21 de fevereiro de 2012, às 11h16min

Pobres mulheres ricas

Em Mulheres Ricas, as mulheres não têm culpa. Elas são apenas fruto da necessidade insaciável da mídia pelas coisas banais e da vontade incontrolável do ser humano para falar mal dos outros, de prejulgar e de preconceber valores diferentes dos seus.

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Fala sério! Você gostaria de ser uma das celebridades participantes do programa Mulheres Ricas, exibido pela BAND, ou do BBB, exibido pela Globo? Ainda não encontrei pesquisas sobre o assunto, mas algo me diz que, se a população fosse consultada, mais de 90% não hesitaria em emitir um sonoro "sim".

Em tempos de celebridades fabricadas da noite para o dia, há muita gente concentrada num único objetivo: tornar-se uma celebridade instantânea e carregar a vaga esperança de ficar rico num piscar de olhos. E o pior de tudo isso é que existem pais que incentivam os filhos a perseguir objetivos dessa natureza ou profissões para as quais eles não têm a mínima afinidade ou vocação.

Mulheres Ricas é um pouco diferente. O programa é uma péssima mistura de reality show com exibicionismo e pobreza de espírito, afinal, o que pode ser mais pobre do que ver e ouvir alguém que se diz rico esbanjar dinheiro em coisas tão banais quanto a existência do próprio programa?

Alguém me diz que a televisão é entretenimento, mas, perdoe a minha falta de sensibilidade com o gosto do público que aprova esse tipo de programa: o que se pode aprender com falsas celebridades ricas tentando ensinar as pessoas a gastar dinheiro inutilmente em coisas que só servem para empobrecer o espírito?

É impossível contradizer o fato de que a televisão e a própria internet democratizaram o acesso à informação em todos os cantos do mundo, exceto para algumas culturas fundamentalistas do Oriente Médio e outras mais fechadas como a chinesa.

Da mesma maneira, é impossível negar que esse excesso de democracia também facilitou a ridicularização do ser humano através da banalização do corpo, da violência gratuita e da hipocrisia disfarçada de reality show. É o ser humano no seu estado mais primitivo, o qual se rendeu ao entretenimento de baixo nível em troca de quinze minutos de fama e alguns anos de decepção.

De minha parte, talvez eu esteja ficando velho e crítico demais, não dá para entender o que se passa na cabeça das pessoas que adoram esse tipo de programa, por algumas razões básicas: 1) não acrescentam nada ao baixo nível de cultura da população brasileira, em geral; 2) a maioria das colocações constitui uma afronta à inteligência das pessoas que conquistaram sua riqueza através do trabalho duro; 3) a superficialidade das ideias e o esbanjamento por si só ofende os milhares de excluídos desse país que lutam para conseguir ao menos uma refeição decente por dia.

Há muita coisa boa na televisão, entretanto, a impressão que se tem é a de que coisas boas são inúteis. Chego a pensar que o povo gosta mesmo é de sacanagem. A maioria quer ver o circo pegar fogo, como se diz na gíria. Bobagens dessa natureza são prato cheio para a mídia, caso contrário, certos programas não passariam do segundo episódio.

O que leva alguém a ser convencido de que isso é útil para o público? Não consigo imaginar outra coisa senão aquela vontade incontrolável de derrotar o concorrente, de conquistar mais pontos no IBOPE, de apresentar qualquer besteira que manipule o pobre telespectador e faça com que ele desperdice seu precioso tempo, desde que isso renda milhares de reais em anúncios.

Pós-modernidade? Sim. Oportunismo e mediocridade? Em absoluto, na sua mais pura essência. Contudo, segundo especialistas, trata-se do direito sagrado concedido ao ser humano para expor-se ao ridículo, sob pena de ser idolatrado ou execrado pelo julgamento popular.

Na prática, não deixa de ser uma escolha. Se é boa ou ruim, quem pode dizer? Apenas quem sente na pele a experiência de se expor abertamente pode testemunhar, mas o ser humano é orgulhoso por natureza. Prefere omitir a dizer que foi algo sem cabimento nem propósito.

Lições de tudo isso? Sempre existe alguma. Em Mulheres Ricas, é quase impossível. Penso que nem mesmo as protagonistas aprendem com isso. Se fosse possível extrair alguma lição de tudo isso, não diriam tanta bobagem coordenada pela produção. Mas o que importa de fato é estar em evidência na mídia.

O velho ditado ainda permanece: falem mal, mas falem de mim. Meu ego vale mais do que a minha reputação. É triste, mas é a realidade, contestável sob o ponto de vista moral e ético, porém, incontestável para o gosto popular.

Em Mulheres Ricas, as mulheres não têm culpa. Elas são apenas fruto da necessidade insaciável da mídia pelas coisas banais e da vontade incontrolável do ser humano para falar mal dos outros, de prejulgar e de preconceber valores diferentes dos seus.

Programas assim só existem porque, de certa forma, atendem ao clamor popular e correspondem à natureza humana de esconder os próprios defeitos. Sua audiência será cada vez maior, desde que não retire das pessoas a possibilidade de rir e julgar descaradamente as esquisitices alheias.

Pense nisso e seja feliz!

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Autor

Administrador, Coach, Professor Universitário e Palestrante, apaixonado por Empreendedorismo. Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE.

Livros Publicados:

- Empreendedorismo para Jovens (Atlas)

- Manual do Empreendedor (Atlas)

- Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark)

- Benditas Muletas (Vozes)

- Encontro das Estrelas (Canção Nova)

- Benditas Muletas (Nueva Palavra, México)

Site: http://www.jeronimomendes.com.br

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