O consumo compulsivo volta a ser discutido sob a ótica da comédia Os Delírios de Consumo de Becky Bloom. Mas a obsessão por compras pode deixar de ter graça quando vira uma doença psiquiátrica.
Quando uma carta de cobrança chega pelo correio, Rebecca Bloom já sabe exatamente o que fazer. Esconder a correspondência na gaveta da sala ou jogá-la no meio do lixo de uma construção. Afinal, se não chegar a ler, pode dizer que nunca recebeu a mensagem. Rebeca é a personagem do livro Os Delírios de Consumo de Becky Bloom (Editora Record, R$ 33,30), cuja história também está no cinema. Apesar de fictício, o mirabolante trajeto da compradora compulsiva, que mesmo endividada não consegue privar-se do prazer de passar o cartão de crédito, é um problema real.
Para o psicólogo Naim Akel Filho, professor de Neurociência da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) e ex-coordenador do Procon-PR, mesmo parecendo exagero para quem não convive com o problema, todas as dificuldades vividas por Rebecca são compartilhadas por
pessoas oniomaníacas (que têm compulsão por compras). “Por trás de todos os comportamentos compulsivos há dificuldades no controle de impulsos. Acontece com quem é alcoolista, tabagista, jogador compulsivo, viciado por sexo. As pessoas não se saciam, quando começam a emitir um tipo de comportamento não conseguem freá-lo mais”, afirma.
Quem compra muita roupa está sempre bem-vestido, certo? Mais ou menos. Rebecca Bloomwood (Isla Fisher) é jovem, bonita, mas às vezes parece uma árvore de Natal. Tudo ao mesmo tempo agora é seu lema. Laranja e pink são suas cores preferidas. As roupas de Os Delírios de Consumo de Becky Bloom estão mais para Legalmente Loura do que para O Diabo Veste Prada, este com figurino de Patricia Field, que também assina o guarda-roupa da nova comédia da Disney. Numa época em que os filmes que têm a moda como pano de fundo são superaguardados, Patricia, que é o nome por trás das roupas do seriado Sex and the City, reina.
Becky Bloom conhece o idioma de Prada, como ela mesma diz, frequenta as lojas mais badaladas de Manhattan, mas é uma vítima do estilo patricinha. Tudo é muito exagerado: peles, mantôs, saltos... Embora tenha dito que se inspirou na jovialidade da personagem e passou pelo Japão para pesquisar o figurino, com todo esse excesso Field dá um inevitável recado: “Estilo não tem nada a ver com dinheiro; você pode não ter dinheiro e ter um ótimo estilo ou muito dinheiro e nenhum estilo. Estilo não é o que você usa. É como você usa”, diz ela na entrevista de apresentação do filme. Portanto, o consumismo delirante é apenas uma arapuca para pegar trouxas com cartão de crédito.
E para quem adorou as escolhas de Meryl Streep e trocou de roupa com Anne Hathaway em O Diabo Veste Prada, Delírios de Consumo traz a inglesa Kristin Scott Thomas na pele de uma editora de moda “podre” de chique. Ufa!
O consumismo exacerbado, tão estimulado pelo marketing, é um dos responsáveis pelo aumento nos casos de
oniomania, mas não é o único culpado. Esse problema surgiu antes dos marqueteiros se empenharem em “criar necessidades” no consumidor. A primeira descrição clínica sobre a compulsão data de 1915. Entre as causas podem estar a educação recebida em casa, exemplos de familiares, fatores biológicos e psicológicos.
Alerta
Quem sofre desse mal dificilmente tem uma boa relação com o gerente do banco. Entretanto, os problemas financeiros não são as piores consequências do transtorno, segundo a psicóloga Tatiana Filomensky, do Ambulatório de Transtornos do Impulso (Amiti) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Tatiana é a responsável pelo atendimento a compradores compulsivos e explica que a falta de controle afeta diretamente o indivíduo, fazendo com que ele tenha sofrimentos reais e precise de tratamento. “Ele tenta se controlar, mas não consegue. Isso gera culpa e mal-estar. Ele entra em um ciclo em que acaba comprando de novo para melhorar seu estado emocional. Fora isso, é um problema que geralmente vem acompanhado de depressão e ansiedade, prejuízos sociais, profissionais e familiares”, afirma.
Compra nossa de cada dia
Se há alguém que não sinta prazer algum quando faz compras, que atire a primeira carteira. Seja por necessidade, capricho ou vontade de se alegrar, todos os dias milhares de brasileiros vão às compras e, até aí, não há nada de errado. “Comprar é uma terapia ótima e todo mundo gosta. Vivemos em uma sociedade materialista e a nossa volta tem novidades muito atraentes, por isso essa relação estreita entre consumismo e prazer”, diz o professor Akel Filho.
A empresária C.T, 37 anos, não abre mão da sensação de estar sempre carregando novidades – mesmo que elas fiquem no carro aguardando até que não tenha ninguém em casa. Seu ponto fraco é a maquiagem. E bijuterias, sapatos, relógios, roupas... Apesar de nunca ter se endividado, disse que até já tentou comprar menos, mas não viu muita vantagem. “Uma vez passei três meses fazendo economia, me segurando para não gastar. No fim, não tinha adiantado nada, estava com o mesmo tanto de dinheiro. Aí desisti. Meu lema agora é: ‘o dinheiro tem que circular’”, diz, decididíssima a torrar todos os seus tostões. Mas, entre sacolas de compras e caixas de presentes, ela confessa que já sentiu culpa e arrependimento. “Às vezes a consciência pesa. Minhas amigas andam dizendo que eu sou muito gastadeira, aliás, todo mundo diz, acho que já sou conhecida na cidade por isso”, diz.
Esse é realmente um dos sinais que mostram se uma pessoa está passando dos limites. O alerta de familiares e amigos é algo que não pode ser ignorado. “A pessoa, por mecanismos de defesa, nega o problema e não admite buscar ajuda. Mas quanto mais cedo é feito o diagnóstico e inicia-se o tratamento, melhor é o prognóstico, que é o tempo de tratamento e a possibilidade de recuperação completa. A pessoa diz ‘eu compro porque me dá prazer e paro a hora que quiser’. Mas isso geralmente só acontece quando ela está com o cartão de crédito suspenso e o casamento arruinado”, conta Akel Filho.
Sem freio
Não há nenhuma comprovação de que mulheres sofram mais com a oniomania do que os homens, mas nos consultórios elas são a maioria. “A questão cultural determina que as mulheres procurem mais ajuda. Elas buscam mais informações e, enquanto ficam mais expostas na família, o homem tem uma postura mais independente em relação ao dinheiro”, conta a Tatiana Filomensky. Na hora das compras, as mulheres gastam mais com roupas, sapatos, bolsas, maquiagem e presentes para filhos. Já os homens estão mais ligados em eletrônicos, carro, perfumes, CDs e DVDs.
GAZETA DO POVO -
Viver Bem/Comportamento Curitiba, 04/07/2009
http://www.administradores.com.br/informe-se/artigos/quando-comprar-ja-nao-e-prazer/41253/