07 de julho de 2009, às 02h57min

O exemplo de JK

Por Sibá Machado
 
Um dos problemas do mito é que ele é um desestímulo ao exercício da crítica. Percebo que muito do que se fala de Juscelino Kubitschek nos últimos anos não faz uma separação clara entre a mitificação e o tangível. Ciente disso, prefiro homenagear nestes cinquenta anos de sua posse como presidente, o Juscelino democrata, ressaltando que faço um recorte pouco conhecido, mais uma importante contribuição para um país que conta nos dedos de uma mão, desde 1930, os presidentes civis que conseguiram, com as instituições democráticas funcionando normalmente, passar a faixa para o seu sucessor.

O governo JK conseguiu, a um só tempo, consiliar expansão eonomica com desenvolvimento político. Não é pouca coisa. lembremos que JK recebeu o país que muitos chamavam de "a nação da instabilidade crônica" devido às constantes crises. Os exemplos não são poucos: Revolução de 1930; Rebelião Paulista de 1932; Movimentos Radicais de 1935 e 1938; Ditadura de Vargas a partir de 1937 e o suicídio de Getúlio Vargas em 1954. Não foi por outra razão que os cientistas poíticos e historiadores consideraram os anos 1955/1960 como caso atípico de estabilidade na história contemporânea do Brasil.

Essa atipicidade foi alcançada com um misto de esperança em torno de idéias desenvolvimentistas, aliada à capacidade de Juscelino de arbitrar interesses; interesses que, em grande parte, foram apaziguados pela conservação do Estado patrimonialista. Ainda assim, se lembrarmos que vivíamos em um periodo turbulento, e ele se mostrou extremamente habilidoso para conduzir os seus cinco anos de governo em mares relativamente tranquilos.

Os anos JK também devem ser lembrados como o governo das liberdades democráticas, da inexistência de presos políticos, da imprensa livre, com partidos políticos, sindicatos e grupos de interesses funcionando sem perseguição. E claro, da anistia dos rebeldes militares. Importante ressaltar que a estabilidade da era JK não significa ausência de crises, estas são inerentes à existência de governos.

A forma como conduziu as crises é que faz dele uma figura singular em nossa história política recente, um exemplo a ser seguido. Uma demonstração disso foi como resolveu a tensão gerada pela rebelião militar de jacareacanga sob o comando do Major-Aviador Haroldo Veloso. Entendia JK, corretamente, que o momento era de fortalecimento do nosso sistema político e a manutenção da ordem era fundamental para consolidar as instituições democráticas, por isso anistiou as punições dos revoltosos.

As crises foram várias, principalmente em 1959, o pior ano de seu mandato. Naquele ano, o planejamento de governo era colocado em dúvida o seu cumprimento, o FMI pressionava o governo, internamente a UDN (União Democrática Nacional) fazia uma oposição às barras do desleal, a inflação ameaçava a estabilidade monetária, as greves aumentavam e ano terminou com uma nova rebelião militar em Aragarças. Mas todas essas crises, JK conseguiu governar sem espasmos autoritários, sem ameaças às instituições democráticas, um gesto de alta relevância para quem, logo no início do governo, contrariando os militares, se recusou a governar com estado de sítio, como fez seu antecessor.

Longe de mitificação e sentimentalidades políticas, os cinquenta anos da posse deJuscelino é um momento importante para lembrarmos, como disse certa vez Antônio Cândido, que certos momentos do passado podem servir de pretexto ou estímulo para refletir sobre o presente. É essa a grande contribuição de JK para nosso momento político.

(*) Discurso proferido na tribuna do Senado Federal pela homenagem dos cinquenta anos da posse do presidente Juscelino Kubitschek.
 
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/o-exemplo-de-jk/31694/