A crise mundial que empurrou o Brasil para a recessão na primeira metade do ano passado não impediu que o país recebesse uma montanha de dólares. Dados consolidados pelo Banco Central mostram que, em 2009, o saldo cambial ficou positivo em US$ 28,7 bilhões, o terceiro melhor resultado anual da série histórica iniciada em 1982. Com isso, o superavit nos sete anos de governo Lula alcançou US$ 178,4 bilhões contra um deficit de US$ 26,3 bilhões nas duas administrações de Fernando Henrique Cardoso, marcadas pelo programa de privatização que atraiu um volume maciço de capital estrangeiro. Essa entrada de dinheiro em 2009 explica, em parte, a queda de 25% registrada na cotação do dólar no ano passado, que poderia ter sido maior, não fossem as intervenções do BC no câmbio e as apostas do próprio mercado financeiro em relação à tendência da moeda. Os bancos, que começaram o ano apostando na desvalorização do dólar, terminaram 2009 com uma expectativa de valorização em relação ao real. Reflexos da crise As previsões já divulgadas pelo governo e pelo mercado para 2010 mostram que os números do fluxo cambial não devem se repetir neste ano. Os investimentos na Bolsa e no mercado de títulos públicos, que respondem por boa parte do fluxo financeiro, devem cair quase 50%, prevê o BC. Também se projeta aumento no deficit nas transações do Brasil com o exterior, por conta da piora na balança comercial e do aumento das remessas de lucros das multinacionais. Em 2008, ano em que o mundo enfrentou a crise financeira a partir de meados de setembro, o saldo havia sido negativo em US$ 983 milhões. Nos dois anos antes da crise, a entrada de dólares no Brasil foi maior do que em 2009: US$ 87,454 bilhões em 2007 e US$ 37,270 em 2006. Investimentos Em 2009, o fluxo cambial foi puxado pelo segmento financeiro – investimentos em títulos, Bolsa de Valores e investimentos estrangeiros diretos, entre outros – com saldo de US$ 18,808 bilhões. Somente no mês de dezembro de 2009, o fluxo cambial foi positivo em US$ 1,986 bilhão, contra o resultado negativo de US$ 6,373 bilhões em 2008. O fluxo financeiro de dezembro de 2009 ficou positivo em US$ 3,120 bilhões, enquanto o comercial fechou negativo em US$ 1,135 bilhão. O crescimento do chamado fluxo cambial também permitiu que o BC reforçasse ainda mais as reservas internacionais do País. Desde maio, quando retomou os leilões diários de compra de moeda estrangeira, o BC adquiriu no mercado US$ 27,4 bilhões – o equivalente a 95,6% do volume de recursos externos que ingressou na economia em todo o ano. O retorno dos dólares ao Brasil começou a ocorrer apenas sete meses após o agravamento da crise em meados de setembro de 2008. Desde abril, o fluxo cambial é positivo todo mês. Entre abril e dezembro de 2009, o País recebeu US$ 31,7 bilhões. O valor foi mais que suficiente para cobrir o rombo de US$ 21,1 bilhões gerado pelos estrangeiros que deixaram o País entre outubro de 2008 e março de 2009, no auge da crise. Recuperação Em 2008, o fluxo cambial havia ficado negativo em US$ 983 milhões. Somente no segmento de investimentos financeiros e produtivos, houve saída líquida de US$ 48,8 bilhões. Esse cenário, no entanto, se inverteu completamente e o País passou a ser um novo polo de atração de recursos, o que se comprovou em outubro, quando a subsidiária brasileira do Santander vendeu ações em São Paulo e Nova York e captou US$ 7,7 bilhões, dos quais US$ 6 bilhões com estrangeiros. Foi a maior oferta de ações em todo o mundo em 2009. Além disso, muitos investidores se anteciparam à decisão do governo de taxar as operações estrangeiras no mercado financeiro. A cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) começou no final de outubro e ajudou a estabilizar o dólar na faixa entre R$ 1,70 e R$ 1,75. Além das operações financeiras, o BC registra também o fluxo de dólares no comércio exterior, que teve em 2009 o pior resultado em nove anos (US$ 9,9 bilhões). Com isso, pela primeira vez desde 2000, o Brasil recebeu mais dólares pela área financeira do que pelo comércio internacional, tendência que deve se manter neste ano. A piora nessa área se deu não só pela queda nas exportações brasileiras, mas também pelo fato de muitas empresas terem deixado parte dos dólares dessas operações fora do país -cerca de US$ 7,5 bilhões. Bibliografia Jornal do Brasil de 07 de janeiro de 2010 Correio Braziliense de 07 de janeiro de 2010 O Estado de S. Paulo de 07 de janeiro de 2010 Folha de S. Paulo de 07 de janeiro de 2010