26 de janeiro de 2012, às 15h16min

"Meu Deus! Caiu um prédio próximo ao Theatro Municipal!"

Outro estrondo! Dispara o coração do carioca! E a administração pública de nossa cidade, está interessada em tratar o carioca como cliente? Em que pé estão as medidas tomadas (e não tomadas) sobre infraestrutura urbana para receber o impacto 2014-2016?

Por Lília Dias Marianno
 

Minutos após a queda dos prédios na Av. 13 de Maio n. 45, no Centro da Cidade Maravilhosa, espaço que hospedará Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016, a notícia me chegou por esta frase que me serve de título. Ela veio escrita na atualização de status do Facebook de um aluno meu de Gestão de RH. Com a mesma velocidade com que recebi a notícia, enquanto os gestores públicos e a defesa civil ainda se dirigiam para o local a mídia internacional também a recebeu.

Fiquei atordoada. Procurei informações pela internet pensando que a tragédia tivesse acontecido na tarde de ontem, perto do horário em que eu circulava pelo Centro do Rio. Mas fora à noite, para alívio da maioria das pessoas que trabalharam no prédio e imediações naquela mesma tarde. Mesma sorte não tiveram as 20 famílias que estão procurando seus parentes sob as ruínas de trinta e um andares desabados em pleno centro do Rio.

"A vida é um sopro, um minuto estamos aqui, no outro já não mais estaremos" como diz um provérbio judaico.

Às 7 horas da manhã de hoje a prefeitura da cidade ainda se preocupava em assegurar pela mídia que "o desabamento possivelmente não era produto de uma explosão de gás, mas sim danos estruturais do prédio maior". Claro que é muito conveniente não espalhar pânico sobre algum problema no subsolo, ainda não nos recuperamos do susto que levamos em outubro passado quando um restaurante explodiu, matando três pessoas e ferindo outras dezessete a apenas uns quinhentos metros ao sul do local do desmoronamento

Hoje pela manhã, eu voltava de um fórum de RH onde cerca de cem gestores participavam de um produtivo debate sobre: "Atendimento eficaz: o cliente do século XXI" . O local do evento era a quinhentos metros a oeste do local da tragédia, e para pegar o metrô eu precisei ir até o Largo da Carioca, ali, ao lado do desmoronamento, ao lado dos enormes prédios do BNDES, da Petrobrás, do famoso Edifício Avenida Central, muito próximo da catedral metropolitana que nos serve de cartão postal, e praticamente na esquina da Almirante Barroso, onde anos atrás outros prédios pegaram fogo.

O centro da Maravilhosa hoje estava caótico e perplexo. Os pedestres paravam estarrecidos diante daquela cena tão impensada vinte e quatro horas antes. Todo o trecho num raio de cem metros do local estava interditado e eu ali, me uni à multidão, pensando nas vítimas e em seus familiares.

A notícia que me embrulha o estômago na hora do almoço (12:55) é: "até agora cinco mortos e três feridos mais graves", outros seis em estado menos crítico. Eu, que frequento o local para comprar bilhetes para os espetáculos no Teatro Municipal imaginei que poderia ser eu ali no meio dos escombros. O elevador salvou a vida de duas pessoas. Até agora ainda não temos noção da extensão total do desastre. Mas cinco pessoas que estavam num dos prédios em treinamento corporativo estão sendo procuradas entre os escombros.

E se fosse amanhã, sexta-feira? Quando mesmo às 23 horas estas mesmas ruas estão repletas de cariocas que curtem o happy-hour do último dia útil da semana ou os espetáculos do Muncipal, muita gente circula neste lugar nas noites de sexta.

Por que um estrondo é tão preocupante à nossa Prefeitura e dele ela deseja afastar possibilidades? Para os leitores de Administradores.com.br de fora do Rio a questão não está tão evidente, mas para quem circula pelas ruas do Centro e Zona Sul do Rio diariamente o mapa conceitual imediato que se constrói em nosso imaginário com uma notícia dessas é o da continuidade de explosões de inúmeros bueiros nas ruas do Rio Antigo dos últimos meses, problema até agora não solucionado pela administração pública através de seus órgãos competentes. Claro que preocupa à prefeitura se houve ou não explosão antes do desmoronamento. Afinal, serão dezenas de famílias a serem indenizadas a partir dos cofres públicos se tal suspeita se consolida.

Nós, cidadãos do rio somos "clientes de século XXI " desta administração pública. Quando o ano começa, uma das primeiras contas a chegar em nossas caixas de correio é a cobrança do IPTU. Somos pessoas, que estamos perdendo nossos amados em sucessivos estrondos. Os bueiros explodindo pelo Rio de Janeiro nos últimos meses são sinais. O subsolo do Rio precisa de manutenção preventiva com prioridade máxima! Não podemos testemunhar novas tragédias, o coração desse povo amistoso e mundialmente conhecido pela sua hospitalidade não aguentará um trauma desses.

Ainda que o desmoronamento tenha realmente sido por danos estruturais do maior prédio, ele também é um prenúncio do que está por vir em nossa cidade se o caos na infra-estrutura pública continuar como está. Quando temos temporais (e "as águas de março" estão chegando) sucedem-se deslizamentos, dengue e outras calamidades. Quando nós escutamos qualquer outro "forte estrondo" nesta cidade (usando as palavras de Luiz Trajan, uma das pessoas que conseguiu sair do prédio antes do desabamento, nossos corações disparam de susto). Estamos vivendo de sobressalto em sobressalto. O que adianta a pacificação dos morros se a infraestrutura urbana fará tantas vítimas?

Manutenção preventiva em nosso subsolo! Urgente! Precisamos ser tranquilizados pelos nossos gestores de que medidas sobre o nosso subsolo da cidade serão prioridade máxima desta gestão

Nosso fórum de RH terminou falando de fidelidade e lealdade entre cliente e empresa. Na construção coletiva do conceito, definimos como fidelidade a troca de serviços e satisfações que ocorre entre clientes e empresa. Fidelização do cliente é uma troca, o vínculo que o cliente tem com seu fornecedor de produtos e serviços e o compromisso do fornecedor em atendê-lo.

Mas para haver lealdade (definida no evento por Nilton Pedreira como reprodução de uma marca) é preciso haver mais que fidelidade, é preciso haver confiança no ideal que perpassa a produção do fornecedor. O cliente precisa confiar na mensagem que a marca imprime, ele tem que acreditar nisso.

Como vamos acreditar num modelo de gestão que não percebe os sinais do caos que está instalado? Como poderemos imprimir a marca de Cidade Maravilhosa no coração dos milhares de turistas que já chegam para o Carnaval e passarão em nossa alfândega nos próximos quatro anos como uma verdadeira tsunami (principalmente se o subsolo não for devidamente diagnosticado).

Alô administração pública: vamos acordar?

 
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/meu-deus-caiu-um-predio-proximo-ao-theatro-municipal/61175/