17 de fevereiro de 2012, às 20h38min

Ler no carnaval

Para aqueles que pensam na folia com leitura, sugestões para pensar administração, mas ler com mais prazer livros variados de gestores em outros campos profissionais. Cinema, conto e semana de 1922.

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O período entre 20 e 24 de fevereiro é esperado com muita ansiedade, pois marca uma importante data do calendário brasileiro. Milhões preferem a folia e milhões preferem outras atividades. E o Brasil oferece oportunidades para todos.

Para aqueles que pensam na folia com leitura, sugestões para pensar administração, mas ler com mais prazer livros variados de gestores em outros campos profissionais. Cinema, conto e semana de 1922.

Conversas com Woody Allen de Eric Lax

Traduzido por José Rubens Siqueira, editado pela Cosac Naify e com apresentado por Otavio Frias Filho, assim:

"Woody Allen é o mais autobiográfico dos diretores de cinema. Numa prodigiosa seqüência de até agora 44 filmes (quase todos ótimos, alguns inesquecíveis), ele fez de seu alter ego neurótico e engraçado o centro de um mundo que se tornou familiar a todos nós. Como geografia esse mundo é a Manhattan do jazz, do beisebol e do filme noir. Suas fronteiras mentais seriam a psicanálise, o judaísmo, o cinema europeu. Nesse território se desenrolam comédias de amor e desengano nas quais um final feliz, quando ocorre, não apaga a nota melancólica, nem reverte o riso diante do absurdo da vida. Woody Allen faz um cinema existencial onde o protagonista é a palavra.

Resultado de inúmeras entrevistas que o cineasta concedeu a Eric Lax desde 1971, este livro revela o percurso que levou um comediante promissor a se transformar num dos artistas mais consumados de nossa época.

O Woody Allen que emerge das conversas é um artífice meticuloso e ao mesmo tempo improvisador – uma admirável imaginação dramática disciplinada pela técnica e pela severidade para com o próprio trabalho."

A ÁGUIA QUE NÃO QUERIA VOAR, James Aggrey, Companhia das Letras

A águia que não queria voar é um livro muito especial por pelo menos duas razões. A primeira é que essa bela parábola de autoria do educador ganense James Aggrey ganhou o mundo, repetida em um sem-número de versões e idiomas, desde a sua escritura, um século atrás. A segunda é que o original alemão, de 1985, marcou a estreia de um dos mais aclamados ilustradores de livros infantojuvenis das duas últimas décadas: Wolf Erlbruch, ilustrador de Da pequena toupeira que queria saber quem fez cocô na cabeça dela, entre outros livros de sucesso.

Aggrey escreveu essa pequena história sobre uma águia que, criada entre galinhas, não queria voar como um lembrete aos povos africanos, então sob dominação europeia. Ele queria mostrar a eles que a riqueza de suas culturas e tradições seguia viva, a despeito da opressão; pretendia redespertá-los para sua grandeza esquecida: seu majestoso destino de águias, e não de submissas galinhas. Uma lição muito bem-vinda, a todos os povos, de todas as épocas e continentes.

1922 - A semana que não terminou, Marcos Augusto Gonçalves, Companhia das Letras

Numa narrativa fluente, elegante e crítica, que mescla linguagem jornalística e relato histórico, o jornalista Marcos Augusto Gonçalves dá vida aos personagens e descreve as famosas jornadas que animaram o Teatro Municipal nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, durante o festival que ficou conhecido como Semana de Arte Moderna. Ao mesmo tempo em que reconstitui passo a passo o evento, o autor despe o episódio de mitos que o foram cercando ao longo do tempo: desde certas fantasias triunfalistas associadas a uma espécie de superioridade paulista na formação da cultura moderna brasileira, até as versões que, ao contrário, insistem em diminuir a importância histórica dos festivais encenados pelos rapazes modernistas e patrocinados pela elite econômica da emergente Pauliceia.

Nesse sentido, o livro incorpora críticas que têm sido feitas, desde a década de 1980, a algumas "verdades" consagradas pela historiografia e pelo senso comum. Como a ideia de que a arte e a literatura dos anos que antecederam a Semana seriam apenas acadêmicas ou passadistas, resumindo-se, quando muito, a manifestações de caráter pré-modernista.

O autor procura reavaliar a participação do Rio de Janeiro naqueles anos de formação da modernidade artística, e inscreve os jovens personagens de 1922 numa rede de relações pessoais ampla e complexa - na qual trafegam oligarcas, playboys, mecenas, mulheres fatais, imortais da Academia e poetas "passadistas".

Com base em ampla pesquisa, extensa bibliografia e entrevistas com especialistas, o livro - que também traz fotos e reproduções - é acessível ao leitor que se inicia no assunto, mas não deixará de despertar o interesse do meio acadêmico.

O título, como explica o autor, surgiu num chiste: "É uma paródia, uma espécie de blague quase oswaldiana a partir dos títulos de dois brilhantes best-sellers escritos pelos jornalistas Zuenir Ventura e Laurentino Gomes. Espero que me perdoem".

Boa leitura, boa semana, bom carnaval.

 

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