A primeira vez que me interessei apaixonadamente pelo estudo da inteligência humana deu origem a meu primeiro livro. Se intitula '5 Mil Anos de Transportes' (1980) e está esgotado. Tem 500 páginas e 200 fotos. Para a época foi um empreendimento pessoal que me exigiu grande esforço pois não havia nem computadores nem internet e todo o trabalho de pesquisa exigiu intensa troca de correspondência com centenas de instituições de todo o mundo, incluindo a NASA (que me forneceu elementos para o 17º e último capítulo que procura desvendar o futuro dos meios de transportes). Mais tarde, esse livro serviu de base a minha tese de doutoramento em Investigação que incidiu sobre a relação entre Inteligência e Criatividade. Depois de investigar como, ao longo dos últimos 5 mil anos, o ser humano foi capaz de conceber e desenvolver diferentes formas de se deslocar no planeta, permitindo-lhe incrementar as trocas comerciais, promover a expansão marítima, a conquista do ar e a aventura no Espaço fiquei ciente de que para a 'inovação empreendedora' a necessidade constitui um dos principais, senão mesmo o principal, factor de criatividade. De fato, com raras excepções, é devido a necessidade de resolver problemas que a nossa mente age em busca de soluções. Não havendo esse sentimento, ficamos embalados no conformismo e na acomodação das situações. E então nada acontece de novo. Fundamentos históricos da inteligência criadora Nossa espécie é muito recente na história do planeta. Ela terá entre 150 mil e 200 mil anos. Surgiu a partir de ancestrais cujo aparecimento é muito anterior, no mínimo 2 a 4 milhões de anos. Mas até recentemente – cerca de 10 mil anos – nosso cérebro não mostrou grandes feitos. Os primeiros indícios de inteligência criadora datam de apenas há 300 ou 400 mil anos, com as primeiras lâminas em pedra criadas para rasgarem e prepararem peles. Depois foram surgindo outros tipos de instrumentos. Por exemplo, há cerca de 120 mil anos já havia ferramentas em osso. E, mais recentemente, há uns 40 mil anos, a inovação de pontas de projétil usadas como armas, serviram para caçar animais de uma distância segura e também para uso nas lutas entre tribos rivais. Veja-se agora o reflexo destas primeiras inovações no progresso social. O aumento do número de artefatos para trabalhar, caçar e lutar incentivou a cooperação entre famílias e tribos, promovendo-se dessa forma o desenvolvimento de redes sociais e o estabelecimento de acordos. As trocas de produtos começaram a processar-se a um ritmo crescente. A melhoria de contatos facilitou maior proteção entre grupos e com isso o aumento da população. A competição agudizou-se igualmente e o progresso começou a tornar-se numa marca da genialidade humana. Entre 50 mil e 20 mil anos atrás ocorreu, por fim, uma mutação genética em algum grupo socialmente mais ativo que teve o efeito de tornar o cérebro de seus membros capaz do chamado pensamento simbólico e da linguagem. Estas novas aptidões cognitivas tornou-os mais inteligentes tendo com isso adquirido uma vantagem considerável sobre os povos não-portadores de tal mutação que, por via disso, foram sendo ultrapassados e substituídos. Com a capacidade pensar simbolicamente e de usar a palavra como instrumento de comunicação de ideias e conhecimentos, nossos ancestrais mais diretos rapidamente se tornaram autónomos. Criaram a agricultura, a pastorícia, o comércio e demais atividades. E com elas, novas ferramentas, novos processos de trabalho e de negócio. Mais recentemente, o dinheiro – outra invenção genial – facilitaria as atividades mercantis. Barcos e carros de tração animal começaram a transportar mercadorias para paragens cada vez mais longínquas. A primeira grande onda de progresso estava em movimento! Competição comercial incentiva inteligência criadora O papel do comércio no desenvolvimento da inteligência humana não pode ser ignorado. Foi graças a ele que a navegação se desenvolveu com a criação de mais e melhores embarcações que puderam entao viajar até mais longe e com maior segurança. Foi através do comércio que muitos povos isolados iniciaram intercâmbios com outras populações, adquirindo novos produtos, modas e conhecimentos. O comércio incentivou a aplicação da aritmética e da linguagem, a invenção da escrita e do papel, a criação de estradas, etc. As necessidades crescentes de consumo e a satisfação da curiosidade levaram o cérebro humano a desenvolver mais ramificações internas entre os neurónios, como acontece com os bebés á medida que crescem e aprendem coisas novas. As pessoas se tornaram mais espertas, mais ágeis no pensamento prático e na resolução de problemas. A competição continuou a crescer. Umas vezes conduziu a guerras devastadoras e à escravatura de povos. Outras vezes turbinou a inteligência criadora melhorando processos de trabalho, desenvolvendo ferramentas, acelerando a criação de novos produtos em diferentes tipos de materiais (barro, ferro, estanho, etc.). Essa competição esteve sempre na base do progresso técnico, social, cultural, artístico e económico. Já não era a necessidade de sobrevivência que ditava