Quando se fala em ergonomia você logo pensa na postura correta e na cadeira ideal para cada funcionário? O conceito é bem mais amplo. O professor Mário César Ferreira, doutor em ergonomia e professor do Instituto de Psicologia da UnB (Universidade de Brasília), classifica a ergonomia como a ciência do trabalho, envolvendo não só as condições de trabalho, mas aspectos como as relações sócio-profissionais e as normas, rotinas e procedimentos do mundo corporativo. “Ergonomia não é cadeirologia”, decreta. Confira a entrevista que ele deu à revista VOCÊ S/A. 1) Quais as áreas de atuação da ergonomia? A ergonomia agrega bem-estar no trabalho, eficiência nos processos produtivos e, como conseqüência, satisfação dos clientes. Envolve três grandes campos: • Condições de trabalho (ruído, temperatura, iluminação, espaço, etc.) • Organização do trabalho (incluindo aspectos como normas, rotinas, procedimentos e tempo) • Relações sócio-profissionais (entre pares; entres chefes e subordinados; entre o profissional e seus clientes e fornecedores). 2) Como lidar com tantos aspectos diferentes? Nas organizações, essas três áreas estão interligadas. O caráter básico da ergonomia é a interdisciplinariedade. Seus pilares são a psicologia e a fisiologia. Além disso, outras especialidades são convocadas, como arquitetura, engenharia, medicina, ciência da informação… Na maior parte das vezes, o especialista em ergonomia ainda é consultado pelas organizações sobre questões referentes ao mobiliário, ao posto de trabalho. Mas essa mentalidade está mudando. 3) Quais os principais problemas referentes à ergonomia no mundo corporativo? Há problemas de ordem teórica e prática. Na questão teórica, a maioria das organizações ainda seguem valores superados. Por exemplo, dão muita ênfase à produtividade e ao resultado, deixando de lado o bem estar. Além disso, cultuam o chamado apartheid gerencial: de um lado estão os que pensam, do outro os que executam. Por fim, temos a cultura da rotatividade. Muitos gestores acham mais fácil e barato trocar os funcionários do que mexer na organização do trabalho, o que é uma burrice. Na prática, há vários problemas envolvendo a organização e as condições de trabalho (como questões ligadas ao conforto ambiental e à informática). 4) O que os gestores das empresas devem fazer para reverter esse cenário? O primeiro passo é pensar diferente. Não se muda a prática sem mudar a mentalidade. Em seguida, é preciso conceber e implantar um novo modelo de gestão do trabalho, com efetiva participação de todos, reconhecimento e desenvolvimento, autonomia e implantação de programas de qualidade de vida de natureza preventiva (e não paliativa). 5) O que o próprio funcionário pode fazer? Ele deve argumentar, mostrar causas e efeitos dos problemas que enfrenta e propor mudanças. Deve buscar o diálogo. Recomendo, por exemplo, reuniões regulares em cada setor para avaliação e planejamento. São momentos para discutir o que está funcionando e o que precisa mudar. VOCESA Por Daniela de Lacerda