26 de dezembro de 2006, às 21h02min

Faça o que mando, fale o que falo: as dicotomias entre o discurso e a prática dentro das o

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Por: Orlando Rodrigues

“Qualidade total”, “Respeito ao cliente”, “Valorização dos recursos humanos”, “Melhor empresa para se trabalhar”, “Ética”, “Responsabilidade social”, entre outros, são termos e frases que fazem parte do dia das empresas, independentemente de seu porte, nesses tempos de grandes mudanças. Por certo, nas grandes empresas, eles são muito mais utilizados do que nas pequenas e microempresas, devido à competitividade acirrada que enfrentam nos seus respectivos nichos de mercado. Este texto nada mais é que uma reflexão sobre como tais termos vem sendo utilizados de modo banalizado dentro das empresas, a ponto de perderem o sentido real de seu significado, sem a pretensão de polemizar sobre o assunto. Contudo, meus vinte e oito anos de trabalho assalariado me permitiram enxergar as empresas sob um olhar crítico. Minha formação acadêmica em administração de empresas, meu trabalho como professor universitário e, principalmente, o questionamento de meus alunos, aguçaram ainda mais minha percepção crítica da realidade organizacional. Em dezesseis anos atuando como professor, oito deles dedicados ao ensino de administração, tive a oportunidade de ouvir os questionamentos mais diversos sobre a aplicabilidade de pressupostos, teorias, modelos e modismos da administração. Refletindo sobre o cotidiano das empresas, a partir das dúvidas suscitadas pelos meus alunos, comecei a pensar que existe um “buraco negro” (termo da moda) entre os discursos organizacionais sobre programas de qualidade, ética, políticas de valorização de recursos humanos, responsabilidade social, etc., e o dia a dia das empresas, na busca desenfreada por resultados e melhor participação no mercado. É evidente que qualquer afirmação de senso comum poderia parecer invencionice, mas arrisco a dizer que há uma possibilidade grande das empresas estarem perdendo dinheiro aos milhares, simplesmente por adotarem modelos organizacionais, baseando-se puramente em modismos ou necessidade de mudança, ou ainda, competitividade, sem que tais modelos sejam de fato internalizados dentro das organizações. Internalizar tais modelos significa dizer que todos dentro das organizações devem compartilhar de fato os objetivos propostos pela empresa, desde o faxineiro até o presidente, realizando tais objetivos na prática. Ouvi várias vezes de alunos incrédulos que muitas teorias, programas e preceitos da administração só funcionam no papel e não nas empresas que trabalham. Ouvi, também, diversas vezes, relatos de alunos falando do sucesso de suas empresas ao implantarem programas e métodos de trabalho prescritos nos livros de administração. A razão do sucesso de algumas e da incredulidade gerada por outras, passa, em minha opinião, pela lealdade ao discurso, ou seja, a empresa, seus dirigentes e colaboradores devem ser absolutamente leais àquilo que propagam. De nada adianta, por exemplo, criar um código de ética na empresa, se valores como respeito, equidade e senso de justiça não são praticados em sua plenitude. De que servem os programas de qualidade, se a empresa não honra prazos ou atrasa na entrega de um produto. Se a propaganda é a alma do negócio, a credibilidade é o espírito. Existem bons e maus espíritos, pra não dizer assombração. Quantas vezes somos surpreendidos negativamente por promessas não cumpridas de políticos, empresários e patrões que, embora, conduzam seus discursos utilizando termos que gostaríamos de ouvir, nos traem com ações totalmente antagônicas àquilo que esperávamos. Como já disse Peter Drucker: “Não se pode gerir a mudança. Só se pode antecipá-la ou liderá-la. A mudança é coisa para empreendedores, não para gestores. O resto é conversa fiada”. Talvez seja oportuno que os gestores das organizações parem para pensar a respeito desse ensinamento e não se percam no emaranhado dos dicursos modernistas, sem nenhum efeito prático.

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Autor
Orlando Rodrigues é empregado de carreira da Caixa Economica Federal desde 1989. É Administrador de empresas, com especialização em Administração de Recursos Humanos. É mestre em ciências da educação pela Universidade Católica de Goiás e professor universitário. É escritor, consultor e palestrante.
 
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