Conta-se que Tidiu vivia na beira da estrada e vendia mercadorias diversas. Não tinha rádio e, por deficiência visual, não conseguia ler jornais. Em compensação, era um excelente vendedor.
Logo que iniciou o seu pequeno negócio, mesmo sem nenhum conhecimento de marketing, colocou um cartaz na beira da estrada, divulgando suas mercadorias de forma simples e criativa, e ficava ali, o dia todo anunciando em alto e bom tom os seus excelentes produtos a quem passava: "Temos, tecido, cortinas, camisas, sapatos e muito mais, tudo com preços e condições especiais, venham conferir !!!"
As pessoas passavam e contagiadas pelo vigor e determinação de Tidiu, paravam e compravam. Com isso, suas vendas e pedidos aumentaram muito. Assim, Tidiu resolveu montar uma pequena loja nas imediações. Então, ao telefonar para o seu filho que morava na cidade grande e contar as novidades, o filho disse:
- "Pai, o senhor não tem ouvido rádio? Não tem lido jornais? Há uma crise muito séria e a situação internacional é perigosíssima!"
Diante disso, o pai pensou:
- "Meu filho estuda na universidade e conhece muito sobre economia, ouve rádio e lê jornais... portanto, deve saber o que está dizendo!"
Então Tidiu decidiu reduzir os pedidos e teve que tirar o cartaz da beira da estrada. Não anunciava suas mercadorias como outrora. O medo da crise transformou o seu otimismo em duvidas e incertezas. Assim, as vendas caíram do dia para a noite e ele disse ao filho:
- "Filho, você tinha mesmo razão, a crise é muito séria!"
O medo gerado pela incerteza e dúvida pode ser mais danoso do que o problema em si. O medo, convenhamos, até certo ponto, é natural e saudável. Porém, de forma exagerada é danoso e mortal. Portanto, assim como no conto acima, o medo da crise atual, alimentado pelas incertezas e duvidas quanto ao futuro, podem reduzir vendas e pedidos, desestimular investimentos e acabar com o otimismo, depois disso tudo alguém poderá dizer: “realmente a crise era muita séria mesmo”
Naturalmente, o problema existe, não sejamos tolos e incautos. Contudo, os seus desdobramentos dependem de nossas atitudes e comportamentos. Se decidirmos não fazer nada, estamos tomando a decisão de “Nada fazer”.
Contrariando a lógica e o bom senso natural de um mundo globalizado, erraram àqueles que afirmavam que o Brasil estava imune, blindado e protegido contra as turbulências econômicas do mundo. A indústria que o diga, pois foi um dos primeiros setores a tomar consciência prática, do quanto esta afirmação é falaciosa, embora nem todos os segmentos tenham sido igualmente afetados.
Portanto, a hora é de respirar fundo, ter sangue frio, levantar a cabeça, renovar a esperança e fortalecer o otimismo, pois o medo da crise pode ser maior do que ela mesma.
A turbulência econômica mundial vem sendo exaustivamente acompanhada por todos nós. Contudo, apenas recentemente, estamos observando posicionamentos que, ao invés de discorrer sobre a crise, estão discorrendo sobre como combater a crise.
Neste momento, mais do que nunca é preciso diálogo, entendimento entre lideranças e liderados, pois a manutenção dos empregos e das empresas é essencial. Do contrário, se não houver regras de exceção a saída poderá ser a demissão.
Portanto, o momento é único para que os Sindicatos demonstrem a razão de suas existências. De fato, se o monopólio sindical enfraquece as entidades em razão das acomodações inerentes ao sistema, a atuação conjunta das mesmas demonstrando que empregar é preciso às fortalece. Neste momento, precisamos defender a empregabilidade e não discutir direitos trabalhistas. Para tanto, torna-se necessário a articulação de patrões, empregados, sindicatos e governo, naturalmente observando a legislação vigente.
