Pós-Guerra: Uma nova ordem econômica mundial
Entre o final da Segunda Guerra Mundial e a crise do petróleo em 1973, a economia capitalista assistiu a um longo processo de crescimento econômico, vulgarizado como a Era de Ouro. Durante quase 30 anos, os indicadores sociais dos países industriais melhoraram sensivelmente.
Políticas de assistência social foram adotadas para amparar os trabalhadores em situação de desemprego, doença e velhice. O consumo popular passou a ser o carro-chefe da expansão da economia. A inovação tecnológica e a obsolescência programada dos produtos faziam girar as grandes estruturas industriais. Já para os países do chamado Terceiro Mundo, não se pode generalizar a expressão "era de ouro". Algumas regiões expandiram-se rapidamente, como certos países da América Latina e do Extremo Oriente. Entretanto, na maior parte dos países africanos, no sudeste asiático e na península indiana, as lutas de descolonização deixaram profundas cicatrizes, cujos reflexos ainda persistem.
A crise dos anos 70, entretanto, deteriorou aquelas condições. A contração do mercado mundial e a crise energética foraçaram as economias a se adaptarem a um ambiente caracterizado por maior concorrência. Do ponto de vista das grandes corporações multinacionais, as regras do jogo, até então prevalecentes, já não serviam mais. A aliança implícita que existia entre elas e os trabalhadores organizados dos países centrais, que ajudavam a impedir o avanço do comunismo, tornara-se obsoleta nos anos 80, quando o bloco socialista apresentava sinais de exaustão e partia de um socialismo de estado para um socialismo de mercado- este mais estável e menos militarizado. O socialismo passou a ser defendido muito mais por seus resultados do que pela força das armas. Desse ponto de vista, os subornos sociais necessários para minizar a luta de classes nos países centrais já não deveriam ser tão generosos.
Do ponto de vista microeconômico, as empresas passaram a adotar estratégias para um mercado cada vez mais restrito e sujeito a grandes flutuações. Como se sabe, desde 1973, a economia mundial tem experimentado ciclos de crescimento cada vez mais curtos- dois ou três anos de crescimento e outros dois ou três de contração. a economia deveria se tornar mais adaptada a estes solavancos por meio de mais flexividade para se estabilizar. As garantias sociais que protegiam humanamente o trabalhador deveriam ser mais limitadas ou até eliminadas. Afinal, a grande empresa privada necessitava de margem de manobra para enfrentar uma concorrência mais acirrada.
Como decorrência dessa situação, as grandes plantas industriais de padrão fordista foram fragamentadas a partir de estratégias de terceirização . Também o modelo japonês de gestão baseado no estoque zero e na produção por encomenda (just-in-time) passou a ser adotado nos Estados Unidos e na Europa. O mercado de massa foi substituído pelo mercado de nichos e de segmentos. Artigos que demandavam muita matéria-prima foram miniaturizados. O chip de computador passou a figurar como peça-chave em quase todos os dispositivos industrializados. Reduzindo os custos com a eletrônica, foram disseminados os computadores pessoais, as placas de fax-modem, a comunicação por cabos de fibra ótica e o satélite de telecomunicações.
A concorrência intermonopolisa levou as grandes empresas a deslocar parte de suas atividades industriais para os países periféricos. A principal explicação para este fenômeno estava na busca por fatores produtivos mais baratos como matéria-prima e mão-de-obra (este movimento não seria contínuo?). Comparativamente, um operário médio da China, do Brasil, da Malásia ou do México recebe menos de 10% de um similar norte-americano, o que força para baixo os custos trabalhistas (paradoxalmente, nestes países as multinacionais constumam pagar maiores salários do que as empresas nacionais). A gestão de unidadades tão distantes das matrizes foi facilitada pelo barateamento nos preços das telecomunicações. Softwares cada vez mais complexos tornaram as tarefas administrativas padronizadas e o cálculo financeiro adequado para apurar, no tempo real, os ganhos e perdas de modificações abruptas nas taxas de câmbio dos diferentes países em que operam aquelas corporações.
