03 de julho de 2009, às 11h22min

O som do poder: o resgate da oralidade

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Por Reinaldo Passadori *

Por muito tempo, nossa cultura letrada tem sinalizado uma prevalência considerável sobre a cultura oral. Observando a história do Ocidente, vale apontar que a oralidade perdeu gradativamente força e espaço na civilização em virtude da aura nobre que circunda a escrita. Em épocas dos grandes filósofos, quer sejam latinos ou gregos ou os grandes sábios, transmitiam seus conhecimentos e sua sabedoria e, pelas próprias condições prevalecentes na época, a oralidade naturalmente se sobrepunha aos registros escritos e, assim de geração a geração, essas informações eram perpetuadas. Ao longo do tempo, a palavra escrita passou a ser considerada uma fonte mais confiável do que o volátil som da palavra. Além disso, a oralidade era considerada por muitos, decerto que equivocadamente, como uma expressão humana primitiva e distante do alto nível das belas letras da comunicação escrita. Assim, a história nos ensina que a oralidade pôde culminar no ponto de ser desprestigiada, quando não sufocada. Atuantes nessa linha de pensamento iluminista eram os pensadores que consideravam tão-somente a escrita como um dos fatores prioritários para se alcançar o progresso, a evolução e a razão humanas. Ora, mas que deslize colossal: tais pensadores se esquecem de que a oralidade protagoniza justamente o princípio da Comunicação. A palavra, afinal, não é só um som. A palavra proferida é o som do poder, pois dela ecoa o poder da influência para persuadir, comover, motivar, instigar, conclamar, incitar e direcionar as ações e comportamentos de quem a ouve. Para se ter uma visão panorâmica sobre o atual estado da Comunicação, é preciso ter mente a presença da oralidade em todas as fases históricas da humanidade: das sociedades tribais às sociedades civilizadas, da cultura oral à cultura escrita, e dessa às interfaces digitais da cibercultura. A oralidade está presente, em maior ou menor grau, em todas essas épocas. E seria possível ser diferente? Para agir e interagir, os homens se comunicam, proferindo palavras, articulando discursos, manifestando posições, trocando informações, negociando em todos os momentos. Nesse cenário, a oralidade precisa ser resgatada. Esse resgate se descortina em uma necessidade que se torna cada vez mais um diferencial competitivo no mundo corporativo. O discurso oral é uma das mais potentes formas de poder. Um poder de convencimento, de persuasão, de relacionamento, de aliança, de assertividade, de posicionamento, de diálogo, de entendimento, em suma, de comunicação. Na comunicação organizacional e no mundo dos negócios , a análise dos processos deve envolver os meios orais empregados, pois a voz de um dirigente ou colaborador ressoa a voz da organização, apresenta características da “personalidade organizacional” e subsidia a edificação da imagem corporativa elaborada pelos públicos. Ainda nessa diretriz, no contexto profissional, a oralidade deve ser resgatada e preservada como uma peça estratégica para consolidar o planejamento comunicacional. Diante de um mundo catalisado por novas tecnologias, a interação oral se destaca como valorização do relacionamento. Exemplos não faltam para ilustrar situações em que apenas a palavra dita face a face surte o efeito desejável. Ao publicar uma ata de reunião, o profissional inevitavelmente camufla ou deixa escapar uma série de detalhes indescritíveis que rondaram a atmosfera da reunião. Era preciso estar lá, presenciar in loco para ouvir e para saber o que realmente aconteceu nos mínimos detalhes, por mais habilidade que tenha a pessoa responsável pela elaboração dos detalhes discutidos, debatidos, das opiniões manifestadas, das decisões tomadas. Situação mais agravante se observa com a circulação de e-mails. Apesar de sua inegável praticidade e da agilidade que proporciona ao mundo contemporâneo, o e-mail não é capaz de transmitir o conteúdo da mensagem integralmente, porque ele é desprovido da emoção ou da atmosfera somente possível na emissão da voz e suas inflexões, da calma ou do nervosismo, do entusiasmo ou desânimo de quem fala. As palavras estão presentes, impressas na carta ou digitadas no e-mail, mas falta o elemento principal: a presença da voz. É inestimável o número de casos em que uma mensagem escrita não foi interpretada corretamente – e pudera, afinal, as frases lidas sem entonação, sem emoção ou sem personalidade, perdem todo o seu sentido, sem desmerecer, obviamente, toda a beleza, arte e magia que alguns escritores possuem de transportar o leitor aos mundos mágicos por meio das palavras e da forma de escrever. Assim, a comunicação oral emerge no cenário atual como um caráter diferencial às empresas que realmente lhe atribuem o devido valor. Torna-se, portanto, uma competência gerencial, esquecida e pouco valorizada pelo nosso sistema educacional, entretanto fundamental para os líderes e ocupantes de posições estratégicas no mundo corporativo. A presença da oralidade, do diálogo, da conversa, da discussão presencial, consolida o relacionamento entre a organização e seus públicos estratégicos internos, integrando seus colaboradores. Os mais conservadores da comunicação considerada culta podem depreciar essa valorização da oralidade. Porém, é uma posição retrógrada negar que em nossa civilização possam conviver simultaneamente marcas de avanço tecnológico e relacionamentos primordialmente humanos. As culturas escritas e a cibercultura obviamente têm seu valor assegurado em nossa sociedade moderna. Além delas, porém, os processos primários de comunicação permanecem, na expressividade do corpo, da voz, da palavra e das formas utilizadas para o planejamento e elaboração das apresentações e das falas formais e informais nos relacionamentos interpessoais. Ser visionário, empreendedor e otimizar a competência gerencial, no presente, é ter a habilidade de se virar ao passado e resgatar a oralidade. Esse é o som do poder.

* Reinaldo Passadori é presidente e fundador do Instituto Passadori e especialista em comunicação verbal e treinamentos de liderança, negociação, media training, motivação, entre outros, que atendem da presidência ao departamento de recursos humanos. É autor do livro Comunicação Essencial – Estratégias Eficazes para Encantar seus Ouvintes - Editora Gente.


 

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