Quando falamos de gerenciamento de riscos, geralmente, pensamos em profissionais da nossa empresa que olham por nós, pela nossa empresa. E esta, realmente, é a maior verdade – acontece na maioria dos casos. Será que isso é o suficiente? Será que nossos profissionais de gerenciamento de riscos não deveriam ir além? Olhar, também, por outras empresas? Diversas empresas, grandes, médias, pequenas e micros, precisam conhecer os riscos nos quais estão envolvidas para, então, poder mitigá-los. Mas será que estamos realmente conhecendo os riscos aos quais estamos expostos? Um dos maiores grupos do mundo, comandado pelo prestigiado Amancio Ortega, possui controles internos que beiram a perfeição. Análises de riscos, mitigação de riscos, excelente profissionais ao redor do mundo zelando pelos bens das empresas que compõem o grupo. Dentro dos seus próprios muros, a Zara é quase perfeita. Mas um dos maiores riscos estava fora e, seguindo a tradicional Lei de Edward Murphy – “se alguma coisa pode dar errada, certamente dará”. No Brasil a Zara foi surpreendida por um de seus fornecedores, que utilizava-se de mão-de-obra “escrava” para a produção de peças de vestuário. Este fornecedor não oferecia condições de trabalho adequadas aos seus funcionários, não se enquadrava nas legislações pertinentes. Mas ninguém lembra do nome deste fornecedor, mas sim, do nome da Zara. Mais recentemente a Sadia foi acusada, também, de trabalho “escravo”, pois um de seus fornecedores não dava condições ideais de trabalho aos seus funcionários. Mais uma vez, o nome do fornecedor não é lembrado, mas sim o nome do cliente, neste caso, a Sadia – uma das maiores empresas de alimentos do Brasil. A Nike, também, foi um exemplo desta falha ao analisar os riscos e ter uma visão por cima do muro. Resultado: produzia seus tênis com trabalho infantil em outros países. Também recentemente, a FoxCoon (produtora do iPad) sofreu um duro golpe de seus funcionários exigindo o pagamento de salários atrasados na China – caso contrário, realizariam um suicídio coletivo. Neste caso, foi a própria companhia a geradora do risco, mas sua imagem também ficou bastante prejudicada. Além de fornecedores e clientes, além dos nossos muros também estão: a sociedade, o governo, o meio ambiente, as leis etc. Nosso gerenciamento de risco deve levar em consideração, também, estas outras “entidades” acima. Podemos ter um ótimo gerenciamento de riscos com nossos clientes e fornecedores e, talvez, sofrer um golpe por não respeitar o meio ambiente. Num caso recente, a Chevron passou por uma situação constrangedora na costa brasileira, poluindo o Oceano Atlântico. Um problema técnico foi o responsável por tudo isso, assim como aconteceu com a BP no Golfo do México. Consultores e engenheiros terceirizados impactam diretamente na imagem da empresa. O impacto na imagem é surpreendentemente negativo quando alguma notícia desta natureza atinge uma empresa, por mais sólida que esta seja. Grande parte das empresas se preparara adequadamente para um efetivo gerenciamento de risco – mas, infelizmente, esta preparação se deu somente dentro dos seus próprios muros. Poucas empresas possuem políticas específicas para o conhecimento efetivo de seus clientes e fornecedores. Muitas se apegam em questões técnicas e comerciais (preços e prazos), mas não em questões corporativas. Hoje não é mais suficiente verificarmos se os sócios de um fornecedor nosso está com nome limpo ou não. Não basta obtermos as certidões negativas das empresas. Nossos profissionais de gerenciamento de riscos precisam ir além, precisam analisar os fornecedores e clientes mais a fundo, a fim de identificar possíveis problemas. Por que uma empresa grande, que compra de um fornecedor, corre o risco de ter seu nome sujo por um erro do fornecedor? É uma discussão parecida que temos em relação aos vendedores de produtos piratas – o comprador deste produto pode ser indiciado criminalmente, pois no fim das contas, só existem vendedores de produtos piratas por existirem compradores. Na mesma via, poderíamos nos arriscar a dizer que algumas empresas só não oferecem condições dignas de trabalho por pressão dos clientes, das empresas maiores. É uma longa discussão… Como fazer para evitar que o nome de nossa empresa seja alvo de críticas por causa de terceiros? Políticas simplistas seriam, por exemplo: – visitas físicas não programadas: como podemos saber se um cliente nosso não é uma empresa de fachada? Que em seu endereço, na verdade, não mora um caseiro que não sabe da existência daquela empresa? Como podemos saber que nossos fornecedores dão condições ideais de trabalho aos seus funcionários? Como podemos nos certificar que nossos fornecedores não utilizam-se de trabalho infantil? – análise de vendas e devoluções: como podemos saber que um cliente nosso, comprando a varejo, não quer “lavar dinherio”, comprando muitos itens pulverizados, realizando devoluções esporádicas etc.? – conhecimento dos sócios: como podemos saber que nosso cliente não é uma empresa de um criminoso? – os demais riscos como, por exemplo: competência e expertise técnica, prazos, preços etc., já são geralmente cobertos, como dissemos antes, pelas análises comerciais. – proteger o meio ambiente de seus produtos ou serviços – é importante a análise primária de “como nossa empresa poderia afetar, de alguma forma, o meio ambiente”. Parece ser uma discussão simples, mas é possível detectar diversos riscos quando fazemos um brainstorm com nossos funcionários a respeito deste tema, sejam eles de quaisquer setores dentro da empresa; – primar pelo bem estar da sociedade em que atua – mais uma discussão encorajada: “como nossos produtos, nossos serviços e nossa empresa pode contribuir para a sociedade em que atua”. – cumprir todas as leis aplicáveis – através de seu departamento legal, assegurar-se qeu todas as leis estão sendo cumpridas; – cumprir todas as exigências governamentais – através da análise legal e financeira dos respectivos departamentos. Tais políticas, ainda, não podem ser estáticas, ou seja, não adianta olharmos um único período e aceitarmos clientes e fornecedores – as análises precisam ser períodicas, pois as empresas são organismos em transformação e constante mudança. Diversos fatores pressionam as empresas para que estas mudem, e isso pode impactar nossa empresa em algum momento.