Também por conta dessa internacionalização da produção, as operações financeiras aumentaram de forma surpreendente desde 1980. Novos instrumentos financeiros foram criados, como no caso dos derivativos, ou tiveram o uso intensificado, como as operações de hedge. Uma vez que a istabilidade passou a ser regra da economia mundial, os agentes econômicos procuraram se defender das mudanças abruptas de cenários utilizando-se cada vez mais de mecanismos de proteção. Em muitos casos, estes instrumentos foram utilizados para especulação financeira mesmo...
Não obstante a necessidade tangível, as operações financeiras durante as duas últimas décadas têm se caracterizado mais pelo caráter especulativo. São objeto de especulação, no plano mundial, as taxas de câmbio, as taxas de juros, a variação nos preços das commodities etc. Aqui também o desenvolvimento das telecomunicações possibilitou o acompanhamento do mercado financeiro de diferentes países a partir de, por exemplo, um escritório da City de Londres, em tempo real. As posições e os ativos financeiros passaram a mudar rapidamente de mãos na busca pela máxima rentabilidade. Hoje em dia, os próprios sistemas de informática são ferramentas que potencialização e automatizam a ação dos administradores nas posições, por intermédio de ordens limitadas, que compram ou vendem ativos de acordo com a variação dos níveis de preços. Os sistemas também permitem a avaliação simultânea de uma série de variãveis para obter o ótimo de rentabilidade. Outra modalidade de transação financeira é a arbitragem, que consiste em comprar um determinado ativo de um mercado e vendê-lo em outro, por preço mais elevado.
Um caso à parte da financeirização da economia mundial é o crescimento acentuado das dívidas públicas de diversos países. No que diz respeito à adoção de políticas de equilíbrio fiscal, durante os anos 80, é o fato que as dívidas dos principais países dod mundo aumentaram expressivamente. A dívida dos Estados Unidos dobrou entre 1975 e 1995, passando de 35 para 70% do PIB. As dívidas públicas da Itália, Bégica, Suécia e do Japão superaram o respectivo PIB anual. Por um lado, o aumento das dívidas se relaciona com a queda na poupança interna e, por outro, com a internacionalização da rolagem, feita nos mercados financeiros. O mercado passou a ditar o nível das taxas de juros, tonando os governos seus reféns.
Todas as características desse novo quadro do capitalismo, que vêm se desenrolando nos últimos 20 ou 30 anos, possuem um fio condutor único: o acirramento da concorrência entre as nações centrais do sistema, independetemente de arranjos regionais, como a União Europeia- UE, Asia Pacific Economic Cooperation Organization- Apec, ou a North American Free Trade Agrement- Nafta. De fato, empresas norte-americanas, alemãs e japonesas procuram criar no mundo as condições mais adequadas para suas respectivas estratégias; e seus governos assumem papel destacado nessa tarefa.
Diante disso, os organismos financeiros internacionais passaram a defender uma nova ordem mundial. Se a tecnologia já permitia o deslocamento de capitais e de indústrias por todas as partes do mundo, por que restringir tal movimento em razão de interesses locais nacionais? Estava na hora de retomar o antigo discurso liberal: laissez-faire, laissez-passer, o que significou, no final da década de 80, aprofundar a globalização econômica e forçar a abertura de mercados em todo o planeta, particularmente nos países em desenvolvimento.
Para atender às novas necesidades do capitalismo, as regrasque valiam na Era de Ouro já não serviam. O papel dos Estados Unidos em administrar as economias nacionais, principalmente nos países de periferia, não deveria ser tratado como antes. Agora, surgia a necessidade de obter um consenso acerca dos tema sque mais interessavam aos países do centro do sistema: liberdade de circulação de capitais, supressão de restrições ao investimento produtivo, abertura comercial, padronização e padronização de políticas macroeconômicas.