Nesse sentido, precisamos flexibilizar a legislação trabalhista e desonerar as empresas. Flexibilizar a legislação trabalhista não é reduzir direitos trabalhistas, salários ou direitos adquiridos, pelo contrário, é readequar temporariamente os direitos trabalhistas às reais necessidades da economia. Portanto, é melhor perder os anéis, mas preservar os dedos, ou seria melhor perder o emprego, mas manter os direitos? Precisamos ser realistas e não podemos deixar que interesses pessoais e o medo nos impeçam de sermos ousados e criativos, parafraseando Fernando Pessoa, navegar é preciso, mas morrer não é preciso. As empresas precisam navegar e não podem afundar, para isso é preciso a união de todos.
Em uma tempestade, na qual a embarcação pode afundar, todos, sem exceção devem unir esforços para protege-la, afinal, suas vidas dependem disso. Logo, se ela afundar todos morrem! Assim, quando a tempestade passar e todos estiverem fora de perigo, então será a hora de falar sobre os bravos lutadores e sobre quem será agraciado pelas suas obras. Nesse sentido, nenhuma empresa deixará de valorizar os seus empregados, pois quem, em sã consciência quer perder excelentes colaboradores?
Felizmente, se é que podemos assim definir, a crise chegou em um momento positivo da economia brasileira. Com efeito, em meio a tantas dúvidas, quando o mundo se prepara para uma forte recessão, estamos discutindo se vamos crescer 2, 2,5 ou 4%. Logo, se serve de consolo, de certa forma, ainda estamos em uma posição confortável, mas até quando?
Contudo, preocupa-nos as afirmações infundadas de que os empresários precisam sacrificar os seus lucros para evitar demissões. De fato, em uma economia, aquecida os resultados são reinvestidos na empresa, era este justamente o cenário em setembro de 2008. Assim, a franca ascensão econômica exigiu dos empresários, cada vez mais, investimentos e todos foram surpreendidos pela crise. Portanto, não há que se falar em sacrificar os lucros e sim salvar as empresas e seus empregados.
Além da flexibilização das regras trabalhistas, precisamos desonerar as empresas, reduzir as taxas de juros, bem como spreade bancário, além de criar um clima de otimismo e esperança. As taxas de juros no Brasil são absurdas e fora de propósito e nada justifica a sua manutenção, eis que ninguém sabe ao certo quanto tempo a crise vai durar, portanto precisamos de mais reuniões e mais reuniões do COPON.
A industria brasileira, foi um dos primeiros setores diretamente atingidos pela crise internacional e, se nada for feito a respeito, os demais segmentos também serão atingidos, é só uma questão de tempo.
Diante dos obstáculos é que constatamos se estamos suficientemente preparados para enfrentá-los. Infelizmente estamos constatando, da pior forma possível, que a nossa legislação é antiquada, retrógrada e imprecisa. A Lei 4.923/65, parcialmente revogada e Art. 476-A da CLT que tratam a suspensão temporária do contrato de trabalho se mostram imprecisas e burocráticas.
Assim, embora não seja o momento adequado para falarmos em reformas do direito trabalhista, sem dúvida, é hora de refletirmos sobre a redução temporária da jornada de trabalho e flexibilização da legislação trabalhista.
Como devemos enfrentar a crise?
Para os empregadores a palavra de ordem é planejar, reestruturar e reduzir custos a última medida é demitir!
Para empregados a palavra de ordem é disciplina, trabalho e apoio aos seus empregadores.
Se todos os envolvidos fizerem a sua parte, com certeza passaremos pela crise. Não obstante, precisamos de trabalho, planejamento, otimismo, determinação, empenho, coragem, ousadia e unir esforços para o bem comum!.
Assim espero,
Marcos Antonio Galindo
Advogado, Contabilista, Consultor Empresarial e
Palestrante empresarial e motivacional
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/na-crise-do-medo-manter-empregos-e-essencial/27773/