16 de janeiro de 2010, ās 15h45min

Inteligência coletiva ... utopia ou realidade?

Por Carlos Rodrigues
 
Esse artigo é o resumo de um diálogo construtivo mantido em um Fórum de Debates sobre Inteligência Coletiva.

Carlos Rodrigues e  Ana kitller

A) Introdução ao debate

-Trechos extraidos do livro Inteligência coletiva de Pierre Lévy:

" Observemos o comportamento de uma multidão. Uma multidão é menos inteligente do que um indivíduo dessa multidão. O fato de diversos indivíduos estarem reunidos não ajuda muito.

Há muitas formas de organização e o desafio é inventarmos todos juntos formas de organização que não sejam nem anárquicas – onde não haveria nenhuma forma de cooperação – nem demasiadamente rígidas, mas sim as que permitam otimizar a capacidade de invenção das pessoas, suas competências, suas experiências, suas memórias.

Se eu defendo o desenvolvimento de uma ciência da inteligência coletiva é porque estou certo que este é o melhor caminho para se chegar a uma cultura da inteligência coletiva, ou seja, com a constituição de uma vasta rede de pesquisas a perspectiva é avançar em direção a uma transformação cultural que caminhe nesse sentido.

Porque uma cultura não é definida por um pequeno grupo de dirigentes ou de pensadores, é algo que é partilhado pelo conjunto de uma população. Ela é produzida de forma espontânea por todas as pessoas que participam dessa cultura.

É algo que vai levar tempo, necessariamente, mas que depende de cada um de nós. Não devemos nos aborrecer pelo fato de ainda não estarmos em uma situação perfeita de inteligência coletiva. Cada um deve se perguntar o que pode fazer para propagar novas formas de fazer. E a resposta é: dar o exemplo.".


B) Questões para debate colocadas por Carlos Rodrigues

1) Quando as pessoas mantêm boas relações, relações frequentes, relações de confiança e dispõem de uma memória informacional, numerosa e bem organizada, podemos afirmar que elas estão em boas condições de inventar coisas novas e desenvolver sua competência pessoal. Você acredita realmente nisso? Reflita e explique-se...

2) Será que confiamos uns nos outros? Ou somos honestos e sinceros ou então passamos nosso tempo a imaginar estratagemas maquiavélicos para nos apunhalarrmos uns aos outros pelas costas.
 
Se nos encontramos no primeiro caso, podemos imaginar que a cooperação intelectual irá funcionar um pouco melhor.

Se praticamos o amor ao próximo será muito mais fácil cooperar, ter idéias juntos e melhorar nossa situação comum.

Mas se nós passamos nosso tempo a nos mentir, a trairmos nossa confiança, é provável que a cooperação intelectual não funcione muito bem. Esses pensamentos não te ocorreram ainda? Em ambientes virtuais, o que é mais preponderante: a omissão ou falta de cooperação intelectual ou a desconfiança que impera nesses ambientes?.

3) A Internet, por exemplo, nos permite estabelecer relações uns com os outros, trocar e-mails, participar de fóruns de discussão e chats que, eventualmente, terminam em encontros reais.

Esses novos meios de comunicação oferecem condições ao desenvolvimento do capital social. Oferecem condições, também, ao desenvolvimento do capital cultural, já que nunca houve tanta informação ou conhecimento que foi publicado “on line”.

Além disso, essas informações e conhecimentos têm “links”, hipertextos entre si.
 
O capital técnico oferece, pois, as condições de um aprimoramento do capital cultural.
 
...Ora se tudo é facilitado pelas novas tecnologias, porque para a maioria se estabelece o silêncio virtual?
 
O que fazer para sair momentanemante desta letargia?

C) Debates

 
C.1) Diretamente de Portugal, Ana kitller escreveu:

" Olá a todos,

Perante estas questões não posso ficar indiferente, como tal aqui vão as minhas respostas:

1. Tudo começa dentro de nós. Se conseguirmos desenvolver a nossa competência pessoal conseguimos manter boas relações, que não têm necessariamente de ser frequentes; se conseguirmos manter a nossa memória organizada e disponível para o que importa conseguimos que a nossa criatividade esteja sempre activa.

2. Quem faz parte deste espaço não está obrigado, portanto não considero que impere desconfiança. O que pode estar a acontecer são diferentes graus de envolvimento, motivados por razões que só cada um poderá explicar.

3. Somos seres humanos e como tal somos todos diferentes dentro das nossas igualdades.

Quando nos inscrevemos, de certo, que foi por uma grande vontade de aprender.

Existem diversas formas de aprender, diversos tipos de pessoas com diferentes formas de pensar. Algumas são mais analíticas, e têm de ver as coisas ponto a ponto.

Outras são mais sintéticas e têm de as ver de modo global, tendo necessidade de um quadro completo de informações para então serem capazes de estruturar o pensamento e elaborar uma síntese.

Para a grande maioria a temática é nova.

Muitos podem sentir que criaram demasiadas expectativas; muitos podem só gostar de ler; muitos podem não dispor de tempo para participar; muitos podem sentir-se intimidados perante o que é exposto pelos colegas; muitos podem ter vergonha de escrever o que pensam; muitos podem pensar que assim estão a colaborar…

Forçar a participação não acresce em nada… Todos são conscientes das suas atitudes. A pressão pouca adianta, participar por participar torna-se vazio, sem utilidade prática...