As diretrizes anteriromente citadas foram reforçadas nas políticas de instituições comoo FMI, o Banco Mundial e OMC (exGatt), durante os anos 90. A atuação dessas instituições teria por finalidade uma ordem internacional dita mais solidária, estimulando a integração dos países via comércio internacional e deslocando o capital excedente de um polo do sistema para outro. Seria obtida, assim, melhor alocação de capital, desde que todos os países convergissem em suas pólíticas macroeconômicas. Dessa forma, garantir-se-ia a transparência necessária para a medição da taxa de lucros e dar-se-ia maior segurança aos investimentos estrangeiros diretos. No final do processo, todos os países sairiam vitoriosos: os padrões de consumo setiam equalizados no longo prazo. Os mais pobres se aproximariam rapidamente dos mais ricos, sem prejuízo para os segundos. O economista norte-americano Gary Hubauer defende o livre comércio a oressaltar as virtudes da Aréa de Livre Comércio das Américas- Alca. Ele fala como se o capital responsável pelo aumento do fator não imigrasse em seguida para outra parte, fazendo o mesmo indicador diminuir. Se os investidores externos estivessem interessados em ampliar a produção e a renda de um país periférico, levando em consideração as proporções de população e tamanho do PIB, China, Índia e Indomésia seriam os principais receptores de capitais do mundo desde há muito tempo, e certamente já teriam entrado no clube dos países ricos. Ao contrário, o livre cambismo do século XIX arruinou aqueles países, colocando-os na condição de colônias e subcolônias, cujos efeitos são sentidos até os dias atuais. Esta é uma contradição apontada entre os defensores do livre comércio mas há argumentos deles bem razoáveis que não podem ser menosprezados, tampouco ser analisados de maneira simplista.
Outra característica do capitalismo recente é a tendência para a deterioração dos teros de troca dos países especializados na produção de bens primários. Ou seja, como as nações industrializadas ditam o padrão de consumo para as sociedades periféricas por meio de diversos mecanismos de comunicação de massa, os padrões de consumo dos países ricos são difundidos na periferia, atingindo em cheio o desejo do consumo da população desses países. A variedade de bens introduzidos nos últimos 50 anos oferece uma leve ideia do poder sedutor do padrão do consumo ocidental ou, se pereferirem, do american way of life: automóveis, televisores, gravadores, aparelhos de som, walkmans, computadores pessoais, telefones móveis (ou vários desses produtos reunidos em um só), calçados esportivos, etc...
A estratégia de mercado adotada pelas grandes empresas multinacionais, as principais responsáveis por essa universalização do padrão de consumo ocidental, é direcionada para a obtenção do maior lucro possível, por meio da continuada introdução de novos produtos. Para tanto, fazem uma ánálise detalhada do ciclo de vida de cada um, de forma a identificar o momento em que o mercado de determinado bem entra em saturação, para que novos produtos sejam lançados em seu lugar, impredindo, assim, a perda de lucratividade da empresa.
Pde ser citado como exemplo, de certa forma hipotético, o ciclo de vida de um aparelho reprodução de material audiovisual (video-cassete, dvd player, blue-ray, etc...). Quando de seu lançamento no mercado, o preço do aparelho deveria ser o mais alto possível para que fossem abatidos rapidamente os investimentos em pesquisa e produção. Como se tratava de uma inovação, seu preço estava adequado ao padrão de consumo das famílias de alto rendimento (renda A), que foram as primeiras a adquirir a novidade. Quando esse segmento já estava saturado, foi inventado e video-cassete de duas cabeças, destinado a esse mesmo segmento, mantendo-se o preço do produto. Entretanto, o aparelho de duas cabeças teve seu preço reduzido, com o objetivo de atingir famílias de renda média (renda B), de forma a alargar o mercado consumidor e manter a lucratividade. Nota-se que, quando se atinfe tal situação, a fábrica de vídeo já pode compensar seus custos de desenvolvimento de produto, colocando o bem a um menor preço, mas com grande margem de lucro. Num terceiro momento, quando os mercados A e B já se encontravam saturados, foii inventado o aparelho de quatro cabeças, novamente destinado às famílias de renda A. O aparelho de duas cabeças teve seu preço adequado ao orçamento das famílias de renda B, e o de uma cabeça teve seu preço novamente reduzido, visando o mercado das famílias com menor rendimento (C). Num quarto momento, quando o aparelho não comportava mais nenhuma inovação significativa, a indústria de eletrônicos mudou o paradigma tecnológico e inventou o DVD Player, aparelho para a leitura de discos digitais de alta densidade, o sucedâneio do videocassete. Feito isso, reinicia-se o ciclo do produto, oferencentdo-se a novidade às famílias de alta renda (A) e assim por diante com o Blue-Ray, o leitor de pen-drive, etc...
