10 de dezembro de 2007, ās 15h28min

Oferta, demanda, sardinhas e tubarões

Por Conrado Navarro
 
Onde fica a educação financeira diante do cada vez maior desejo de consumir e bombardeio por parte das propagandas? O questionamento é parte fundamental do exercício de educar financeiramente nossos pares e deve ser encarado de forma séria e responsável. A corrida pelo correto gerenciamento de nossas finanças passa por certas “provas”, muitas vezes difíceis, sacrificantes e desestimulantes. De maneira geral, é na lacuna emocional criada quando questionamos os nossos desejos que as empresas atuam de forma mais incisiva. Um comercial, por exemplo, é uma ferramenta puramente emocional. O seu dinheiro não é.

Eliana Bussinger, mestre em Economia pela FGV-SP e colunista dos sites Infomoney, Mulher Invest e Vya Estelar, explica essa relação:

“A sociedade brasileira, que está mostrando uma face de maior sofisticação na última década, impele as pessoas a copiar o estilo de vida que vêem retratado nos programas de televisão. No comercial da margarina, não queremos apenas a margarina. Queremos tomar o café da manhã com uma mesa tão bem posta quanto a do comercial: o mesmo jogo de pratos, os talheres, os armários maravilhosos de cozinha, as flores sobre a mesa, o lindo cão de caça golden retriever”

É visível o quão além da “margarina” as pessoas andam tentando chegar. Isso é o que torna a indústria da propaganda ainda mais resiliente e lucrativa. E há de ser assim, afinal eles são profissionais e também merecem sucesso. Do lado de cá, do lado das pessoas que se importam com seu dinheiro, estamos nós, voluntários e profissionais, lutando por qualidade de julgamento e informação. Equilibrar oferta e demanda sempre foi um desafio para os profissionais envolvidos com mercado e economia. Acredite, na sua casa, na sua vida pessoal, não é diferente.

Neste cenário de estabilidade econômica, inflação controlada e consequente aumento do poder de compra, a enorme oferta de produtos e seus belos comerciais são amplamente absorvidos pela população brasileira. Simplificando, a publicidade nunca funcionou tão bem. Aqui, não cabe um estudo estatístico específico da área, mas uma breve opinião sobre o enorme universo de pessoas que se enforcam para viver além da “margarina”. Crédito obtido de maneira fácil, muitas compras parceladas e dívidas roladas indefinidamente são a realidade de muitos brasileiros e seria hipocrisia de nossa parte tratar o tema com falso moralismo. A verdade, mais cruel, é que a grande maioria de nós não vai conseguir sair das dívidas ou investir no futuro se quiser seguir o estilo de vida que nos mostram na televisão ou nas revistas.

Atitude e informação.
A transformação das indústrias de tecnologia, comunicação e publicidade também foi acompanhada pela evolução das alternativas financeiras de investimento e poupança. Em suma, os bancos e serviços financeiros sofreram grandes mudanças nas últimas décadas, apresentando alto grau de sofisticação em alguns segmentos. Isso significa notar mais produtos disponíveis para o consumidor, melhores chances de obter maior rentabilidade e possibilidade de planejar melhor o futuro. Cabe a nós optar por estudar melhor estas alternativas.

Vejo pessoas estudando por diversos dias a compra de um novo televisor, pesquisando aspectos técnicos, preços, prazos de entrega e suporte pós-venda. Tal atitude os classifica como cidadãos inteligentes, responsáveis e diferenciados. Não raro, essas pessoas não gastam nem metade do tempo dedicado ao produto para investigar sua capacidade de pagamento, seu fluxo de caixa e sua real necessidade diante da oferta. Onde está a coerência? A questão não é tão simples quanto parece, é verdade. Informações sobre a TV podem ser encontradas com uma facilidade incrível, tanto na internet quanto fora dela. Informações e análises corretas de seu orçamento familiar, dos produtos bancários disponíveis em seu banco e do seu futuro financeiro ainda estão em falta nas “prateleiras” brasileiras. Bem vindo ao mundo real, onde a coerência é fruto do relacionamento entre “tubarões” e “sardinhas”.

Sardinhas e tubarões?
Para alguns, os termos representam o funcionamento de parte do mercado financeiro. Os inocentes, carinhosamente apelidados de “sardinhas”, acabam sendo engolidos pelos “tubarões”, os verdadeiros investidores e especuladores. A comparação é válida, engraçada e verídica, mas extrapola o mercado especulativo e de ações. Onde há alguém querendo vender bem seu produto, deve haver alguém querendo comprá-lo, ou a cadeia produtiva não se encerra. Cabe ressaltar que muitas vezes esse relacionamento é “forçado”. Ouso agregar minha opinião à metáfora:


Não se trata de uma guerra

A publicidade, o comercial e a propaganda precisam existir. Eles são o ponto de contato entre uma empresa e seus clientes, são uma ferramenta de adaptação à opinião dos consumidores. Como um profissional não relacionado à publicidade, limito-me a dizer que tudo isso é relevante porque nos coloca diante de novas oportunidades.

É claro que as grandes empresas, tidas por alguns como “tubarões”, criam oportunidades pelo bem do negócio. No entanto, a mordida final só acontece com anuência da “sardinha”. Que guerra dá ao inimigo a opção de sobreviver? Vivemos no capitalismo (parem de negar isso) e diante de uma economia de mercado, de oferta versus demanda. Ainda assim, o dinheiro só sai do seu bolso se você quiser.

Não adianta limitar nossa exposição ao que é bacana, barato ou legal. Censurar, limitar e reclamar são atos que transferem a culpa aos outros. Não adianta limitar a demanda, reprimindo a inovação e a criatividade das empresas. A solução, a meu ver, é mais objetiva e menos dramática: cabe a nós definir o limite do que é bacana, barato ou legal. Se mesmo depois de bem avaliados os aspectos financeiros da negociação, você decidir consumir, a “mordida” será pequena e o “machucado” certamente cicatrizará.

No www.dinheirama.com você pode ler minha opinião sobre outros temas, como educação financeira, investimentos, ações e economia.
 
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/oferta-demanda-sardinhas-e-tubaroes/20604/