No entanto considero que a presença neste grupo deve ser repensada na medida em que só pode existir inteligência colectiva com colaboração, com participação, quem não se manifesta não faz parte do grupo (pelo menos deste) uma vez que só estão a receber e não estão a dar.

O saber de um é pouco mas o saber de muitos uns é muito!

Para isso todos tem e devem contribuir, afinal as ideias quanto mais são dividas, mais se multiplicam...

A Inteligência colectiva só poderá ser uma realidade perante grupos de alta maturidade.

Depois desta, venha dai a "pancada".

Fiquem bem."

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C.2) Ana kitller continuou escrevendo ...


A grande maioria das pessoas hoje em dia vive na solidão, apesar de cada vez mais termos acesso a novos canais de informação e espaços de convivio. Quem nunca ouviu a frase "Sózinho na multidão"? e por vezes pensou "Impossivel, na multidão ningúem está sózinho!", mas desenganem-se que esta solidão na multidão é real e está em crescimento.

Se os fenómenos como o Orkut têm tanta adesão e estão a proliferar são o reflexo disso mesmo.

Mas não só!...São também o reflexo do medo de se ser quem é; o reflexo da vontade de ser outra pessoa; o reflexo de más estruturas básicas; o reflexo de um conjunto de factores psicossociais que se encontram em desiquilíbrio e descompensados, por uma razão ou por outra.

As pessoas têm necessidade de falar, de conseguir comunicar. A questão da cultura não pode ser afastada de todo o processo na medida em que desde crianças o nosso desenvolvimento se dá envolto em cultura. O que não podemos é classificar a cultura como boa ou como má... é a cultura de cada um, que se reflete nas acções.

As comunidades de aprendizagem e de conhecimento não são dirigidas a todo o público. De todas as pessoas que mostram interesse em participar nestas comunidades apenas uma pequena percentagem se envolve verdadeiramente e contribui sendo um actor do processo, todas as restantes são meros espectadores em que alguns até assumem o papel de criticos não construtivos...

O bom funcionamento destas comunidades, na sua maioria, é devido aos objectivos que a elas estão inerentes e que levam ao compromisso dos participantes, sendo que actualmente, as pessoas agem segundo três razões: por obrigação; por dinheiro; e por gosto.

O meu discurso já vai longo, embora ainda tenha mais o que dizer, mas vou aguardar por novos comentários...

Fiquem bem.

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C3) De São Paulo, Carlos Rodrigues escreveu:

Prezados participantes de nossa comunidade,

Cada vez mais me convenço mais que aprendizagem colaborativa em rede em comunidades virtuais é uma caixinha de surpresas a ser muito estudada ainda.

Venho ha oito anos participando desses estudos em grupo e patrocinando cursos "on line".

Pude observar neste período que se as pessoas não adquirem uma postura compatível com um discurso ético e transparente de troca, de partilha e de doação, dá no que que dá ... muitas pessoas que entram em rede, em um grupo de estudo que não fazem gerar conhecimento e nem inovação.
 
Um usuário diante de um computador ligado o deixará conectado a informação, mas não necessariamente se gerará novos conhecimentos.

A internet é mais que um um mero meio de comunicação pois disponibiliza ferramentas de interatividade que possibilita, se existir interação entre as pessoas, a possibilidade de ser criar um inteligência coletiva, via a comunicação de muitos para muitos, em escala global
 
... e se essa interação entre as pessoas não se estabelece, nada acontece.

Um ambiente virtual de aprendizagem, como o Moodle , permite essa comunicação multidirecional de muitos para muitos entre receptores e emissores, em locais distintos e em horários diferentes ... mas sem a interação entre as pessoas nada acontece.

Tecnologia, por si só, não garante o sucesso de uma empreitada de estudo virtual ...
 
Um analfabeto olhando um jornal, similar a um telefone ocupado ou desligado da linha, bem como um programa na televisão brasileira em tcheco ... a tecnologia por si só não cumpre sua função.

Sem tecnologia, desde os tempos das cavernas, a humanidade discute e aprende coletivamente ( ... quando quer), portanto a inteligêncisa coletiva não é nenhuma novidade.

A grande novidade é a busca difícil da inteligência coletiva em rede, estimulada pela troca de informações não presenciais com grande velocidade, por um grupo de pessoas interessadas em um ambiente multidirecional com ferramentas de interatividade.

Se não se estabelecem conexões sociais, os laços citados por Pierre Lévy, e se não existem ações dirigidas, de nada adianta as pessoas se apropriarem de ferramentas interativas disponíveis nos ambientes de rede.

Só passará a existir possibilidade de aparecer e se desenvolver uma inteligência coletiva quando as pessoas em grupo compatilharem, se doarem, trocarem vivências e se aceitarem como iguais ... e você, o pensa a respeito? 

Em 05/2006 o Orkut possuia mais de 17 milhões de usuários e o Brasil contava com 13 milhões (71% do total). Podemos concluir então que a grande maioria dos brasileiros adoram somente papo furado, conversa descompromissada e descultura?
 
Quando se trata de de comunidades de aprendizagem, de prática ou de conhecimento específico, o tema para a maioria não cola e o assunto não rola?

e continuamos conversando ....

[  ]'s,

Carlos Rodrigues
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http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/inteligencia-coletiva-utopia-ou-realidade/37715/