22 de fevereiro de 2010, às 14h30min

Ouvir o galo cantar não é conhecer

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Eugen Pfister

No final de um treinamento gerencial com foco no comportamento, aproximadamente 80% dos participantes juram de pés juntos que conheciam o tema apresentado, o que sugere que esperavam novidades.

O suposto conhecimento prévio não é o problema. Com sorte e boa vontade, houve uma reciclagem cognitiva e, eventualmente, um ou outro treinando há de aplicar parte do treinamento. Contudo, meio conhecimento, meia técnica, meio comportamento é pouco. Imagine um engenheiro empregando parte do que sabe para calcular as fundações de um prédio; ou um cardiologista usando parte do que aprendeu numa operação cardíaca.

O problema é que a busca de novidades tornou-se o principal chamariz dos treinamentos. A demanda pelo novo é proporcional ao baixo índice de transferência de aprendizagem da sala de aula ao ambiente de trabalho: quanto menos aplicável for o treinamento, mais treinamentos são feitos na esperança que um dia esse despautério funcione. A vitória do cocoricó – “já vi isso noutro curso”, “já fiz essa dinâmica”, “já preenchi um questionário semelhante“, etc - sobre a aprendizagem é completa.

Os mais cínicos exclamarão: “e daí?” “Instrutores e participantes sabem que ninguém será cobrado (ou elogiado) por ter posto em prática os ensinamentos recebidos”. É frustrante, seja pelo desperdício do investimento, seja para os profissionais de RH que almejam ganhar a vida produzindo resultados.

Agora, por que treinar se os treinandos já “conhecem” a matéria? E depois, o que significa “eu conheço, já vi, já fiz, já etecetera e tal”. Para mim, quase sempre, esse o cocoricó significa apenas: “já ouvi o galo cantar num outro seminário”. Raramente expressa: “apliquei, avaliei os resultados, colhi os frutos e expandi o meu conhecimento, minhas habilidades e aprimorei meu comportamento e as minhas competências”.

A impressão que fica é que RH ignora, solenemente, a relação entre a erosão da verba para T&D e a falta de retorno sobre os investimentos. Para piorar o quadro, o estoque de novidades que nutriu a indústria de treinamento até há pouco tempo minguou.

O propósito de T&D é resolver problemas individuais, grupais e organizacionais de desempenho no lugar de empanturrar os treinandos com novidades, dinâmicas eletrizantes e pirotecnia audiovisual.

Para cumprir a sua missão, urge que T&D cesse de confundir conhecimento autêntico que transforma a realidade, com informação que permite que o participante manipule meia dúzia de conceitos próprios de um determinado campo do saber organizacional e domine os jargões da moda.

Cá entre nós, como ter certeza que aprendemos a lição sem testar o saber adquirido na resolução de problemas do dia a dia? Portanto, basta de cocoricó: ouvir o galo cantar não nos converte, necessariamente, em avicultores.

eugen@eperforma.com.br

 

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Autor

Formei-me em Ciências Sociais e Humanas pela Universidade de São Paulo. De ofícios, fiz de tudo um pouco: office-boy, professor de inglês, história, cultura geral, recreacionista na AACD, executivo do movimento escoteiro, analista de treinamento e gerente de desenvolvimento de Recursos Humanos.


Na área de Treinamento e Desenvolvimento atuo como instrutor de programas de liderança, competências gerenciais, análise de problemas e tomada de decisões, team buildiing e team work, ética nos negócios, vendas, negociação, delegação e follow-up desde 1975; e como consultor atuo em DO, T&D Focado em Resultados e como management coach desde 1981.


Tenho dois filhos, plantei mais de 500 árvores, pois participei de uma campanha de reflorestamento; escrevi um livro e tenho outros dois a caminho. Escrevo por gosto e por encontrar na escrita uma forma de fazer o pensamento e a mente viajar para terras nunca dantes visitadas.


Sou sócio diretor da Estação Performance uma consultoria especializada em transformar conhecimentos em resultados e hoje  dedico meu saber e experiência a duas paixões profissionais antigas que ocupavam apenas parte do meu tempo: aprimorar a performance humana e organizacional; e fazer com que as teorias gerenciais e organizacionais funcionem na prática.


eugen@eperforma.com.br 

 

 
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