23 de agosto de 2011, às 16h45min

Quem avisa, amigo é

Como era de se esperar, ajustes draconianos na Grécia, em Portugal e na Irlanda impostos pela União Europeia e FMI causaram contração econômica e queda de arrecadação

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No final do ano passado, em meu artigo Sementes da Nova Crise, alertei que a situação europeia pioraria, causando uma nova crise global. É hora de voltar ao assunto.

Como era de se esperar, ajustes draconianos na Grécia, em Portugal e na Irlanda impostos pela União Europeia e FMI causaram contração econômica e queda de arrecadação. Com maior risco de calote, as taxas de juros exigidas por investidores para financiá-los subiram a três vezes os níveis de 2005 em Portugal e Irlanda. Na Grécia, já são cinco vezes maiores.

Agora outros países dão sinais de fragilidade. Espanha, Itália e França também tiveram elevações de seus custos de financiamento. Na Espanha, um pacote similar aos oferecidos à Grécia, Portugal e Irlanda, cobrindo três anos de necessidades de financiamento, exigiria € 450 bilhões. Hoje, UE e FMI não dispõem de tanto dinheiro, mas talvez consigam o que falta através de um grande aporte da Alemanha.

O caso da Itália é mais complicado. Mesmo que o governo consiga implantar as duras medidas anunciadas – o que é incerto – dificilmente este pacote será suficiente. Se a taxa de financiamento da Itália, que tem a terceira maior dívida do planeta, continuar subindo, o país necessitará de uma fonte alternativa para cobrir os € 850 bilhões de suas necessidades de financiamento nos próximos três anos, recursos acima do que Europa e FMI podem suprir.

Em tese, haveria soluções para evitar o colapso ou, no mínimo, adiá-lo por anos. A criação do "bônus da Europa", que substituiria dívidas nacionais por dívida conjunta de toda a Europa, é uma delas. Para aceitá-la, a Alemanha exigirá que países em crise cedam sua soberania fiscal para a União Europeia, algo inaceitável em vários deles.

Outra opção é intensificar a impressão de euros pelo BCE para compra de títulos dos países que não conseguem se financiar no mercado. Leva à maxidesvalorização cambial e forte aceleração da inflação. Inaceitável pela Alemanha.

Outra possibilidade seria uma megacapitalização do FMI pelos países emergentes, os únicos em condições de fazer isso, atualmente. Aí, o Fundo teria recursos para lidar com a crise. A arrogância europeia na substituição do presidente do FMI tornou esta alternativa improvável.

Sobra a opção do calote de um ou mais países da Europa. Se acontecer, causará perdas a todos os bancos europeus, forçando-os a contrair a oferta de crédito e exportar a recessão ao resto da Europa e, daí, a todo o planeta.

Ao contrário de 2008, países ricos não poderão estimular suas economias reduzindo impostos e aumentando gastos. Desta vez, a crise é fiscal. Tampouco poderão reduzir juros, já próximos de zero. Pelo menos por lá, é provável que esta crise seja pior que a de 2008.

Como em 2008, o Brasil será atingido pela queda na demanda e no preço de suas exportações. Como em 2009, a crise será menos profunda e duradoura do que no mundo rico. Como em 2010, uma vez passado o auge da crise global, o Brasil deve bater recordes de crescimento. Para aproveitar a bonança pós-crise você, sua empresa, sua cidade, seu estado e o país, precisam estar preparados. Caso contrário, correm o risco de se afogar na marolinha. Quem avisa...

Ricardo Amorim | @ricamconsult

Texto publicado originalmente na coluna do autor na Revista IstoÉ de 19/08/2011.

 

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Autor
Um dos apresentadores do programa Manhattan Connection da Globo News desde 2003, Ricardo Amorim tem presença destacada na indústria financeira mundial há 17 anos. Atualmente, é presidente da Ricam Consultoria, aconselhando grandes clientes no Brasil, América Latina, Estados Unidos, Europa e Ásia em projetos financeiros e de investimentos

Um dos primeiros a prever, ainda em 2007, a atual crise financeira global, Ricardo profetiza desde o final de 2.008 o descolamento de China, Índia e Brasil da crise econômica de EUA, Europa e Japão. Ricardo vai mais longe e projeta que o Brasil será um dos líderes do crescimento global nos próximos 5 anos, gerando oportunidades excepcionais de negócios.

Por acreditar firmemente nestas oportunidades, Ricardo retornou ao Brasil em 2008 para assumir a posição de C.E.O. da Concórdia Asset Management, após 8 anos em Nova York. Lá, foi Diretor Executivo para Mercados Emergentes (América Latina, Ásia, Leste Europeu, Oriente Médio e África) do banco alemão WestLB. Foi também Diretor de Estratégia de Investimentos para a América Latina da IDEAglobal, uma das maiores consultorias de investimento do mundo e Estrategista Sênior para Mercados Emergentes do banco francês BNP Paribas. Em São Paulo, atuou no BankBoston, Itaú Bankers Trust Asset Management, Banco Fenícia, e na consultoria econômica MCM e lecionou no curso de pós-graduação em Gestão de Riscos da Universidade São Marcos. Em Paris, trabalhou na Divisão de Mercados Emergentes do Banco Société Générale.

É economista formado pela Universidade de São Paulo e pós-graduado em Administração e Finanças Internacionais pela ESSEC (École Supérieure des Sciences Economiques et Commerciales) de Paris e membro do Business Affairs Committee, o mais prestigiado comitê da Câmara Americana de Comércio de São Paulo.




 
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