A introdução de novos produtos industriais contrasta com a suposta rigidez da pauta dos chamados bens primários. Café, açúcar, trigo, soja, frutas lã, algodão, minirais, petróleo, etc, já constavam na pauta do comércio internacional no final do século XIX. Isso fez (e faz) com que a manutenção ou melhoria dos padrões de consumo de suas populações. Mas esse não é o único problema advindo da especialização no comércio internacional.
Essa especialização, baseada na produção de alimentos e matérias-primas, também apresenta inconvenientes, como a inelasticidade-renda do consumo de alimentos (ou seja, quanto maior for a renda do consumidor, menor será a parcela gasta com alimentos), verificada nos países de alta renda, e a crescente diminuição da importância das matérias-primas naturais diante da grande produção de materiais sintéticos, assim como da introdução de nanotecnologias.
Em relação ao primeiro problema, toma-se emprestadas as conclusões do economista alemão Ernest Engel, depois de analisar a composição do consumo familiar. Naquele estudo, ele verificou a exostência de uma relação direta entre a renda familiar e os gastos com alimentação. Engel constatou que nas famílias com rendimentos mais elevados, o montante gasto com alimentação, a partir de certo patamar, não aumenta na mesma proporção que aumenta a sua renda. A representação gráfica dessa tendência ficou conhecida como a Curva de Engel. Tal definição é importante para repensar o problema da especialização, uma vez que o expressivo aumento da renda pessoal nos países industrializados, a partir do final do século XIX, não foi acompanhada pelo aumento do consumo de alimentos produzidos pelos países agrícolas.
Por outro lado, o gasto com artigos industrializados e serviços apresentou uma variação positiva em relação ao aumento da renda, fato comprovado pela grande inovação tecnológica, verificada no mesmo período, pela diminuição gradativa da jornada de trabalho (liberando maior tempo para o lazer), pelo incremento do ingresso de mulheres no mercado de trabalho e pela mercantilização de uma série de tarefas que anteriormente eram realizadas no ambiente do domicílio. Lavanderias, restaurantes, comidas congeladas, turismo, parques de diversão, etc, são exemplos de como o consumo familiar se deslocou durante o último século.
A especialização baseada na produção de matérias-primas também vem sendo prejudicada pelas grandes transformações verificadas na economia capitalista ao longo do último século. O consumo indistrial de ferro, alumínio, cobre, carvão, petróleo, madeira, etc, vem sendo influenciado por pressões para a redução de custos e preservação ambiental e também pela crescente inovação tecnológica. Materiais sintéticos, como plásticos e fibras, têm substituído com grande economia metais, madeira e vidros. A miniaturização e as nanotecnologias- desenvolvidas em grande escala, a partir da crise econômica dos anos 70- também são responsáveis pela diminuição da demanda por matérias-primas. A esse respeito, vale-se da opinião de Joseph Coates. A evolução tecnológica, verificada no desenvolvimento de novos materiais ou de fontes de energia, leva, necessariamente, à diminuição da demanda mundial de matérias-primas, constituindo um grande potencial problema para os países que se especilizaram na produção de tais artigos. A tendência dessas nações de depender da exportação de bens primários diminui sua renda interna e o seu poder de compra no exterior. Apesar de tudo isso, os problemas decorrentes da especialização são ainda de maior envergadura.
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Especializando em Sistemas de Planejamento e Gestão pela Universidade Federal de Santa Catarina- UFSC. CRA-SC nº 600285.







