O marketing e os conselhos profissionais
Discute-se a regulamentação da profissão em marketing. O artigo desenvolve argumentação para mostrar que tal regulaemntação será prejudicial para o país e para o ambiente profissional
Solon C. de Araujo
Em 2008 escrevi aqui neste mesmo site um artigo intitulado "os conselhos profissionais e o engessamento do conhecimento", mostrando meu ponto de vista de que os conselhos de classe, se necessários em algumas profissões, acabam se tornando um elemento reducionista no exercício do conhecimento em outras, nas quais são absolutamente desnecessários.
Recentemente tivemos notícia de que, infelizmente, voltou à tona a regulamentação da "profissão" de profissional de marketing. O que parecia sepultado pelo bom senso foi ressuscitado e encontra-se na Câmara dos Deputados um novo projeto para criar a profissão e o respectivo conselho, com todos seus carimbos, regulamentos, carteirinhas, cobrança de anuidades, mundo de gente empregada para criar mais um órgão burocrático neste país. E o novo projeto conseguiu ser ainda mais reducionista que o anterior.
Eu sequer pretendia escrever mais sobre isto, mas hoje li um notável artigo de J.R. Guzzo na Revista Veja e o final do artigo me deu ânimo para retornar a este assunto. Mas antes vou transcrever o que disse o articulista: "A Presidente Dilma Rousseff e a maioria das pessoas que a cercam vivem num mundo mental em que há uma certeza acima de qualquer outra – a de que todos os aspectos da existência humana necessitam do poder público para ter a salvação". Mais adiante diz J.R. Guzzo: " Nada deixa a gente do governo tão nervosa quanto descobrir que há alguma atividade, profissão ou ofício sem "regulamentação"; se é algo feito pelo homem, é indispensável aprovar, permitir, autorizar, licenciar, controlar, multar."
E aí entra o marketing. Amparado por modelos corporativistas do Sec. XIX, que perduraram e ainda foram incrementados no Sec. XX, entramos no Sec. XXI com a mesma mentalidade. Logo teremos uma legislação que já nascerá antiquada, fora de moda, em completa distância das conquistas de geração e transmissão do conhecimento de uma forma ampla e irrestrita.
O marketing, uma função essencialmente multidisciplinar, vai ser colocada em uma camisa de força e só poderá ser exercida por quem tiver graduação nesta profissão, com a respectiva "carteirinha" devidamente carimbada, firma reconhecida, tudo dentro dos melhores trâmites da burocracia. Será que um profissional de marketing, graduado na profissão, conhecendo tudo sobre os 4 Ps, segmentação de mercado, posicionamento e todos os demais princípios do marketing terá mais capacidade para fazer um marketing rural do que um agrônomo ou veterinário que tenha feito uma pós em marketing? A mesma pergunta para engenharia civil e todas as demais profissões.
O marketing é visceralmente multidisciplinar e de tal amplitude que não caberá em um curso de graduação. Nunca um curso de quatro ou cinco anos conseguirá formar um profissional que atue em áreas que abrangem, praticamente, todas as atividades profissionais. Mas é estranho como determinados modelos mentais se cristalizam em nossas mentes e ficam difíceis de serem arrancados para dar lugar a novos modelos, mais adaptados a outros tempos.
Na época da internet (2,0, 3.0), da convergência digital, da "cloud computing", seria de se esperar que idéias mais criativas, mais inteligentes, mais revolucionárias, mais dinâmicas surgissem no horizonte em vez de, simplesmente, fazer mais do mesmo, repetindo modelos arcaicos, defasados, incompatíveis com o que acontece hoje no mundo. Mas mexer em modelos cristalizados, sedimentados na mente humana é uma dificuldade hercúlea e, em função disto, o marketing dentro de pouco tempo, pelo menos no Brasil, um país que deveria ser jovem e revolucionário nas idéias, mas ainda sofre de tremendos atrasos, estará preso em uma carteirinha, gerido por um conselho que procurará apenas manter uma reserva de mercado para um grupo de profissionais.
No Brasil nós temos exemplos de profissionais que se aventuraram em campos distintos de sua profissão e tiveram grande sucesso. O mais eloqüente é do ex-presidente do Banco Central, que durante oito anos conduziu brilhantemente a economia do Brasil e é graduado em engenharia civil e não em economia.
E meu medo é de que, se aprovada a lei do conselho de marketing, se o Sr. Philipp Kotler vier fazer uma palestra sobre marketing no Brasil venha a ser multado pela falta de diploma na profissão...
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Instrutor de Marketing dos cursos da Thompson Management Horizons. Instrutor dos cursos de Agronegócios da Thompson Agronegócios.
Sócio Diretor da SCA Consultoria e Treinamento S.C. Ltda.







