20 de setembro de 2011, às 13h23min

Interdependência ou morte

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Chegou a hora da verdade na Europa. Como venho alertando nos dois últimos anos, o projeto da Zona do Euro, como inicialmente concebido, é insustentável.

A União Europeia nasceu com o objetivo de integrar diversos países, tornando-os mutuamente dependentes, reduzindo assim riscos de conflitos entre eles, inclusive bélicos.

Infelizmente, em seu formato atual, a coesão não é suficiente para atingir esta meta. Pelo contrário. Hoje, um mix de interdependência monetária e cambial e completa independência fiscal está exacerbando as tensões políticas entre os países da zona do euro.

Muito em breve, a Europa terá de decidir entre mais coesão, perda de autonomia nacional ou, o caminho oposto, revertendo seu projeto mais ambicioso e seu mais importante instrumento de integração, a moeda comum, com a saída de um ou vários países da zona do euro.

Mais integração exige a adoção de medidas politicamente impopulares tanto pelos países em situação financeira frágil, como pelos que atuariam como âncora da Europa unida.

Por um lado, Grécia, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália teriam que abrir mão de boa parte de sua soberania fiscal para a União Europeia. Quer um paralelo? Imagine que, em meio a uma crise no Brasil, fossem anunciados a criação de novos impostos, o aumento de idade de aposentadoria e o fechamento de hospitais por decisão do governo do Mercosul.

Por outro lado, a Alemanha teria que financiar uma enorme expansão dos recursos do fundo de resgate europeu e a criação de "bônus europeus" que transferem a todos os membros da zona do euro a responsabilidade pela dívida de cada um deles e aceitar a emissão de euros pelo Banco Central Europeu para compra de títulos de países em dificuldades – o que causará desvalorização da moeda e aceleração da inflação. Consegue imaginar o Brasil aceitando a volta da inflação para ajudar a Argentina ou se responsabilizando pela dívida do Paraguai?

A Europa terá de decidir se quer e se consegue avançar na integração. Sem isso, calotes soberanos e uma nova crise econômica global são inevitáveis. Ambas alternativas são difíceis e dolorosas. Não existe a opção do status quo.

Além de seus impactos sobre as perspectivas de crescimento global no próximo ano, a decisão europeia será fundamental para definir todo arcabouço da economia mundial na próxima década.

Se optar pela integração, para ter sucesso, a Europa terá de ser apoiada por organismos internacionais – cuja própria sobrevivência dependerá de sua capacidade de apoio e de cobrança de medidas duras – e, principalmente, pelos novos donos do dinheiro no mundo, os países emergentes, capitaneados pela China. Para isso, europeus, americanos e japoneses terão de reconhecer, formalmente, sua atual dependência financeira de países historicamente periféricos e realizar uma enorme transferência de poder para eles nos organismos multilaterais.

Se todos não formos capazes de darmos passos tão grandes, o processo de desintegração econômica e recessão na Europa pode virar a semente de movimentos protecionistas que revertam a globalização das últimas décadas, podendo, no limite, colocar em risco o próprio sistema capitalista.

Artigo publicado originalmente na coluna do autor na revista IstoÉ de 15/09/2011.
 

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Autor
Um dos apresentadores do programa Manhattan Connection da Globo News desde 2003, Ricardo Amorim tem presença destacada na indústria financeira mundial há 17 anos. Atualmente, é presidente da Ricam Consultoria, aconselhando grandes clientes no Brasil, América Latina, Estados Unidos, Europa e Ásia em projetos financeiros e de investimentos

Um dos primeiros a prever, ainda em 2007, a atual crise financeira global, Ricardo profetiza desde o final de 2.008 o descolamento de China, Índia e Brasil da crise econômica de EUA, Europa e Japão. Ricardo vai mais longe e projeta que o Brasil será um dos líderes do crescimento global nos próximos 5 anos, gerando oportunidades excepcionais de negócios.

Por acreditar firmemente nestas oportunidades, Ricardo retornou ao Brasil em 2008 para assumir a posição de C.E.O. da Concórdia Asset Management, após 8 anos em Nova York. Lá, foi Diretor Executivo para Mercados Emergentes (América Latina, Ásia, Leste Europeu, Oriente Médio e África) do banco alemão WestLB. Foi também Diretor de Estratégia de Investimentos para a América Latina da IDEAglobal, uma das maiores consultorias de investimento do mundo e Estrategista Sênior para Mercados Emergentes do banco francês BNP Paribas. Em São Paulo, atuou no BankBoston, Itaú Bankers Trust Asset Management, Banco Fenícia, e na consultoria econômica MCM e lecionou no curso de pós-graduação em Gestão de Riscos da Universidade São Marcos. Em Paris, trabalhou na Divisão de Mercados Emergentes do Banco Société Générale.

É economista formado pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em Administração e Finanças Internacionais pela ESSEC (École Supérieure des Sciences Economiques et Commerciales) de Paris e membro do Business Affairs Committee, o mais prestigiado comitê da Câmara Americana de Comércio de São Paulo.




 
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