as leis mas a necessidade de riqueza, comodidade, bem-estar e poder. No século XXI a inovação em gestão é vital Desde a invenção da roda que 5 a 10 mil anos se passaram. Os primeiros carros de tração animal usados no transporte de colheitas e mercadorias datam de há 3 a 4 mil anos. Os primeiros achados de veículos em madeira foram detetados na antiga Suméria, no Próximo Oriente, onde se desenvolveram grandes cidades comerciais. Em 5 mil anos o mundo se transformou profunda e radicalmente. Podemos encontrar diferentes ondas. Alvin Tofler descobriu três. A primeira durou até à revolução industrial e era dominada pela agricultura. Depois seguiu-se a era industrial e, finalmente, a sociedade da tecnológica que hoje vivemos, com toda a complexidade de sistemas, processos e redes. O mundo se tornou numa 'aldeia global', ficou 'plano'. O incremento das relações humanas e a facilidade com que se processam atingiram valores impensáveis há apenas 20 anos. De um momento para outro, as organizações humanas viram-se confrontadas com a necessidade de novas formas de gerir seus negócios e interesses em todos os domínios: na produção, na comercialização, no financiamento, nas relações com os consumidores, etc. As regras e as práticas da era industrial começaram a ficar obsoletas e a darem mostras de incompatibilidade com a natureza complexa, ambígua e indeterminada dos tempos atuais. O simples método da previsão, tão em voga na sociedade fabril, deixou de funcionar. Toda a previsão em negócios é agora um exercício de alto risco dada a cada vez maior instabilidade dos mercados, as modificações observadas ao nível da psicologia dos consumidores e ao cada vez mais curto ciclo de vida dos produtos. A atual era exige dos gerentes e administradores novas competências e sobretudo novos talentos. Já não basta ter vocação ou paixão pelos negócios. Isso não é garantia de sucesso. Agora é preciso mais, muito mais. As empresas se sentem cada vez mais na necessidade de contratarem os melhores colaboradores, não apenas os das posições superiores mas também os que desempenham atividades mais rotineiras e até aqui pouco estimadas como a das recepcionistas. Na verdade, a era que vivemos já não é a da informação e do conhecimento. Estamos sim na era da inteligência e do pensamento competitivo. A inovação em gestão e em governação é vital. A atual crise financeira internacional é o reflexo de mudanças subterrâneas que estavam acontecendo e que anunciavam a nova era. Quase todas as empresas, mesmo as mais bem dotadas de genialidade, foram apanhadas de surpresa e assistem, incrédulas, ao desmoronar de crenças, normas, práticas, ideias e processos que serviram adequadamente na sociedade fabril mas que se tornaram quase inúteis nos novos tempos. É tempo de pensar rapidamente no que fazer. É urgente inovar na gestão. Não basta o apoio dos governos para a crise económica que afeta todo o mundo. Isso será apenas uma panaceia para cobrir problemas financeiros imediatos. É tempo de agir e preparar o futuro que já está à nossa frente. A inovação passará também pelo ensino e a formação, setores que em geral se encontram desajustados das necessidades da era da inteligência. Um novo tipo de pensamento prático se torna urgente desenvolver nas escolas, nas universidades e nas empresas. Finalmente, as leis de Darwin – que explicam a evolução dos sistemas vivos – estão mais atuais do que nunca no mundo empresarial: só os mais fortes, competitivos e inteligentes sobreviverão. Mas, ao contrário do que se passa no reino animal, onde a evolução acontece geralmente de forma gradual, sem grandes rupturas e descontinuidades, no mundo das instituições e das empresas, a evolução pode ser marcada por grandes saltos, bruscas viragens de direção e eventos muito rápidos e imprevisíveis. Assim sendo, razão terão alguns visionários que profetizam o desaparecimento de mais de 80% das empresas atuais nos próximos 5 a 10 anos em todo o mundo! É que poucas terão massa cinzenta apurada para discernir sobre o que fazer realmente. Continuarão agindo como na era fabril, incrédulas perante o infortúnio e a surpresa da mudança. Fecharão suas portas. Felizmente para a sociedade e a economia, ficarão aquelas que estão despertas para a natureza das transformações que terão de enfrentar e também as empresas de nova geração que estão desabrochando no horizonte. Finalmente, deixem-me que lhes diga o seguinte: as empresas atuais não podem agir como fizeram os proprietários das diligências do século XIX quando se aperceberam que o caminho de ferro podia ditar o seu fim. Durante anos protestaram contra o novo meio de transporte, clamaram por apoios dos governos e dos parlamentos. Lançaram boatos. Atentaram contra ferrovias. Fizeram explodir locomotivas. Nada feito. Há muito tempo que não há diligências nas estradas. Os tempos que vivemos são complexos e tempestuosos. Mas o mundo ficará melhor servido, com renovadas e melhores empresas, quando a turbulência abrandar. Assim espero. Adaptado de “Os Feiticeiros da Espiral”www.osfeiticeirosdaespiral.blogspot.com Veja tambémwww.infoinstitutodainteligencia.com ….