05 de março de 2010, às 15h56min

Passam 10 anos sobre o crash do Nasdaq

É já na próxima quinta-feira que se “comemora” o crash do Nasdaq. A derrocada da bolsa nova-iorquina das empresas tecnológicas dar-se-ia a 11 de Março de 2000 e depois a 28 do mesmo mês, e finalmente entraria num plano inclinado, sem retorno, depois de 14 de Abril.

Por Jorge Nascimento Rodrigues
 
O filme é conhecido. O índice do Nasdaq saltou de 2600 pontos em Abril de 1999 para mais de 5132,52 pontos no pico histórico durante a sessão de trading 10 de Março de 2000. Depois desceria, mas voltaria a subir até aos 5040 pontos a 27 de Março, criando a ilusão de que a derrocada inicial teria sido passageira, em “V”. Mas, mortiferamente, a partir de 28 de Março voltaria a cair espectacularmente até 14 de Abril (34% em duas semanas e meia), e até ao final do ano num processo em ziguezague, fechando nos 2251,7 pontos.

Em Fevereiro, na janelanaweb.com, havíamos reportado rumores de crash iminente.

 

A quebra do Nasdaq no dia 14 de Abril foi de 10%, a quarta maior da história das bolsas americanas num só dia. Os maiores pânicos financeiros diários em Wall Street até à data foram a 19 de Outubro de 1987 (a célebre Black Monday) e em 19,28 e 29 de Outubro de 1929 (datas ordenadas por ordem decrescente da dimensão da queda bolsista). Na mais recente crise financeira de 2007/2009, a maior queda diária em Wall Street ocorreu a 15 de Outubro de 2008, durante o pânico financeiro, e foi de 7,87%.

 

Um caso de estudo

 

A velocidade da derrocada do Nasdaq ainda hoje é um caso de estudo. A quebra seria de 56% em apenas dez meses, enquanto, no mesmo período na crise de 1929/1930, a queda seria de 31% e entre Outubro de 2007 e Julho de 2008, na primeira fase da crise recente, foi apenas de 18%. Entre o pico da bolha do Nasdaq em Março de 2000 e o ponto mais baixo desta crise em 9 de Outubro de 2002 - quando o índice tecnológico atingiu 1114, 11 pontos - a derrocada somou quase 80%. Segundo os cálculos da altura do analista Peter Cohan, a destruição de valor durante esta derrocada teria atingido os 6 triliões de dólares, 60% do PIB americano naquele ano. Quase dez anos depois, o Nasdaq ainda está abaixo dos 2300 pontos, no patamar em que fechou o ano de 2000.

 

Durante a euforia das dot-com, o rácio do preço das acções em relação aos ganhos (designado em inglês por P/E, price earnings ratio, ou simplesmente por múltiplo) no conjunto das 500 empresas cotadas incluídas no índice da Standard & Poor’s (que abrange todas as bolsas americanas) havia chegado a valores superiores a 44, acima dos 32,5 que atingira em Setembro de 1929, como então o sublinhou Robert Shiller, o académico de Yale que publicaria em Abril de 2000 um livro marcante, precisamente intitulado “Exuberância Irracional”.

 

No caso do Nasdaq, o múltiplo atingiu em 1999 mais de 200 e em 2000 ainda estava nos 125! Shiller disse-nos, então, em entrevista à janelanaweb, “que não havia paralelo”. O volume de negociação no pico do Nasdaq chegou a atingir o dobro do que ocorria no New York Stock Exchange, onde estavam cotadas as empresas da “velha economia”.

 

As duas bolhas seguidas

 

Mas o que parecia estar enterrado em finais de 2001 voltou a renascer das cinzas, não no Nasdaq, em Times Square, mas nas bolsas tradicionais em Wall Street, na baixa de Manhattan. O índice Dow Jones, depois da quebra de 2001, subiria ao máximo histórico de quase 14 100 pontos em 15 de Outubro de 2007, segundo a Barron’s.

 

Carlota Perez, investigadora em Cambridge, no Reino Unido, especialista em ciclos tecnológicos, fala de um padrão de duas bolhas associadas nesta última revolução das tecnologias de informação. Uma primeira fase de “instalação” em que a exuberância irracional campeou pelas novas empresas tecnológicas, alimentando uma primeira bolha e depois uma derrocada, a que se seguiu alguns anos depois (menos de uma década) uma bolha financeira e um crash mais amplo e global.

 

Mas a seguir a essa tormenta, poder-se-á seguir o bom tempo, uma fase de “posicionamento” e “maturidade” da nova tecnologia, uma era de ouro. A investigadora garante que estamos em transição para essa era, ainda que admita que se fique por algo menos radiante, meramente “dourado”: “Esse é o perigo que corremos hoje”. Se não forem adoptadas medidas de contenção da financeirização e de prioridade ao capital produtivo, diz a investigadora na entrevista que nos concedeu (que pode ser lida aqui em inglês).

Um ensaio de análise mais desenvolvida sobre esta década poderá ser lido aqui. Há um conjunto de implicações para a gestão estratégica quer no médio como no longo prazos de que os CEO deverão estar alerta.

 

 
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/passam-10-anos-sobre-o-crash-do-nasdaq/43005/