de só negociar com o ganhador de uma concorrência. Negociar com segundos ou terceiros colocados é atitude que depõe contra a imagem do comprador e da empresa, gerando sempre desconfiança por parte dos fornecedores pela falta de respeito com suas propostas.
Considera-se que as negociações de itens de consumo frequente devem ser feitas com a intenção de manter tais contratos por períodos o mais longo possíveis, procurando-se formar parcerias, mantendo-se semprte o cuidado de auditar periodicamente se as condições de fornecimento se mantém competitivas ao longo do tempo. Tais negociações devem ser conduzidas dentro dos princípios “ganha-ganha”, assegurando-se o equilíbrio financeiro dos contratos para ambas as partes.
Negociações de itens de consumo esporádico não necessitam ser realizadas dentro do princípio da futura parceria. Tais contratações devem ser realizadas buscando-se o preço mais favorável para o comprador, dentro das especificações. Neste tipo de aquisição o conceito “ganha-ganha” não se aplica ao processo de negociação.
A reciprocidade nos negócios que limitar a competitividade e a própria atuação do profissional de compras deve ser evitada. Em sendo a reciprocidade o resultado de orientação superior, esta condição deverá ser documentada no processo de compra.
Os profissionais de compras estão em permanente contato com fornecedores , através de visitas, ou através de reuniões de negociação, como forma de se manterem atualizados com o mercado ou no desempenho de suas atribuições normais. Estes contatos deverão ser realizados sempre com a participação mínima de dois funcionários da empresa da qual são funcionários.
3.8 Ecoeficiência
Não se pode mais deixar de considerar como um problema ético a preocupação com os aspectos que envolvem nossas atitudes em relação ao meio ambiente. A meta é produzir com mais valor e menos impacto! O profissional de compras deve estar atento para que seus fornecedores tenham processos produtivos que:
• Reduzam a intensidade de uso de materiais;
• Reduzam a intensidade de uso de energias;
• Reduzam a dispersão de substâncias tóxicas;
• Aumentem a reciclabilidade e reusabilidade dos componentes e mesmo dos produtos finais;
• Otimizem o uso de materiais não renováveis;
• Prolonguem o ciclo de vida dos produtos;
• Aumentem a intensidade de serviços prestados pelo produto.
• Reduzam a intensidade de uso de energias;
• Reduzam a dispersão de substâncias tóxicas;
• Aumentem a reciclabilidade e reusabilidade dos componentes e mesmo dos produtos finais;
• Otimizem o uso de materiais não renováveis;
• Prolonguem o ciclo de vida dos produtos;
• Aumentem a intensidade de serviços prestados pelo produto.
3.9 Responsabilidade social
Na atividade de compras, profissionais da área têm grande influência em fazer com que seus fornecedores adotem posturas de responsabilidade social importantes. Ao elaborar contratos de fornecimento com seus fornecedores, devemos deixar claro que não toleraremos:
• Que os fornecedores contratem funcionários abaixo dos limites de idade ou sujeitos a trabalhos inadequados com sua idade, como estabelecidos pela legislação do país
• Que os fornecedores mantenham seus funcionários em situações de baixo nível de segurança, higiene ou em condições de restrição de liberdade.
• Que os fornecedores pratiquem discriminação na contratação de seu pessoal, como de sexo, raça, religião, opção sexual, idade, convicção filosófica, estado civil, deficiências físicas, etc..
NOTA: Caso algum leitor deseje contestar aspectos do presente artigo, não hesite em escrever para sucupira@cezarsucupira.com.br Terei prazer em discutir diferentes visões sobre o tema.
• Que os fornecedores mantenham seus funcionários em situações de baixo nível de segurança, higiene ou em condições de restrição de liberdade.
• Que os fornecedores pratiquem discriminação na contratação de seu pessoal, como de sexo, raça, religião, opção sexual, idade, convicção filosófica, estado civil, deficiências físicas, etc..
NOTA: Caso algum leitor deseje contestar aspectos do presente artigo, não hesite em escrever para sucupira@cezarsucupira.com.br Terei prazer em discutir diferentes visões sobre o tema.
Curta o Administradores no Facebook e siga os nossos posts no @admnews.
As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.
Assuntos
Autor
Diretor da Cezar Sucupira Educação e Consultoria Ltda., fundada em 1985 que já executou mais de 110 grandes projetos de consultoria e treinou mais de 27.000 executivos.
Mestre em Sistemas de Gestão pela Universidade Federal Fluminense – UFF, Administrador de empresas pelas Faculadades Integradas Bennett, com diversos cursos de especialização na área de administração de material e manufatura feitos no Brasil e nos Estados Unidos (Oliver Wight). Tem 45 anos de experiência profissional em Logística, Planejamento Estratégico e Consultoria Empresarial. É certificado em planejamento de materiais e produção pela American Production and Inventory Control Society (APICS), dos EUA.
Foi membro do Conselho Regional da Associação Brasileira de Administração de Material – ABAM da qual foi Presidente em âmbito regional e Diretor Executivo em âmbito nacional.
É, atualmente, professor de Logística em diversos cursos da Fundação Getúlio Vargas/RJ, da UFF – Universidade Federal Fluminense, do INT – Instituto Nacional de Tecnologia, UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora, IDHGE do CEFET, Programa PROGREDIR do CREA, CDE – Centro de Administração e Desenvolvimento Empresarial do SENAC.
É autor de vários artigos já publicados em jornais e revistas de expressão regional e nacional, sendo o pioneiro no Brasil na divulgação da tecnologia MRPII/ERP, base dos Sistemas de Gestão Empresarial.
Mestre em Sistemas de Gestão pela Universidade Federal Fluminense – UFF, Administrador de empresas pelas Faculadades Integradas Bennett, com diversos cursos de especialização na área de administração de material e manufatura feitos no Brasil e nos Estados Unidos (Oliver Wight). Tem 45 anos de experiência profissional em Logística, Planejamento Estratégico e Consultoria Empresarial. É certificado em planejamento de materiais e produção pela American Production and Inventory Control Society (APICS), dos EUA.
Foi membro do Conselho Regional da Associação Brasileira de Administração de Material – ABAM da qual foi Presidente em âmbito regional e Diretor Executivo em âmbito nacional.
É, atualmente, professor de Logística em diversos cursos da Fundação Getúlio Vargas/RJ, da UFF – Universidade Federal Fluminense, do INT – Instituto Nacional de Tecnologia, UFJF – Universidade Federal de Juiz de Fora, IDHGE do CEFET, Programa PROGREDIR do CREA, CDE – Centro de Administração e Desenvolvimento Empresarial do SENAC.
É autor de vários artigos já publicados em jornais e revistas de expressão regional e nacional, sendo o pioneiro no Brasil na divulgação da tecnologia MRPII/ERP, base dos Sistemas de Gestão Empresarial.
Mais do autor
Deixe seu comentário







