13 de abril de 2011, às 11h02min

Sobre a sucessão da Vale e suas polêmicas

A Vale pode concentrar seus investimentos na atividade mineradora sem que isto signifique encerrar seus movimentos numa perspectiva de curto prazo. Ocorre que a gestão de Roger Agnelli não foi capaz de promover um efetivo comprometimento com a lucratividade no longo prazo da Vale.

Tamanho do texto:
Por Felipe
 
Compartilhar
Acredito ser possível identificar três subtópicos dentro da polêmica gerada pela questão da sucessão na Vale: a questão partidária, a questão do modelo de desenvolvimento econômico e a estratégia da Vale. Segue, na sequência, algumas reflexões iniciais sobre estes pontos:

 

QUESTÃO PARTIDÁRIA

Trata-se de uma ignorância política e social a assertiva que aproxima a nomeação política dos interesses corruptores. Primeiro porque ignora a existência da corrupção dentro das empresas privadas onde a crise de crédito e suas fraudes, relatadas exaustivamente no documentário vencedor do Oscar Inside Job, refutam qualquer hipótese que defenda a privatização como solução para a corrupção.

 

Demais, o governo da coisa pública pelo governo eleito democraticamente manifesta-se justamente na nomeação dos seus partidários para a direção das organizações públicas. Ora, num ambiente democrático, estes políticos de carreira serão responsáveis por dirigir a organização, cabendo aos servidores de carreira a execução das políticas públicas e a promoção de projetos que serão rejeitados ou promovidos pelos dirigentes de acordo com sua relevância e adequação às políticas públicas do governo democraticamente eleito.

 

É importante reforçar que a escolha de especialistas "neutros" para a gestão destas organizações implica na opção pelo governo aristocrático, uma vez que, no limite, as eleições em nada afetariam a política pública. Certo, a democracia liberal apresenta diversas instituições com caráter aristocrático como o poder judiciário e mesmo as suas organizações públicas: CVM, CADE, etc. A questão fundamental para que as enquadremos num ambiente democrático é a escolha de dirigentes sem o quê a capacidade do Estado e, através dele, dos cidadãos, converterem as suas esperanças em realidade estará sepultada.

 

MODELO DE DESENVOLVIMENTO

 

O modelo neoliberal, atualizando a via anglo-saxônica de desenvolvimento econômico, aposta na desregulação e na economia de livre mercado para a promoção do bem estar social enquanto as políticas keynesianas confiam no Estado indutor para a promoção do crescimento, polarização exaustivamente tratadas na discussão.

 

Considerando a crise de crédito em si mesma a mais adequada refutação das teses monetaristas dela constituintes, enfocar-se-á a aproximação entre os princípios inerentes aos modelos keynesianos e a via prussiana de desenvolvimento e suas implicações na questão em discussão.

 

A via prussiana, responsável pelo desenvolvimento alemão no governo de Bismarck baseia-se na concepção de Estado de Hegel, onde seu papel seria não apenas de induzir o crescimento econômico e a diversificação produtiva como atuar em suas contradições, protegendo minorias e minimizando ou exigindo contrapartidas em relação às externalidades causadas pela atividade econômica.

 

No Brasil, o Estado indutor varguista introduziu esta via de desenvolvimento, posteriormente aprofundada durante o governo JK e retomada no governo Lula após o seu desmonte durante a era FHC. Não à toa, os economistas da escola cepalina, onde se destaca Celso Furtado e boa parte dos economistas influentes no governo Lula, propunha a ação do Estado para a promoção do desenvolvimento, a saber: o crescimento econômico com distribuição de renda, produção industrial alinhada com as especificidades culturais do país e uma base produtiva moderna e incentivada a inovar e colher os riscos do empreendedorismo, o que só é possível através da economia de mercado mista, ou seja, por uma economia que combina e incentiva o empreendimento privado com o planejamento de longo prazo, estruturante, do Estado.

 

A discussão em questão encerra-se neste ponto. Polariza-se entre "estatização" e "privatização" ignorando que não está em questão a escolha entre uma economia totalmente planificada ou plenamente "livre". O que é necessário decidir é como combinar as ações dos agentes privados e do Estado na promoção do progresso social e o desenvolvimento econômico e qual o papel das estatais neste processo.

 

A discussão sobre o papel que o governo deve exercer legitimamente enquanto acionista da Vale insere-se neste contexto.

 

ESTRATÉGIA DA VALE

 

Assumindo uma análise ainda superficial sobre a estratégia da empresa percebe-se que a Vale pode enfocar a mineração, investindo no aperfeiçoamento da atividade seja por meio da descoberta e exploração de novas jazidas, seja ampliando seu escopo de atuação e mesmo aprofundando a sustentabilidade da sua produção.

