Em artigo apresentado na XXX semana de iniciação científica da UFRJ, em setembro de 2008, discorri acerca da minha pesquisa sobre o ethos da resistência organizacional naquela que é a mais antiga organização de nossa civilização e também aquela dentro da qual nasceu a burocracia, a distinção entre planejamento e execução, a disciplina e a propriedade dos meios de decisão da ação coletiva: a Igreja Católica( Weber, Ensaios de Sociologia, 1968).
Meu objetivo foi contribuir para o desvelamento do ethos da resistência organizacional brasileira, baseado nas relações entre o modo de vida efetivo das massas, o comportamento efetivo dos membros da hierocracia católica (padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas) e o seu discurso. Estas relações, segundo o sociólogo Max Weber, são decisivas para a constituição do ethos cultural, em que o último é afetado pelo ethos percebido a partir do comportamento dos "virtuosos" da religião hegemônica em determinada cultura.
A pesquisa buscou identificar como os padres católicos reagiam ao longo da história da Igreja às deliberações papais das quais discordavam ou que se revelavam impraticáveis. O que constatei foi que, ao longo da história da Igreja, aqueles que tentaram abertamente a renovação carismática da Igreja sem deter o poder papal ou seu apoio tiveram de escolher entre renunciar a este propósito ( caso de Erasmo de Roterdã), ser expulsos da Igreja e excumungados( Lutero e Leonardo Boff, por exemplo) ou tiveram de aprender as líções de Pedro acerca do que chamei de resitência Velada:
"É importante dissecarmos o termo usado nesta pesquisa para definir a forma pela qual a resistência dos virtuosos católicos às divergências carismáticas tendeu a se manifestar. Resistência velada. Velado é o ato de ser iluminado por velas, estando cognitivamente ligado ao carisma religioso, buscado ou recebido através de orações e preces, iluminadas pelas chamas de velas acesas sobre o altar. Essa luz é sutil, discreta, difícil de ser percebida. Exatamente como a resistência que os virtuosos desenvolveram para contrariar as leis canônicas de que discordam ou sentem-se praticamente incapazes de cumprir. Caso alguém ouse denunciar aquela divergência, ela é negada. Exatamente como Pedro fez por três vezes, quando, no martírio de Cristo, os carrascos de Jesus perguntaram-lhe se o conhecia." ( A resistência dos virtuosos católicos à ortodoxia carismática. Semana de iniciação científica da UFRJ, 2008)
Este estudo permite novas leituras do fenômeno da preferência pelo ócio, termo cunhado por Celso Furtado para compreender como a estrutura de distribuição do trabalho no Brasil até a segunda metade do século XIX, marcada pela escravidão e pelo senhor das terras, tornou o trabalho fonte de sofrimento, uma maldição que precisava ser evitada e seus impactos na motivação do trabalhador brasileiro.
Contrapondo-se à análise de Sérgio Buarque de Holanda que via neste comportamento uma causa étnica, um espírito aventureiro típico do Português, Celso Furtado revelou como uma estrutura organizacional autocrática alienadora, incapaz de criar as condições para a satisfação das necessidades higiências, socias e existênciais do trabalhador culminaria na emergência da preferência pelo ócio, produto da desmotivação do trabalhador.
A preguiça e a malandragem, imortalizada em obras de arte da nossa literatura e música popular como Jeca Tatu de Monteiro Lobato e a ópera do Malandro de Chico Buarque de Holanda, são , possivelmente, resultados deste desenvolvimento histórico material e também dos afetos decorrentes da resistência velada dos virtuosos católicos. Estão relacionados com fatores materiais e espirituais.
Em nossa sociedade percebemos que a figura do malandro está presente no nosso inconsciente coletivo como um arquétipo do trabalhador que resiste a um trabalho que considera fonte de sofrimento, através da preguiça, que proponho que seja entendida como uma resistência velada. Certo, a elite brasileira também apresenta esse comportamento malandro e a preferência pelo ócio. Trabalha-se o mínimo necessário e apenas o suficiente para garantir o "pão nosso de cada dia".
Transformar este hábito arraigado depende de uma revolução cultural e uma revolução gerencial. Do ponto de vista cultural, um ponto de investigação prefícuo é o do impacto do crescimento das religiões neopentecostais com sua teologia da prosperidade ( Revista Mais da Folha de São Paulo- 12/07/2009), que possivelmente pode fazer com que o trabalho seja encarado de forma diferente ou que pelo menos o ethos da resistência mude, de modo que o trabalho alienado alavanque o empreendedorismo, criando-se novos negócios para fugir de um trabalho causador de sofrimento.
Do ponto vista gerencial, a resistência velada e o comportamento empreendedor, a criação de novos negócios, são prejudiciais à organização. O primeiro reduz a produtividade. O último aumenta a competição, causa perdas de talentos e competências e aumento do custo pela redução da produtividade empresarial. Para evitá-los, cumpre-nos assumir nossa responsabilidade na criação de condições para que o trabalho deixe de se tornar fonte de sofrimento, tornando-se fonte de realização humana e social.
Cumpre-nos assumir a nossa responsabilidade administrativa e tornar o trabalho produtivo e o trabalhador realizado por meio de uma estrutura de decisões participativa, que valorize o intraprendedorismo, o aprendizado e a ação comunicativa. Esta é uma revolução cujo agente histórico é o administrador e não podemos fugir dela, pois seu fracasso tem implicações sérias inclusive na crise niilista contemporânea, resultado de um cultura gerencial que aliena o trabalhador, oferecendo-lhe como compensação produtos que não satisfazem suas necessidades e um entretenimento escravizante.
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/o-que-e-resistencia-velada/43165/