Nos dois últimos textos explorei as origens do pensamento positivo e da auto-ajuda, além dos motivos pelos quais vejo tais movimentos como prejudiciais. Mas por que então, perguntará a leitora, essas tão insidiosas práticas continuam amealhando cada vez mais adeptos? Pois a culpa é do golfinho...
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Em Mistakes Were Made (But Not by Me) conheci a ilustrativa parábola do golfinho benevolente: vez ou outra os jornais noticiam algum naufrágio onde um sobrevivente é escorado até a praia por um golfinho que, solidário, acaba por salvar-lhe a vida.
Constrói-se, assim, uma imgem de heroísmo e bondade dos cetáceos.
Mas será esta imagem merecida? Não haverá aqueles golfinhos sacanas que ficam empurrando pobres náufragos mais para longe da costa, ou dando-lhes caldos apenas por diversão?
Provavelmente nunca saberemos, pois se o náufrago morre, ele não pode voltar para contar sua trágica história. E, assim, solidifica-se a crença de que os cetáceos são bons por natureza*.
Do mesmo modo que o afogado não delata o golfinho - porque ele morreu, lembra? - o obeso que não emagreceu com a última dieta da moda também não escreve um livro explicando os motivos do seu fracasso. Nem o investidor falido conta no Programa do Jô o triste caminho da sua bancarrota.
Normalmente ouvimos apenas um lado da história. Quase sempre o mais glamoroso. O resultado disso é que para todas as receitas de riqueza e sucesso abundam relatos felizes de pessoas que atingiram a glória, sem que haja uma única voz dissonante. O sucesso tem vários pais, mas o fracasso é sempre órfão.
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A grande mentira por trás destas doutrinas de sucesso fácil, ou de cura através do pensamento, é que a maioria delas está baseada em observações isoladas - ou anedóticas, no jargão técnico.
Parabéns, Sr. Gardner, mas cadê os fracassados?
Funciona mais ou menos assim: uma pessoa vai comprar pão na padaria e, porque seu filho dormiu na casa da namorada ela traz um pão a menos e, por isso, recebe uma moeda a mais de trôco.
No caminho para o trabalho, ela dá essa moeda a um pedinte, porque ela (a moeda) estava fazendo barulho no painel do carro. Chegando ao escritório, o chefe promove essa pessoa - que era sua terceira opção, porque a primeira virou monge e a segunda foi para um emprego melhor.
Na eterna ânsia de encontrar explicações para tudo o que lhe acontece - pois assim mantém a impressão de que está no controle - a pessoa credita sua promoção ao fato de ser uma pessoa caridosa. Ela esquece de considerar, todavia, que a moeda estava ali por acaso e que ela também foi promovida por acaso.
Estes dois acasos representam para ela, contudo, uma nítida relação de causa e efeito, isto é, ela foi promovida porque deu uma esmola. Assim convencida, ela começa a pregar para seus amigos e vizinhos que é dando que se recebe, a caridade leva à prosperidade e outras baboseiras semelhantes.
Isso não parece muito inteligente, não é mesmo? Mas uma única observação serve de base, muitas vezes, para uma nova onda motivacional, um inédito modismo gerencial, uma inovadora dieta milagrosa ou uma abençoada religião libertária.
A psicologia descreve este fenômeno como availability bias (ou viés de disponibilidade), onde a probabilidade de eventos futuros tendem a ser previstas de acordo com aquilo que está mais próximo de nós - seja fisicamente ou num espectro temporal.
E como ouvimos apenas as histórias de sucesso dos últimos livros de auto-ajuda, pensamos que tudo sempre dará certo para todo mundo enquanto que, na realidade, trata-se apenas de profecias auto-realizáveis.
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Normalmente estas explicações poderiam ser suficientes para fragilizar as bases de grande parte das lorotas que por aí abundam. Mas por que não são?
Porque as pessoas preferem acreditar mesmo no que sabem não ser verdade. Gostam de alimentar sonhos baseados em falácias. Escolhem entregar suas vidas a fantasias. Das quais acordam sempre tarde demais.
Você já ouviu um General dizer ao seu Chefe de Estado-Maior que "eu e os rapazes fizemos uma corrente de pensamento positivo e tenho certeza de que venceremos o inimigo na batalha de amanhã"?
Ou moraria num prédio cujo engenheiro calculista afirme "tenho muita fé que essas pilastras aguentarão e o edifício não desmoronará, amém"?
A resposta para ambas as perguntas é "não", certo? Então por que você continua agindo assim em ouutros aspectos da sua vida?
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* A orca, por sua vez, não tem uma assessoria de imprensa tão boa e, deste modo, coube-lhe o vulgo de "baleia assassina". Tudo bem que nem baleia ela é, mas tem a descuidada mania de deixar testemunhas de seus crimes.
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