 

Neste ponto, concordo que a Vale pode concentrar seus investimentos na atividade mineradora sem que isto signifique encerrar seus movimentos numa perspectiva de curto prazo. Ocorre que a gestão de Roger Agnelli não foi capaz de promover um efetivo comprometimento com a lucratividade no longo prazo da Vale, o chamado lucro sustentável, tanto quanto ignorou seu papel estratégico para o desenvolvimento do país.

 

E isto está diretamente relacionado com a ação reflexa que orienta o movimento dos especuladores e investidores no mercado de capitais. Ora, aceitar que o valor de mercado reflete o valor efetivo da ação, ou seja, os dividendos futuros trazidos a valor presente, como prega a teoria das finanças empresariais, é uma ingenuidade. E isto porque ela baseia-se em pressupostos não razoáveis como a inexistência de assimetrias informacionais e de fundos com capacidade de influenciar os preços com os seus movimentos.

 

Certo, o valor de mercado revela, como nos ensina o grande especulador George Soros, a ação reflexiva dos agentes e suas esperanças relativas à variação no seu valor financeiro no curto prazo e isto significa que a busca pela maximização do valor de mercado da empresa é, no limite, um objetivo empresarial de curto prazo, comprometendo mesmo a capacidade do BSC de dirigir a orientação em torno de uma perspectiva sustentável.

 

O objetivo do governo é promover a troca de comando da Vale, incentivando a entrada de um executivo alinhado com a necessidade de conciliar os objetivos de longo prazo e de curto prazo da empresa e seu valor estratégico para o desenvolvimento do país. Não se trata de uma solução com resposta simples mas de um desafio para um grande executivo, um líder, desafio para o qual Roger Agnelli se revelou incapaz talvez por lhe faltar a percepção do que estava em jogo.

 

Desejo sucesso ao próximo presidente da Vale e visão sistêmica, pois os desafios gerenciais que as empresas enfrentarão neste milênio tornarão anacrônicos, em poucos anos, executivos incapazes de buscar caminhos factíveis para promover resultados sustentáveis, e não esplêndidos no curto prazo, para as suas organizações.

 

Curta o Administradores no Facebook e siga os nossos posts no @admnews.


As opiniões veiculadas nos artigos de colunistas e membros não refletem necessariamente a opinião do Administradores.com.br.
Assuntos
Gostou?
 
Autor
Atualmente trabalho como consultor em estratégia emrpesarial, sou membro do LABEDUCEMP e graduado como bacharel em administração com habilitação em estratégia empresarial na UFRJ. Fui monitor de Filosofia da administração, metodologia da pesquisa e comunicações administrativas, experiências que contribuíram para o meu conhecimento da área de estratégia empresarial.

Procuro enfatizar as relações entre o empreendedorismo e a estratégia empresarial dentro do objetivo adminstrativo de "tornar o trabalho produtivo e o trabalhador realizado"( DRUCKER), por acreditar ser este o principal desafio da administração contemporânea.

Ser capaz de conciliar os interesses e expectativas dos stakeholders da organização, inclui a implementação acrítica das tecnologias exóticas e a capacidade de explorar e desenvolver convenientemente as competências internas organizacionais.

Avançar na direção da superação deste desafio e me preparar para oportunidades de trabalho e pesquisa na área gerencial são minhas principais expectativas nesta comunidade.

Abs,
leesebrasil.blogspot.com
leesebrasil@ufrj.br
 
Mais do autor
Deixe seu comentário

Baixe gratuitamente o app da Revista AdministradoresE tenha acesso às edições da revista. Disponível para iPad, iPhone e iPod Touch.
Últimos comentários
 
  Caros senhores, bom tarde a todos,   Com o devido respeito, discordo da opinião emitida pelo autor...
 
isso não resolve porque nos dias de medição a empresa sabe e proibe os operadores de tirar pausa par...
Elizangelasouza 14 hora(s) atrás em
Novas estratégias para novos comportamentos
 
Um artigo de grande relevância para àqueles que acreditam que a mola mestre de toda ação perpassa po...
Informativos
Receba nosso informativo em seu e-mail.


Enquete
Você, estudante de Administração, pretende seguir qual caminho ao concluir o curso?
Prestar concurso público
Abrir seu próprio negócio
Trabalhar para empresas privadas
Seguir carreira acadêmica
Outros

Indicadores
Câmbio
PapelCompraVenda
Dólar ComercialR$ 1,99R$ 2,00
Dólar Paralelo SPR$ 1,91R$ 2,14
Dólar Turismo SPR$ 1,91R$ 2,14
EuroR$ 2,49R$ 2,49
Bolsa de valores
BolsaVariaçãoFechamento
Bovespa+0.7454063.00
Dow Jones-0.6012454.83
Nasdaq-0.072839.38
Fonte: