20 de maio de 2009, ās 16h23min

O elo perdido nas organizações

Por Rubens Fava
 
Antes de 1.500, a visão de mundo que prevalecia na Idade Média (de 400 a 1.400) era a visão orgânica, ou seja, vivenciava-se uma interdependência dos fenômenos materiais e espirituais e a subordinação das necessidades individuais às da comunidade.

Toda a estrutura científica dessa visão orgânica de mundo estava embasada no naturalismo de Aristóteles e na fundamentação teórica de Platão e Santo Agostinho, que consideravam mais importantes as questões referentes a Deus, à alma humana e à ética.

Naquela época, a vida na terra nada mais era do que um preâmbulo para a vida eterna.

Assim a filosofia tinha como objetivo servir de base para a teologia e tinha como causa a salvação da alma após a morte, isto é, vivia-se a fase que se denominou teocentrismo.

Para o homem medieval, tudo era sagrado, pois tudo era estabelecido por Deus e cabia ao homem contemplar e compreender toda a harmonia existente na natureza.

Foi uma época em que se exigia o respeito cego às autoridades, aos textos bíblicos e aos gregos.

Uma época de muita repressão, na qual, em termos científicos, pouco se inovou. Aquele que inovava ou discordava dos textos bíblicos arriscava-se a morrer queimado para se redimir das bruxarias e alquimias, provenientes de sua inovação.

A partir dos séculos XVI e XVII, iniciou-se uma mudança na natureza da ciência e do pensamento medieval.

A visão de um mundo orgânico, vivo e espiritual foi sendo substituída gradativamente pela noção de um mundo máquina, composto de objetivos distintos, em função das revolucionárias mudanças na física e na astronomia, ocorridas depois de Copérnico, Galileu e Newton.

A partir desse período, iniciado no século XV e que os historiadores denominaram Idade Moderna, surgiu o Renascimento que recolocou o homem como centro do universo, período esse chamado de antropocentrismo.

Com o Renascimento, o comércio começou a tomar força e com ele surgiram as grandes companhias de navegação, caracterizando-se pelos descobrimentos marítimos e como conseqüência o apogeu do mercantilismo, do racionalismo e o advento da experimentação científica.

De acordo com esse modelo de ciência, o homem, senhor do mundo, podia transformar a natureza, explorá-la, e ela deveria servi-lo, fazer-se escrava e obedecer.

Sai o conceito de terra como mãe nutridora e entra o conceito de natureza supridora de todos os desejos do homem.

Do ponto de vista da ciência, essa mudança da relação homem/natureza alterou também a relação ética e teórica do homem consigo mesmo.

A partir daí o homem tornou-se materialista, o divino desapareceu deixando um vácuo espiritual que se tornou característico em nossa cultura.

O grande filósofo Lucius Aneus Sêneca que nasceu em Córdoba, na Espanha, no ano 4 a.C. conhecido como Sêneca já parecia prever o que ele denominou de “escravidão da fortuna” quando dizia: “…aquele que persegue a fortuna e a ela subordina tudo o mais, a primeira coisa de que descuida é a sua liberdade”.

Podemos substituir a palavra “fortuna” pela palavra “sucesso”, ou seja, “aquele que persegue o “sucesso” e a ele subordina tudo o mais, a primeira coisa de que descuida é da sua liberdade”.

O homem não compra o “sucesso” vende-se a ele.

No mundo de hoje essa é a maior das escravidões, pois, o homem começa a precisar do sucesso.

Daí resulta uma vida ansiosa, suspeitosa, temerosa, assustada com os acontecimentos, sem ética e sem os verdadeiros valores.

Em função de tudo isso o mundo foi ficando árido, incolor, sem estética, materialista, sem consciência e espírito.

Nasce assim, a era da imitação, ou seja, eu não posso ser um Brad Pitt, mas, posso me vestir como ele.

A facilidade de se conseguir bens materiais gerou um vazio existencial e conseqüentemente uma nova busca pelo sentido da vida, levando o homem a tentar descobrir um novo jeito de viver, a descobrir o elo perdido dentro de suas organizações.

Para isso sonha em encontrar um jeito que possa ser aprendido e aplicado pelas pessoas e organizações com o intuito de transformar o trabalho numa experiência que transcenda as ações diárias, no qual a motivação e o entusiasmo venham de dentro para fora naturalmente.

Algo que gere comprometimento nas pessoas com a missão da empresa e com o bem-estar de seus pares.

Na ânsia de reencontrar o elo perdido o homem começa a aumentar seu interesse pela ética e pelos valores humanos, entendendo que o indivíduo, assim como a organização, só é feliz quando tem suas dimensões corporal, racional, emocional e espiritual alimentadas.

O homem está revendo seu conceito de “sucesso”,

Para este novo homem sucesso é levar a felicidade aos outros, ser feliz, estar em paz, usufruir de conforto, ser querido, ser interessante, conhecer, experimentar e viver de forma ampla, vivendo em harmonia com valores que estão acima do simples ganho financeiro.

Isso requer também um novo tipo de profissional.

Requer um profissional que seja técnico, porém, com visão de conjunto.

Que seja objetivo, porém, flexível.

Criativo, porém, focado.

Cheio de energia, porém, equilibrado.

Competitivo, porém, que saiba trabalhar em equipe.

Hábil na gestão de pessoas, porém, firme.

Líder, porém, com liderança conquistada.

Comprometido, porém, com organização.

Um profissional que saiba aprender a aprender para se beneficiar das oportunidades oferecidas.

Um profissional que saiba aprender a fazer para estar apto para enfrentar situações de mudança e agir sobre o meio.

Um profissional que saiba aprender a ser para desenvolver sua personalidade e responsabilidade social.

Um profissional que saiba aprender a viver junto para desenvolver a compreensão do outro e a percepção das interdependências

E por fim um profissional que saiba aprender a desaprender para poder evoluir.

Para reencontrar seu elo perdido o homem precisa repensar e desenvolver novas crenças, novas conexões e novas competências.

Precisa rever o significado da vida e rever o significado da vida na empresa.

As empresas que de certa forma estão descobrindo este elo perdido são aquelas que praticam valores éticos e morais que transcendem os objetivos puramente comerciais.

Enfim, são aquelas que descobriram que precisam considerar sua alma.






 
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/o-elo-perdido-nas-organizacoes/30143/